O Meu Útero
endometriose e dores menstruais

Paremos de normalizar as dores menstruais

A propósito das dores menstruais, hoje assisti a um episódio que me chega normalmente através de testemunhos diários: uma médica ginecologista a dizer a Portugal inteiro que “há miúdas que ficam incapacitadas, não conseguem ir à escola” e que a sua recomendação é que “só vai melhorar das dores, só vai melhorar das hemorragias se fizer uma pílula” [vídeo no fim do artigo].

É um facto: a pílula alivia, em muitos casos, as dores menstruais.

Mas deixo-vos outro facto: muitos desses casos são a manifestação da presença de uma doença crónica que merece investigação, monitorização próxima, tratamento multidisciplinar, pode acometer órgãos e exige, muitas vezes, cirurgia. Esta doença tem um nome estranho que provavelmente a maior parte de quem me lê nunca ouviu: endometriose. Nestes casos, tomar a pílula é camuflar sintomas, não é tratamento.

Eu não precisava de ler dezenas de testemunhos todos os dias para saber o que se está a passar. Tenho uma vagina e sou sou uma dessas pessoas que vem a queixar-se desde os 12 anos de dores menstruais incapacitantes e a quem foi dito que era normal. Eu sinto uma trituradora dentro de mim quando menstruo; transpiro, tenho náuseas, dores de cabeça, dores de intestino, medo temporário de morrer.

Dizerem-me que era normal e recomendarem-me a pílula como se o meu organismo precisasse disso para ser completo teve duas consequências: atrasou por 13 anos o meu diagnóstico de endometriose e fez-me acreditar durante todo esse tempo que este sofrimento simplesmente fazia parte, que talvez não fosse tão mau assim e que eu estava simplesmente a ser piegas.

A endometriose afecta 1 em cada 10 pessoas com vagina. Dessas pessoas, o motivo de queixa mais comum são as cólicas menstruais. Essa queixa é abafada por desinteresse, por falta de informação e por pouca paciência em se perceber o que provoca as dores.

A dor menstrual pode ter outros motivos que não a endometriose (que também poderão ser avaliados e corrigidos se os médicos tiverem vontade de nos ouvir verdadeiramente), mas adolescentes que tenham dores ao ponto de terem de faltar à escola deveriam ser imediatamente encaminhadxs para um médico especialista na doença.

Frequentemente vejo o argumento de que o diagnóstico pode ser desafiante como justificação para este estado de coisas: a ecografia tem as suas limitações, a ressonância idem, a intervenção cirúrgica é demasiado invasiva e dispendiosa… Depois de um breve revirar de olhos, permitam-me a franqueza: parecem-me desculpas esfarrapadas para se dizer nas entrelinhas que não vale a pena o esforço. Não há confiança na legitimidade do pedido de ajuda.

Nada disto que vos exponho é novidade. Felizmente, inúmeros artigos científicos têm avaliado o motivo para tanto atraso no diagnóstico e para tantos tratamentos ineficazes e repetidamente apontam a normalização da dor e a supressão hormonal sem se realizar mais exames como as maiores barreiras. Convido-vos a ler este da American Society for Reproductive Medicine, ou este da European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE).

Este não é um problema só de Portugal. No último estudo que vos cito, de 2012, conclui-se que na Alemanha e na Áustria o atraso do diagnóstico é “surpreendentemente longo”. A média de duração desde as primeiras queixas até ao diagnóstico é de 10.4 anos e 74% dxs pacientes tinham já recebido um diagnóstico errado. Em 8 anos, duvido que tenha mudado grande coisa. Em 2016, na Noruega, o atraso seria de 7 anos e em 2019, no Reino Unido, estabelecia-se que o atraso era de 8 anos.

Perdemos tempo, dinheiro e qualidade de vida durante inúmeras visitas a médicos que, tivessem atenção ao que dizemos, poderiam ter-nos ajudado prontamente. Avaliar as queixas é parte do processo de diagnóstico, a ESHRE disse-o em 2005, e muitas vezes é a parte mais importante porque os exames podem ser inconclusivos. Mas se dezenas de ginecologistas insistem que estou bem, que a é normal e que basta tomar a pílula… que energia tenho eu de continuar a batalhar para fazer ver a toda a gente que o que sinto não é normal e que preciso de ajuda a sério?

O mais grave é que neste interregno a doença pode estar a progredir e a acometer órgãos. O bem-estar físico e mental está comprometido. Emprego, hobbies, amizades e relações afectivas estão comprometidos. Dez (ou quinze, ou vinte) anos volvidos, chega-nos finalmente uma validação da nossa dor acompanhada de uma solicitação urgente para realizarmos uma cirurgia: perdemos os ovários, perdemos o intestino, ficamos com lesões irreversíveis… e tudo isto poderia ter sido acautelado se não tivéssemos sido questionadxs abusivamente.

Isto não é uma cabala contra os médicos. Nada disso. Precisamos deles e sabemos que as intenções são normalmente as melhores. Certo que qualquer ser-humano erra. Mas infelizmente a maioria dos médicos perpetua a ideia de que dores menstruais são normais.

A dor é menosprezada. A dor é normalizada. A dor não importa e não vale a pena o esforço. “Toma uma pílula e isso passa”.

BASTA.

A dor deveria ser o nosso cartão vip para um atendimento preocupado e dedicado. A pílula pode ser uma proposta de tratamento dos sintomas depois de se ter todas as cartas em cima da mesa, mas não é o que se verifica. Os anos vão passando e continuamos nisto.

Quanto a mim… não sou médica, não sou cientista, mas após o meu diagnóstico resolvi fazer a minha própria investigação e dedicar o meu tempo a ouvir outras histórias semelhantes à minha.

É preciso que haja mais estudos, mais apoios e mais empatia, mas também é preciso que o estudo que já tem vindo a ser feito seja do conhecimento da comunidade médica e do público: dores menstruais não são normais e achar o contrário só contribui para agravar um problema comum, profundo e que nos passa despercebido porque não nos apetece encará-lo de frente. 

Nota: porque é que digo pessoas com vagina em vez de mulheres? Porque conheço quem tenha endometriose que não se identifica como mulher – ou seja, malta trans – e que é constantemente marginalizadx de qualquer comunicação relativa a ginecologia. O meu x (em vez de o/a) é um statement para que essas pessoas não continuem invisíveis.

Vídeo aqui

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