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endometriose crise de gases

Endometriose: quando uma crise de gases me mandou para o hospital

Já partilhei convosco que, desde que deixei a pílula em 2016, comecei a desenvolver todo um rol de pequenas crises e dores.

Eu só não sabia que eram sintomas.

Não os senti todos de uma vez e eram todos diferentes. O processo foi gradual, não me permitindo, de início, fazer uma ligação directa entre eles.

A primeira vez que menstruei sem estar a tomar a pílula, tive dores horrendas. Por cinco anos não tinha sentido aquelas dores – se bem que, na fase final da toma da pílula, as cólicas menstruais estavam a regressar de mansinho, o que foi também um incentivo para parar.

Mas as dores não eram, para mim, novidade.

Já as sentia antes de ter iniciado a toma da pílula, sempre senti. Aliás, foi sobretudo por causa das debilitantes cólicas menstruais que comecei a fazer anticoncepcional!

Mas não sabia o quão relacionadas poderiam estar com uma doença chamada endometriose.

Aquilo era simplesmente eu.

Até que tive o meu primeiro “episódio”. Mesmo tendo feito pesquisa na internet, nunca tinha ouvido falar de uma crise semelhante até descobrir que tinha adenomiose e endometriose e ver testemunhos de outras mulheres que passaram exactamente pelo que eu passei.

Por isso faço-vos um relato do que aconteceu:

(Já agora, se tiveres interesse em saber mais sobre endometriose e sintomas intestinais, espreita aqui.)

22 de Outubro de 2016, 20h30

Tinha acabado de conseguir um novo emprego. Algumas raparigas lá do trabalho decidiram ir jantar fora e convidaram-me. A minha colega de casa também trabalhava comigo, então fomos juntas.

Ao chegar ao restaurante, comecei a sentir cólicas menstruais ligeiras e comentei com ela como aquilo era estranho, não era suposto vir-me o período, tinha-o tido duas semanas antes.

Mas tudo bem. Sentei-me para jantar, pedimos a comida (que eram tapas com tudo aquilo que hoje sei que uma pessoa com endometriose NÃO pode comer) e comecei a sentir que gases começavam a formar-se no meu intestino.

De início, não era uma sensação nova – quem nunca teve gases desconfortáveis na vida? Mas piorou rapidamente. Os intestinos ardiam-me tanto que eu sentia cada milímetro labiríntico da parede intestinal.

E começaram as náuseas. Forcei-me a comer algo porque, pelo menos comigo, comer qualquer coisa quando sinto náuseas traz-me alívio. Mas, nesta situação, foi uma má decisão.

Tudo isto foi muito rápido, cerca de 15 minutos, ainda mal tinha começado o jantar.

Tentei não prestar atenção ao que estava a acontecer. Devo ter comido alguma coisa que me caiu mal, pensei. Vai passar, pensei. Mal sabia eu que estava só a começar.

Aí a barriga começou a inchar estupidamente. Tanto, mas tanto, que tive de desabotoar as calças discretamente.

Estava cheia de vergonha e, como não ia passar despercebido, comentei que me doía muito a barriga. Aquelas eram as minhas mais recentes colegas de trabalho, e ali estava eu, a agir de uma forma tão… estranha.

Começaram as tonturas. Tonturas como eu nunca antes tinha sentido. Foi como nos filmes: tentava com todas as minhas forças acompanhar as conversas e agir normalmente, mas tudo à minha volta se passava em câmara lenta e a minha preocupação agora era como é que eu iria dizer que tinha de ir para casa da forma mais tranquila e eficaz possível.

Recorri à minha colega de casa. Não éramos assim tão próximas, visto que se havia mudado dois meses antes, por isso não fui verdadeira quanto ao meu desespero: “Acho que nunca me senti assim, estou um bocado assustada.”

Ela não fez caso da situação. Sorriu, afagou-me o ombro e disse algo do tipo “Oh, já passa, vais ver”.

Quando decidi que, desse por onde desse, tinha de sair dali, reconheci que a probabilidade de cair redonda no chão quando me levantasse (se por acaso me conseguisse levantar) era altíssima. O meu corpo estava a desistir de mim. Antevia a minha cara a cair chapada no prato do jantar.

Reuni todas as forças e chamei logo um uber. De tantas dores que sentia, não conseguia andar direita, subi as escadas abraçada ao meu ventre, aliviada por pelo menos já poder vocalizar aquela dor.

Três andares.

Primeiro, segundo, terceiro lance de escadas. Primeiro andar. Foca-te na felicidade que vai ser deitares-te na cama.

Primeiro lance de escadas do segundo andar.  Segundo lance de escadas do segundo andar. Não te sentes senão não te levantas. Terceiro lance de escadas e um terço já está feito.

Falta só mais um, e quem me dera que alguém me pudesse levar ao colo.

Parecia que tinha ácido sulfúrico a espalhar-se alegremente pelo interior do meu baixo ventre. Arde, queima, dói.

Barriga de grávida que me pesava pela vida.

 

22h00, Cheguei a casa

Instintivamente, a posição que achava que seria mais confortável para mim era encolhida, de joelhos e cotovelos na cama – aquela posição de descanso do Yoga.

Eu já tinha tido ataques dolorosos de gases várias vezes na vida (e, agora que penso, já deveriam ser indícios de endometriose) e por isso tenho sempre comigo comprimidos para diminuir os gases. Foi a única coisa que tomei.

Era um ataque de gases, mas não saía nada – era mesmo só a dor.

Comecei a sentir-me febril. Não medi, mas a febre manteve-se baixa. Dormi mal, acordando de tempos a tempos, porque a dor nunca acalmou. Mas também não piorou. Por isso, achava que o único desfecho era eventualmente passar.

 

23 de Outubro, 14h00

Tantas horas depois, nada tinha mudado.

Continuava deitada e a febre apontava para presença de infecção, pelo que contactei a linha de saúde do meu seguro e expliquei a situação. Disse-lhes também que tenho ovários poliquísticos.

“Nesse caso é recomendável ir ao hospital porque pode ter tido a ruptura de um quisto”, disse-me a senhora do lado de lá do telefone (soube mais tarde que isso não é bem assim – ovários poliquísticos não são ovários com muitos quistos, mas não invalida que não tivesse um quisto).

Antes de continuarmos: durante toda a minha vida tive aversão a hospitais. Essa aversão quase que se tornou em fobia depois de o meu pai ter passado os seus últimos meses de vida num.

Liguei à minha mãe e pedi-lhe que me viesse buscar. Não queria preocupá-la mas também não sabia muito bem o que dizer visto que estava há tantas horas assim.

 

15h30, Cuf Descobertas

Não sei muito bem porquê, mas fomos para as urgências da Cuf Descobertas.

Depois da triagem, quando fui atendida pelo médico, expliquei os meus sintomas e expliquei o meu medo em ter um problema com um quisto. Ele ficou preso na parte de “não tomo a pílula”. Perguntou-me porquê; porque não quero.

“Mas se tem ovários poliquísticos”, disse-me “devia estar a tomar”.

E aí eu comecei a falar de como decidi tentar uma abordagem natural para curar este síndrome (que supostamente não tem cura, mas pode desaparecer). Perante o seu olhar céptico, logo me apercebi de que não valia a pena entrar por aí.

Então, tendo começado um argumento válido que eu já sabia que não iria funcionar, comecei a enrolar-me no discurso e a parecer uma doidinha.

A minha mãe continha o riso. “Olhe, não quero tomar, pronto, sei lá” concluí.

Percebi que de certa forma ele me condenava, ainda que não o tenha verbalizado; porque aquilo estava a acontecer-me por eu ter escolhido não seguir a medicina convencional; porque se estivesse a tomar a pílula isto não estaria a acontecer, logo a culpa era minha.

A bem das verdades, nada disto é mentira. De facto, estando a tomar a pílula, este tipo de sintomas tardaria muito mais em surgir.

Mas não significa que silenciar os sintomas sirva de alguma coisa. Eu tenho um problema no meu corpo e acredito que posso minimizá-lo; sinto que, ao tomar a pílula, estou só a adiar o inevitável e a proibir o meu corpo de funcionar como ele está programado para o fazer.

E a decisão de não tomar a pílula é um direito que me assiste.

 

Os exames

Primeiro, o médico observou o meu inchaço abdominal e pressionou-me abaixo do umbigo.

Doía muito, disse-lhe eu.

“Então e se eu fizer isto?” e retirou a mão de repente. Descobri mais tarde que esse era o exame típico quando há suspeitas de apendicite. O paciente, perante esta retirada repentina da mão, manda um salto de tanta dor que sente.

No meu caso, nada a apontar. Era doloroso, mas dentro da normalidade.

Ficou intrigado. “Pode tratar-se de uma apendicite, vamos fazer exames para confirmar.”

Fiz análises ao sangue e anti-inflamatório intra-venoso.

As análises revelaram que havia infecção no corpo. O anti-inflamatório fez desaparecer as náuseas e a sensação de febre e atenuou um pouco as dores.

Fiz uma TAC com contraste.

Voltámos a reunir com o médico que, embora tentasse escondê-lo, estava visivelmente atrapalhado.

“Existe um líquido decorrente de algum processo inflamatório e pode ser uma apendicite”, disse-nos “mas não conseguimos garantir que é, e não podemos abri-la sem ter a certeza. Por isso vamos ver como é que estão os ovários para garantir que está tudo bem.

Fiz uma ecografia endo-vaginal – já tinha feito uma vez – e este médico era desnecessariamente bruto com a sonda. Eu estava a queixar-me de dores e ele continuava, movia aquilo como se estivesse a manejar o leme de um veleiro.

Com um sorriso displicente, disse-me que os meus ovários estavam óptimos. Poliquísticos, mas óptimos. Nada de quistos rebentados.

Voltei ao gabinete do médico que me tinha atendido.

Reforçou que era muito arriscado operarem sem termos certezas, pelo que me mandou para casa a tomar brufen. “Se não notar alívio nas próximas 12 horas, ou se piorar, volte.”

Notei alívio gradual das dores e três dias depois já estava praticamente a 100%.

Tudo aquilo tinha sido muito estranho, mas tinha passado. Eu achava que estava livre de perigo e preocupações.

Até que o episódio repetiu-se.

Uma vez.

Duas vezes.

E eu sabia que ir para o hospital seria só uma perda de tempo.

Eventualmente, comecei a suspeitar de que podia ter endometriose, mas nenhum médico concordava comigo.

 

Só um ano depois é que tive finalmente o diagnóstico.

3 comments

  1. Estou a identificar-me com muita coisa que diz.
    Gostava de saber que tipo de alimentação faz.
    Tenho adenomiose, ja estou om uma anemia e neste momento a solução passa por tomar pílula. Ja fiz tratamentos para engravidar e falharam todos

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