O Meu Útero

7 anos depois, estudo que relaciona beleza com a presença de endometriose é retirado

Em 2013, foi publicado um estudo cujo objectivo era perceber a relação entre a atractividade de uma mulher e a probabilidade de ter endometriose. Seis autores participaram deste estudo e concluíram que mulheres com endometriose rectovaginal eram consideradas mais bonitas.

O estudo causou muita polémica na endo-comunidade, mas os autores desconsideraram as críticas e defenderam-no. Sete anos depois, foi foi finalmente retirado.

A metodologia consistiu em reunir 300 mulheres, organizá-las em três grupos diferentes consoante a localização das suas lesões de endometriose. Cada grupo de 100 mulheres foi avaliado por dois médicos e duas médicas de acordo com o seu grau de beleza numa escala de 0 a 5.

O estudo concluiu que o número mais elevado de mulheres consideradas mais bonitas dizia respeito ao grupo de mulheres com endometriose rectovaginal, que é um dos tipos de endometriose mais dolorosos que existem.

O estudo também concluiu que estas mulheres tinham uma silhueta mais esguia, mamas maiores e tinham tido a primeira experiência sexual penetrativa mais cedo do que as restantes. Sim, porque, para além da avaliação física, as participantes do estudo foram convidadas a preencher um questionário sobre as suas experiências sexuais.

Pouco depois de saber que tinha endometriose, algures em 2018, descobri que este estudo existia e fiquei perplexa. Uma das maiores queixas de quem sofre da doença é a falta de investigação para garantir um diagnóstico atempado e tratamentos eficazes e paira no ar a questão sobre como é que a proposta de relacionar a beleza com a probabilidade de ter a doença sequer avançou.

Não foram só pessoas com endometriose que demonstraram o seu descontentamento: ginecologistas e académicos têm vindo a reforçar que o tema é inútil e sexista.

É que, por um lado, faz sentido perceber que características físicas podem estar relacionadas com a probabilidade de se ter endometriose. Por outro, qual a relevância de se saber o grau de beleza da pessoa se, ainda por cima, a beleza é um conceito tão subjectivo?

Na altura em que andava a ler sobre isso, pasmada, encontrei declarações dos autores do estudo, nas quais afirmavam tratar-se de um estudo ético e útil para a ciência.

Na minha opinião, “o mal já estava feito”. O que mais me chateava ali era o desperdício de recursos e tempo num tema tão pouco relevante.

Ainda por cima os autores deste estudo tiveram já contributos fantásticos para a investigação científica da endometriose, como a publicação deste artigo, que pretende perceber a patogénese e possibilidades de tratamento, ou deste, que explora as possíveis causas para a doença.

Foram precisos sete anos para que, finalmente, se oficializasse que, afinal, este estudo de pouco ou nada serviu à comunidade. Juntamente com o pedido de retirada do artigo, os autores do estudo dizem que acreditam que o artigo foi mal interpretado mas que compreendem que possa ter causado stress para algumas pessoas, reforçando um pedido de desculpas pelo descontentamento que criaram.

 

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