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dores menstruais

Ter dores menstruais NÃO é normal

Se calhar vocês, ou alguém que vocês conhecem, queixam-se das fortes dores menstruais que sentem. Ninguém faz caso disso. E é normal que assim seja. Afinal, é só uma característica física como qualquer outra, certo? Errado. Eu tenho endometriose e só o descobri 13 anos depois das primeiras queixas.

Ter dores menstruais não é normal e levei muito tempo a perceber isso

Tive a minha primeira menstruação quando estava quase a completar 12 anos e foi a única vez em que não tive qualquer dor.

A partir da segunda vez, conheci o que eram as dores menstruais. As minhas dores menstruais.

A única descrição que eu conseguia fazer das dores era de que sentia que me estava a desfazer por dentro. De tal forma, que tinha náuseas e diarreia. Não conseguia andar. Ficava enrolada em posição fetal na minha cama com uma almofada pressionada contra a barriga. Talvez fosse só psicológico, mas aquele suporte dava-me algum conforto.

As dores eram tantas que uma vez por outra não conseguia ir à escola. Lembro-me de uma vez ter faltado a uma visita de estudo da qual queria muito participar, e de reconhecer para mim mesma que me sentia como se estivesse doente.

Provavelmente, eu já estava doente.

Os trifenes ajudavam, mas só até um certo ponto. Deixei de fazer muita coisa que queria por causa destas dores mensais.

 

“É normal, há mulheres que têm mais dores que outras.”

Este foi o discurso que eu ouvi a minha vida inteira. Tinha até uma colega na escola que chegava a desmaiar de dores e uma vez contou-nos que, por causa disso, teve de ir para o hospital.

O discurso era heróico, quase como se tentássemos competir para ver quem é que tinha tido o azar de ter mais dores.

Nunca me lembrei de pedir ajuda, porque nem me passava pela cabeça que precisasse de ajuda.

Mas eu precisava de ajuda.

Nunca quis tomar a pílula, porque não tinha bem a certeza de que queria tomar hormonas numa base diária.

No entanto, saber que tomar um comprimido todos os dias ia trazer-me alívio nas dores menstruais e ia regular o meu período (que só anos mais tarde é que vim a descobrir que era tão irregular porque tenho o Síndrome dos Ovários Poliquísticos) começou a parecer-me a única alternativa para ter uma vida normal.

E foi maravilhoso. Foi toda uma experiência de ser mulher! De facto sentia-me mais mulher. Períodos regulares. Sem dor. Pele perfeita. Cabelos que não ficavam oleosos passado 12 horas de os lavar. O paraíso.

Em Setembro passado, depois de cinco anos quase ininterruptos a tomar a pílula, decidi parar de o fazer.

A partir daí comecei a ter um vislumbre do inferno e a lembrar-me do que era ter o período “a sério”.  As minhas hormonas andaram ao rubro e, a cada mês, cada surpresa. Menos as dores menstruais. Não me lembrava do quão fortes eram.

Comecei a ter de tomar tantos trifenes que, a certa altura, comecei a tomar logo ibuprofeno 600 de uma vez. E um não chegava. Às vezes nem dois.

Já tentei não tomar medicação para aliviar as dores porque queria sentir o meu corpo e perceber até onde é que as dores chegavam. Queria comunicar com o meu útero em vez de o silenciar. Queria ouvir o que me dizia e consolá-lo através da respiração e do repouso.

Não consegui aguentar até ao fim. Creio que se tivesse permanecido sem tomar um analgésico, teria desmaiado.

Em Outubro passado, um mês após ter deixado a pílula, senti abdominais tão fortes, acompanhadas de suores, febre baixa, náuseas, tonturas e sensação de desmaio, que tive de ir para o hospital. Estas dores começaram como uma leve dor menstrual, mas evoluíram para aquilo que me fazia crer que poderia ser uma apendicite.

Não fui só eu que achei que podia ser apendicite, mas também o médico que me atendeu. Fiz análises ao sangue, uma TAC, uma ecografia, e ninguém conseguia dizer-me ao certo o que se estaria a passar. Mandaram-me para casa a tomar ibuprofeno.

Este episódio repetiu-se e eu comecei a perceber que alguma coisa não estava bem.

De facto, a mensagem do meu útero foi clara: nós estamos doentes.

 

Não foi medo, foi intuição

Finalmente, acabei por conseguir o meu diagnóstico, em grande parte devido ao apoio e às informações prestadas pela Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose.

Tenho adenomiose e endometriose, duas doenças que são “primas” e que, provavelmente, desenvolvem-se através do mesmo processo: o endométrio, a camada fofa que reveste o interior do útero para acolher o embrião, deve ser expulso com a menstruação.

No meu caso, não. Partes de tecido semelhante ao endométrio surgem na musculatura do útero (adenomiose) e noutros pontos fora do útero (endometriose). Ninguém sabe muito bem porquê.

A adenomiose foi detectada através de uma ecografia transvaginal e a endometriose através do exame de toque vaginal e ressonância magnética, ambos os exames realizados com médicos especialistas.

Fiquei abalada com as notícias e também revoltada. Mas, sobretudo, percebi que era necessário falar mais e mais alto para mulheres e homens.

Destruir a crença de que as dores menstruais são normais e de que as mulheres têm simplesmente de aprender a viver com elas.

Ajudar outras mulheres a terem um diagnóstico o mais rapidamente possível.

E transmitir a informação toda que conseguir explorar sobre o assunto.

Decidi optar pelo tratamento natural dos sintomas da endometriose e registar o meu processo, para provar que é possível encontrar alívio sem nos enchermos de químicos. Não tomo pílula nem faço uso de DIU, mas levo uma vida livre de disruptores endócrinos, tanto quanto possível.

Eu sou a Catarina.

E este é O Meu útero.


 

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16 comments

  1. 11 anos no meu caso.
    4 cirurgias à coluna pensando que as hérnias provocavam dor no ciático, mas afinal era a endometriose espalhada até esse ponto. Horrível! Horrível! Uma história rara e sem explicação.

    1. Lia, lamento muito. 11 anos é muito tempo. Eu também sinto essa dor no nervo ciático e acredita que não és a única nessa situação… Imagino que as cirurgias não tenham tido grande efeito. Tens conseguido controlar as dores? Como é que acabaste por ter o teu diagnóstico?
      Beijinhos e muita força.
      Cat

      1. O meu marido é que suspeitou depois de muita pesquisa, porque os meus sintomas não indicavam nada relacionado com ginecologia, por isso os médicos não chegaram lá.
        Depois das suspeitas dele, o médico da dor crônica deu-nos ouvidos e encaminhou-nos para os médicos ideais: dr Luís Vicente hospital. Lusíadas, dra Filipa Osório hospital da luz. Cada caso tem a sua solução e o seu caminho e tem muito em conta os objetivos de cada mulher, casal. Eu estou bem, está controlado, mas não posso falhar a medição. Fiz histerectomia total entre outras intervenções dado que tinha aderências e quistos em muitos sítios, não se mexeu no nervo ciático, pois implicaria perda de mobilidade, e faço denille contínua.

        1. O hospital dos Lusíadas agora tem um centro dedicado à endometriose. Quando comecei o processo ainda não tinha.
          A minha mudou completamente. Eu tomava medicação para dor crônica todos os dias porque eu tinha dores todos os dias e mesmo com medicação a dor apenas diminuía, mas o sofrimento era permanente. Apenas nos primeiros anos é que estava associado aos ciclos, depois de se ter infiltrado no nervo ciático tornou-se permanente. Estive em cadeira de rodas algum tempo, mas atualmente faço uma vida razoável. A minha perna tem limitações de mobilidade, extensão e força. É sensível ao frio. Mas sou francamente uma pessoa feliz e todos os dias me lembro de quantas coisas consigo fazer e que em tempos não podia fazer e ninguém sabia porquê. Estava tão doente com a endometriose profunda grave e ninguém percebia o que se passava comigo.

  2. Eu tenho dores há 12 anos e sofro imenso com dores e nenhum medicamento me faz efeito,já mudei de pílula varias vezes e nenhuma me traz melhoras,ou seja,não tenho menos fluxo nem menos dores.
    tenho suores,má disposição,calores,sinto que vou desmaiar e mal me consigo mexer porque parece que me estão a esfaquear,pra não falar nas dores nos rins com que fico. Já fui â médica umas 500xs por causa disto e não há meio de saber porque sofro tanto,só fiz exames simples,secalhar tenho de fazer alguns desses para saber o que se passa.
    Gostei muito do artigo,foi esclarecedor e útil

    1. Olá Mary, obrigada por partilhares a tua luta <3 Fico triste por saber o que tiveste que passar, mas fico contente que o artigo tenha sido útil. Recomendo que visites mesmo um especialista, ou podes ficar na mesma (mesmo que realizes mil e um exames). Se precisares de contactos, contacta a Associação Portuguesa de Apoio à Mulher com Endometriose e eles dão-te essa informação de acordo com a área de residência. Se quiseres, manda-me mensagem pelo Facebook ou envia-me um e-mail: omeuutero@gmail.com

      Muita força minha querida!

      Cat

    2. Mary o doutor antonio setubal ( tem consultorio privado mas tambem da consultas no hospital da luz) é o principal nome em portugal no tratamento da endometriose. Para alem de ser otimo profissional é uma excelente pessoa e super humano! Eu aconselho vivamente a marcar consulta com ele. Se ha alguem que a pode ajudar é o doutor antonio.

  3. Ola catarina. Eu tambem tenho endometriose. Felizmente num estado inicial mas sei bem do que falas quando usas “infernal” para descrever a dor. A alimentacao e algumas terapias alternativas tem me ajudado a controlar os sintomas. Nao tomo pilula para isso. Força e obrigada por partilhares. o teu blog pode ajudar alguem que tal como tu, eu ouviu mil vezes que ter dores é normal. Um gande beijinho

    1. Olá Cláudia, obrigada pelo teu comentário! Fico feliz que também tenhas seguido esta via, espero que consigas manter os sintomas sob controlo eternamente 🙂 e é muito bom saber que há mais gente a optar por não tomar a pílula e a conseguir tratar os sintomas com um estilo de vida saudável. Beijinhos e força!

      1. Ola catarina 🙂 so hoje vi a tua resposta. Obrigada pelas tuas palavras. Estamos juntas 🙂 Se algum dia quiseres conversar diz me. Acho que temos de nos apoiar nestas coisas e ajudar. Ha muita falta de informacao e acho que tens uma grande coragem em partilhar! O que precisares diz, se poder ajudar 🙂 um grande beijinho e força

  4. Olá. O meu nome é Adriana e estou a 2 meses dos 20. Conheci-te, se assim mo permites, pela entreolhadela à entrevista que deste à RTP. O volume estava baixo, a avó estava a dormir, mas ia ouvindo o que dizias e ia lendo os rodapés. Endometriose. Não me era desconhecida, pois já tinha feito um trabalho no secundário sobre a doença e desde então que fiquei ainda mais solidária e alerta. Hormonas são demasiado a minha cena. Na TPM fico louca, desregulada, desmotivada, ainda com menos auto-estima e a paciência torna-se desproporcional à vontade de chorar 24/24, torno-me num autêntico buraco negro. A acne chegou há 6 anos e, mesmo com tratamento dermatológico, cá ficam as marcas e as amigas dão uma visitinha dependendo da altura do mês e do stress. Desde 2010 que as dores menstruais surgem. Ou seja, desde sempre. Uns meses piores, outros melhores. Nada que um ou dois trifenes, ou um a cada 8h durante cerca de 3 dias (que é o tempo que as dores horríveis costumam atacar) não resolva. Desmaiei pelo menos duas vezes, mas eu desmaio por tudo e por nada, até por torcer o pé. Isto foi a minha vida durante 8 anos. Até hoje. Hoje, mais uma vez, acordei com dores (Yay! Não vou passar por isto durante as férias!), corri para a casa de banho, da casa de banho para o trifene, do trifene para a casa de banho, da casa de banho cambalei para o hall. Precisava de me deitar. Não queria desmaiar, uma vez que estava sozinha em casa e podia bater com a cabeça num móvel e ficar por lá. Ouvidos entupidos significam quebra de tensão – pernas ao alto para não desmaiar, levantar e beber afincadamente refrigerante – açúcar, açúcar, açúcar – deitar para não desmaiar, arre! a minha barriga. Uma eternidade depois, na verdade foi apenas 1h, chega a mãe. Dá mimo, faz chá de nêveda, diz a avó que faz bem, e pergunta se quero ir ao médico. Respondo que não. Tenho lá eu forças para ir ao médico! Não há nenhuma posição que me seja suportável, não há forma de tornar a situação tolerável. O chá e as bolachas de canela acabam por sair com os vómitos. Choro. Sento-me e peço desesperadamente à mãe para me levar ao médico com a condição de que me dê anestesia ou que me tire o útero de vez. A mãe ri-se como quem chora, dá mimo, e diz que assim não podia vir a ter filhos. Imploro de forma bruta uma botija de água quente – diz a net que faz bem. Estão 30°C e eu com uma botija na barriga. Casa de banho, chá, cama, casa de banho. Já posso tomar outro trifene? Não. As dores foram aliviando, mas sem passar. Mais um trifene e passadas 3h já era eu. Foram 3h de um desespero tão grande que mais pareciam dias, com pensamento contínuo de que morrer de uma vez seria mais fácil. A mãe fala com a médica de família, arranja consulta para agosto – diz ela que com a pílula deve passar. Não sei o que vai sair dali. Pílula não é muito a minha cena e médicos de família também não. Hormonas. Eu quero um diagnóstico, não quero um remédio que esconda e resolva parcialmente o problema. Quero ter a certeza do que tenho. Não quero esconder a minha realidade de mim própria. Quero ser eu com tudo o que isso acarreta. Marcas de acne, estrias, TPM e talvez o endométrio onde não deva estar. E se eu não puder ter filhos?
    Obrigada, Catarina. Por falares e por ouvires.

    1. Olá Adriana,
      Fiquei toda arrepiada com o teu testemunho. Revi-me completamente nele. Imaginei-me a escrever algo igual há sete anos, prestes a completar 20 anos. Sei exactamente aquilo por que estás a passar – permites-me que partilhe no blog? – e isso mexe tanto comigo… porque já estive desse lado, sem ter ninguém a quem escrever, nenhum blog onde comentar, apenas a encolher os ombros e pronto, é assim mesmo que tem de ser, até inevitavelmente ir cair no saco de mulheres-que-tomam-a-pílula-por-causa-das-dores-menstruais.
      Fazes bem em procurar ajuda médica. Mas recomendo vivamente que procures um especialista em endometriose.
      Quanto à pílula, é uma forma de silenciar sintomas – mas convém que pelo menos consigas o diagnóstico, em vez de se varrer tudo isso para debaixo do tapete e teres de lidar com uma doença fora de controlo mais tarde. Isto é especialmente importante porque a doença pode continuar a progredir, mesmo que não sintas os sintomas.
      Se não te sentes confiante em tomar a pílula – também nunca me senti – é possível agir no processo inflamatório e ir acalmando as dores sem recorrer a hormonas sintéticas! Estou a fazê-lo desde novembro e já não menstruo com dor! É sempre uma decisão tua. Procura por todas as alternativas que tens (infelizmente os médicos só apresentam a pílula) e toma a tua decisão. É um conselho que considero muito valioso no que diz respeito à endometriose porque é uma doença ainda mal compreendida, mesmo pelos profissionais de saúde. Foi por isso que achei que, mal a mal, preferia fazer aquilo que me faz sentir bem, no corpo e na consciência.

      Sei que agora parece que estás no fundo de um poço escuro e sem fim, mas não vai ser assim para sempre. Quem me dera que alguém me tivesse dito isso quando comecei a tomar a pílula, aos 20 anos.

      Qualquer coisa que precises, manda mail (catarina@omeuutero.pt), mensagem no facebook ou no instagram.

      Beijos e força <3

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