O Meu Útero Blog
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Adenomiose: o que é e como se diagnostica?

Há coisa de um mês e tal descobri que tenho adenomiose. Mas afinal que doença é esta? Como é que se diagnostica? Tem cura?

Quando recorri à clínica CEI para fazer uma ecografia transvaginal nunca tinha ouvido falar de adenomiose. Na verdade, receava ter endometriose e esta ecografia é um dos mecanismos utilizados para diagnosticar essa doença. E não só.

Uma vez que a adenomiose não recebe tanta atenção como a endometriose, resolvi fazer um vídeo a falar um pouco sobre esta doença. Na altura, ainda não sabia que também sofro de endometriose e ainda não fazia ideia da jornada em que isto se iria tornar. (Para quem não quiser estar a ler este artigo até ao fim, o vídeo está aqui:)

Fui sozinha e fiz o exame com o Doutor António Relvas. Expliquei-lhe os meus sintomas. Verificámos os meus ovários poliquísticos e eu vi pela terceira vez o meu belo útero.

Enquanto o médico movimentava a câmara, ia ditando à enfermeira o que escrever no relatório e anotou ele próprio, na imagem da ecografia, a palavra Adenomiose em cada lado do meu miométrio (musculatura que reveste o útero).

miometrio

Imagem: representação ilustrativa do útero

Nunca tinha ouvido essa palavra. Há toda uma gíria médica para tudo e mais alguma coisa, provavelmente eram apenas uns indicadores e por isso não me assustei. Mas quando o médico me disse que “Eu já lhe explico o que é isto, não se preocupe” eu percebi que talvez não deveria ser expectável. Mas não fiquei alarmada.

O que é a adenomiose?

Depois de feito o exame, esclareceu-me que o endométrio, por vezes, cresce na parede do músculo que envolve o útero. Esta parede chama-se miométrio e ao resultado deste processo chama-se adenomiose. Por isso, durante  o exame, estavam visíveis os locais inflamados. A adenomiose é também entendida como endometriose interna.

Existem dois tipos de adenomiose: localizada ou difusa. É localizada se se encontra apenas num ponto específico; difusa se está distribuída por todo o miométrio.

O médico perguntou-me se eu estava a pensar em engravidar em breve. Respondi que não. Sugeriu-me então que tomasse a pílula para tratar os sintomas e depois, quando um dia quiser engravidar, voltaríamos a falar.

[Quando escrevi este artigo, ainda não tinha obtido o diagnóstico de endometriose, após o qual resolvi recorrer a uma via de tratamento natural, com um plano de tratamento recomendado por uma médica especialista na doença. Vou partilhando o meu dia-a-dia aqui.]

Porque é que a adenomiose acontece?

Na verdade, ninguém sabe ao certo. Existem várias possibilidades. Uma delas é existir um nível de estrogénio muito superior ao nível de progesterona no corpo da mulher. Ou seja, ou são os níveis de estrogénio que são mais altos do que o normalmente expectável, ou é a progesterona que é inferior ao normal.

Assim sendo, analisar o nível de estrogénio pode não trazer informação propriamente relevante. Isto porque os valores do estrogénio até podem estar normais mas, quando comparados com os níveis de progesterona, são muito superiores, quando deveriam estar equilibrados.

A adenomiose também pode surgir no decorrer de uma cirurgia, uma vez que afecta mulheres que tenham feito uma intervenção cirúrgica como uma cesariana ou uma interrupção voluntária da gravidez.

Sintomas da adenomiose

Há muitos sintomas relacionados com a presença de adenomiose. Mas é importante sublinhar que muitos destes sintomas podem estar associados a outros tipos de condições. Apenas um médico especializado saberá dar o diagnóstico claro e objectivo sobre o que se passa no nosso útero.

De qualquer das formas, descobrir os possíveis sintomas pode ser um primeiro passo na busca por um diagnóstico. Por isso, eis aqui uma lista útil[1]:

  1. Dismenorreia (períodos menstruais dolorosos)
  2. Menorragia (fluxo menstrual muito intenso)
  3. Cólicas menstruais muito intensas (às vezes tão fortes como o último estágio de trabalho de parto)
  4. Útero de tamanho aumentado, podendo crescer até três vezes o seu tamanho
  5. Inchaço abdominal
  6. Sensação de ventre pesado
  7. Pernas pesadas
  8. Sangramentos entre períodos
  9. Dor no acto sexual
  10. Pressão na bexiga
  11. Dores intestinais durante a menstruação
  12. Coágulos sanguíneos grandes durante o período
  13. Períodos demasiado longos (8 a 14 dias)
  14. Anemia crónica
  15. Depressão e ansiedade
  16. Pode contribuir para infertilidade
  17. A intensidade das dores vai aumentando ao longo do tempo
  18. Torna-se mais comum quando à medida que as mulheres envelhecem
  19. Algumas mulheres não apresentam sintomas

Quanto a mim, sentia os sintomas 1, 3, 5, 7, 9, 11 e 17 e nem os reconhecia como tal. Eu sou assim, pronto – pensava eu.

Como é que é realizado o diagnóstico?

Há várias formas para diagnosticar a adenomiose e muitas vezes uma só pode não trazer respostas.

Pode ser detectada através de uma ecografia, sendo que a ecografia transvaginal permite uma interpretação mais facilitada da imagem;

Pode ser detectada através de ressonância magnética;

File:MRI-Philips.JPG

Pode ser também identificada através de uma histerossonografia. Em último caso, existe a histerectomia, que é a remoção cirúrgica do útero. Esta é a forma mais fidedigna de diagnosticar adenomiose (claro, o médico fica com toda a liberdade para ver o útero a olho nu!), mas naturalmente não é feita com esse propósito.

Existe cura para a Adenomiose?

Existem tratamentos para calar os sintomas, mas a única cura disponível  de momento é a histerectomia. No entanto, é só realizada em casos extremos, até porque quando as mulheres entram na menopausa a doença desaparece e, consequentemente, todos os seus sintomas.

 

[1]  YAGER, Maria (2012) My Hormones are Killing Me: Living With Adenomyosis and Estrogen Dominance, pp.63

Endometriose: Testemunho da M.

Porque é que os tratamentos para a endometriose falham

 

7 comments

  1. Sou Sidnéia. Tenho 30 anos e descobri que tenho adenomiose com 23 anos. Sempre sofri de dores horríveis e menstruação abundante. Há um ano, o estágio da doença piorou, coloquei DIU como tratamento, mas tive uma hemorragia horrível, cheguei ate a desmaiar. A partir daí, está minha luta, tomando vários hormônios e medicamentos para cessar o sangramento sem muito sucesso. Indo a vários médicos. A solução seria a retirada do útero, mas como tenho somente 30 anos e mesmo não querendo ter filhos os médicos estão negando este procedimento. Não aguento mais, estou a 3 meses com sangramento. Só quem tem esta doença sabe o quanto é doloroso!!

  2. Olá! Ao encontrar este post e os anteriores quase que me vieram as lágrimas aos olhos.
    Tenho 24 anos e duas gravidezes muito precoces (duas meninas lindas que são o meu orgulho), desde agosto de 2011 que tinha colocado o Implanon, correu tudo bem até ao ano de 2015. Nessa altura comecei a ter hemorragias muito muito abundantes, fiz a primeira ecografia transvaginal que acusou uma pequena massa ou um ligeiro espessamento do útero. Por volta dessa altura apareceram me também uns 3 pequeninos sinais da cor da pele a volta do períneo. A minha médica de família disse me que não era nada de preocupante, e que o espessamento do útero poderia ser por estar a chegar ao período fértil. A partir dessa altura comecei a ter dores muito muito intensas na altura da menstruação (nunca sofri de dores nem na primeira vez que fui menstruada), os sangramentos tornaram se cada vez mais abundantes, a minha médica de família achou que para controlar as hemorragias eu deveria continuar com o implante e tomar em simultâneo uma pílula combinada. A situação contínuo ao ponto de o sangramento ser tanto que sujava cama, chão sanita TUDO. Com esse sangramento vinham coágulos enormes.
    Em dezembro de 2017 estava a trabalhar num dia super normal sentada na secretaria, até que tive uma dor fortíssima do lado esquerdo que me fez cair no chão e não me levantar mais.
    Fui de urgência para o hospital Santa Maria onde me foram diagnosticados quistos nos ovários, o do lado esquerdo com 7cm e o do lado direito com 4cm, acrescentando também uma distensão no ovário esquerdo. Continuei com os sangramentos, e com imensas dores. Depois de várias idas á urgência do hospital Santa Maria e amadora sintra, depois de muitas ecografias e de me dizerem constantemente que os quistos estavam a diminuir ( o do lado direito desapareceu e o do lado esquerdo diminuiu para 3cm), de retirar o implante e consecutivamente as hemorragias abrandarem, de me receitarem mil e um antibioticos, anti inflamatórios e inclusive morfina as dores continuaram. A subir escadas, parada, nas relações sexuais, a levantar pesos, ao toque dores HORRÍVEIS! Os médicos apenas me diziam que não existia motivo para ter tantas dores.
    Na última ida a urgência a médica questionou me se já alguma vez tinham analisado o meu utero pois apresentava algumas irregularidades, eu comentei o que tinha acontecido em 2015 e ela disse me para falar com o meu médico. Repeti uma nova ecografia numa clínica onde indicaram que tinha um polipo com 2cm e o útero espessado. Consegui uma consulta da especialidade no hospital Santa Maria apenas através de uma cunha, se não o tempo de espera seria de 1 ano. As minhas dores são tão intensas que não consigo sequer trabalhar. Hoje fiz uma ecografia na especialidade de ginecologia onde me foi diagnosticada adenomiose, com polipos e outras irregularidades na parede uterina que não se conseguem especificar apenas com a ecografia, por isso vou realizar um exame que parece uma endoscopia mas no utero. A médica disse me que era perfeitamente normal todas as dores que eu sentia, pois vinham daqui e não dos quistos que entretanto desapareceram. Chorei, estou bastante ansiosa porque a muito tempo que não me sinto bem, Estou sempre muito cansada, com uma fadiga extrema oscilações de peso, anemias e dores tão horríveis que têm condicionado a minha vida que era tão ativa. Está quinta feira vou ao médico que me segue para ele me dizer qual será então o próximo passo. Ainda não me disseram se a minha adenomiose é local ou difusa, penso que também estejam a espera de saber o que são as outras “coisas”. Saber que existem outras pessoas com casos semelhantes ao meu tira me um enorme peso de cima! Obrigada

    1. Olá minha querida Eliana! Antes de mais, desculpa por não ter respondido logo. Queria muito ter tempo para te responder com calma e a verdade é que tenho andado com muita coisa para fazer. Mas não me esqueci!

      Muito obrigada por partilhares a tua experiência, fico muito contente que encontres aqui um espaço seguro para desabafares.

      Hoje às 22h00 irei fazer uma emissão em directo do instagram com um psicólogo para falarmos de formas de gerir o impacto psicológico e emocional desta doença crónica e acho que poderás achar muito útil!

      Quanto às queixas que apresentas, já experimentaste alterar a tua dieta para ver se tens melhorias? Se não o fizeste, tenta começar por cortar lacticínios, gluten e açúcares. (Preciso mesmo de escrever um artigo sobre a alimentação anti-inflamatória.) Por agora fica com isto:
      https://www.instagram.com/p/BdnW5POlFPi/?taken-by=omeuutero

      Um beijo grande, volta sempre! <3

      1. Olá querida Catarina também só agora consegui vir aqui, gostava de ter melhores notícias. Já realizei a histeroscopia, foi sinceramente a pior coisa que já fiz na minha vida, talvez muito por culpa de o meu colo do útero ser extremamente “pequeno” e mesmo com os comprimidos para dilatação não terem ajudado, mas consegui realizar o exame. Vários polipos, e adenomiose do lado direito (em princípio não tem certezas). Realizei o exame dia 26 abril desde essa data até hoje não houve um único dia que não estivesse a sangrar abundantemente “sangue vivo” com vários coágulos a mistura e outras coisas estranhas, uns “corpos” duros que não parecem coágulos. Já me receitaram mil e uma hormonas diferentes, mas não param os sangramentos nem as dores que a cada dia que passa são piores. Para além disto tenho um “corpo estranho” no fundo da cavidade uterina, que não consideram nem polipo nem mioma, ninguém sabe ao certo o que é. Estou tambem a 3 meses a espera de uma ecografia a bexiga e intestinos para ter a certeza que está tudo bem. Sexta feira tenho nova consulta e espero ter boas notícias, ou pelo menos alguma solução ou situação mais concreta do que se está a passar comigo porque já não aguento mais.
        Obrigada pela ajuda, essa ja é a minha dieta normal precisamente!
        Também tinhas assim dores e sangramentos tão fortes??
        Queria muito pedir uma 2 opinião, recomenda algum médico ou clínica? Estou a entrar em desespero já não sei o que fazer e ninguém me da uma resposta concreta, Já passaram 6 meses….
        Obrigada!

        1. Olá Eliana, gostaria de poder dizer que fico contente por ter notícias tuas, mas já percebi que não estão a ser tempos fáceis para ti. Não faço ideia de que médico te segue, o meu médico especialista em endometriose é o Doutor António Setúbal e se não o conheces, ele é muito competente e poderá dar-te uma segunda opinião.

          Quanto à minha experiência, eu nunca tive sangramentos excessivos, mas também nunca me sujeitei a esse tipo de intervenção. Eu já tive sangramentos aleatórios (escapes pequenos, provavelmente por causa do síndrome dos ovários poliquísticos) mas os meus períodos não são abundantes nem duradouros.

          Recomendo vivamente que procures também algum profissional de saúde que te possa acompanhar em termos de dieta e suplementação: probióticos, prebióticos e outro tipo de suplementação são termos que talvez devessem constar do teu dia-a-dia (atenção, isto é uma mera recomendação, deverás ver com o médico que te seguir qual o tratamento mais adequado). Acredito que seja possível atenuares esses sintomas através de uma terapêutica natural, ainda que decidas seguir com a toma de hormonas recomendada pelo(s) teu(s) médico(s).

          Também tem em atenção o teu estado emocional… eu sei que está a ser uma fase complicada, mas não te esqueças que a coisa acaba por se tornar num ciclo vicioso. Mais tensão, mais dor; mais dor, mais tensão – e este ciclo contribui negativamente para a recuperação. Já consideraste yoga e/ou meditação, por exemplo?

          Lamento não poder ajudar-te mais. Mas espero que te recuperes rapidamente.

          Se quiseres mais referências de médicos, contacta a Associação Portugesa de Apoio a Mulheres com Endometriose: http://www.mulherendo.pt ou através da página de facebook: https://www.facebook.com/AssociacaoMulherEndo/

          Boa sorte minha querida!

          Beijos

  3. Boa tarde.tenho 31 anos de idade nunca tive filhos e sofro desse problema…….infelizmente nunca vou puder ter filhos não tenho como pagar um tratamento desses. a medica informou-me que se quisesse engravidar tinha que fazer tratamentos de fertilidade mas eu sei não vai resultar é uma dor muito grande so queria puder ter a experiencia maravilhosa de ser mãe. minha mãe teve 9 filhos desses filhos todos eu sou a única que não pude dar um neto…..sofro muito com isso….

    1. Minha querida, nem tudo está perdido. Procura o grupo no Facebook Endometriose Sem Censura para um pouco de motivação. Muita mulheres, felizmente, conseguem engravidar naturalmente tendo adenomiose. Eu entendo como deve ser difícil aquilo pelo que estás a passar mas o mais importante é cuidares de ti, do teu corpo e da tua cabeça. Muita força para ti! Beijos

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