O Meu Útero

Será que os tampões fazem assim tão mal?

Há bastante tempo, escrevi aqui no blog um artigo sobre os perigos do tampão. Tinha visto um documentário da RTP e fiquei em absoluto pânico por descobrir que os tampões contêm muitos químicos nocivos à nossa saúde.

Cancro, abortos, quistos, endometriose… enfim, supostamente o uso continuado de tampões aumentava o risco de desenvolvermos toda uma panóplia de doenças.

O documentário pareceu-me muito relevante e, ainda que o tema fosse sensacionalista, a abordagem parecia-me muito credível.

Entretanto, tive a oportunidade de estudar mais aprofundadamente o tema dos dirsuptores endócrinos. Tratam-se químicos que estão por todo o lado, que mexem com o nosso sistema hormonal e que aumentam o risco de desenvolvermos infertilidade, cancro, baixa contagem de esperma, malformações genitais, entre outros.

Li vários artigos científicos, consultei as actualizações da União Europeia sobre legislação e fiscalização. Podem ver mais aqui.

Vamos começar por expressar que: os disruptores endócrinos estão em todo o lado – na comida, no ar que respiramos, nos detergentes que usamos, nos produtos de cosmética…

E, sim, os disruptores endócrinos fazem mal à saúde. Só começaram a ser estudados recentemente, mas nos últimos 20 anos muito se tem descoberto sobre eles e isso tem-se reflectido no crescente controlo e legislação sobretudo da produção industrial.

Estão definidos limites máximos de presença destes químicos nos bens utilizados no quotidiano, por forma a existirem em quantidades que não representem risco à saúde humana. Estes limites são definidos com base em evidência científica.

Enquanto estudava, lembrei-me de ir aprofundar o que a ciência tem a dizer sobre os tampões e… a verdade é que o que encontrei ia exactamente contra aquilo que eu tinha visto no documentário. Em vários estudos consultados, concluí que os tampões eram seguros para a saúde.

“Como é que é possível?”, perguntei-me, apercebendo-me de que, seja por que motivo for, o conteúdo desse documentário não corresponde propriamente à realidade e de que eu tinha caído que nem uma idiota em toda esta conversa.

Percebi que tinha de escrever um artigo sobre esse tema.

Passado mais de um ano, o documentário volta a ser partilhado e volta a surgir toda a polémica de o tampão causar cancro. O meu blog tem hoje muito mais alcance do que tinha naquela altura, por isso acho que é importante pôr tudo em pratos limpos.

Antes de continuarmos, quero pedir desculpa a quem alarmei no passado. Quem conhece o meu trabalho, sabe que coloco muito cuidado na pesquisa que faço e, mesmo assim, não foi suficiente na altura em que escrevi aquele artigo, ou em todas as alturas em que falei sobre este tema.

A verdade é que aquele documentário pareceu-me quanto bastasse para fazer proliferar a sua mensagem, promovido numa rede de televisão pública e apresentando tanta “evidência”. Infelizmente, isso não bastava e acho este assunto demasiado importante para o ignorarmos.

 

O que são dioxinas?

Existem mais de 400 tipos de dioxinas, sendo que cerca de 30 são nitidamente tóxicas para saúde – o TCDD é o mais tóxico deles todos. É inclusivamente considerado o poluente mais tóxico alguma vez produzido pelo ser humano². Por isso, quando normalmente se fala de dioxina, é do TCDD que se fala.¹ ³

Significa que não é correcto dizer que as dioxinas são perigosas, mas sim determinados tipo de dioxina.

O TCDD decorre do branqueamento de papel (estando presente, por exemplo, em filtros de café), da fundição de metais ou do fabrico de pesticidas.³ O consumo de alimentos contaminados é uma das principais formas de exposição ao TCDD.¹

Um dos vários problemas deste químico é que ele não se degrada facilmente e bioacumula-se por uma média 11 anos na gordura de humanos e mamíferos. ³

O TCDD também se encontra presente em elevadas quantidades no leite materno, tanto em países desenvolvidos como em países em desenvolvimento.¹

 

O tampão tem dioxinas?

Sim, mas não tem TCDD e os níveis do tipo de dioxina nele presente são tão baixos, muito mais baixos por exemplo do que os das dioxinas a que estamos expostxs diariamente através da nossa alimentação. Num estudo citado aqui⁴, as dioxinas (e outros disruptores endócrinos) foram encontrados em maior grau no sangue menstrual absorvido pelo tampão, do que no tampão antes da sua utilização!

 

Ftataltos

O documentário também falava nos Ftalatos, outros disruptores endócrinos que, em teoria, foram encontrados nos tampões. A verdade é que não consegui encontrar qualquer evidência científica sobre esse facto o que, a meu ver, torna o argumento um pouco débil.

Podem até dizer que se calhar é informação abafada. Mas, a ver um documentário fidedigno, gostava de poder encontrar fontes de informação inquestionável e não consegui.

 

Em conclusão

Talvez me falte uma perspectiva mais abrangente, talvez seja muito ingénua, mas não percebo porque é que foi feito este documentário. Talvez algo me esteja a escapar. Se calhar somos apenas demasiado famintxs por polémicas. Se calhar foi falta de método.

Obrigada a quem me leu até aqui. Tenho consciência de que muita gente vai ficar incomodada com este artigo. Como aconteceu já no passado, poderá haver até quem se recuse a reconhecer que estava erradx e decida deixar de acompanhar o meu trabalho. Façam o que quiserem. Chateiem-se com a ciência.

Se, de repente, daqui a 10 anos descobrirem e provarem por A+B que os tampões matam, eu volto a falar sobre isto.

A ciência também é feita disso, de estudos que se contrapõem, de pressupostos que deixam de ser aplicáveis. É assim que se evolui. Mas, ao mesmo tempo, temos de saber argumentar com os factos conhecidos até ao momento e não em “e ses” ou em suspeitas infundadas.

Quanto ao copo menstrual como alternativa ao tampão, continuo a preferir por questões económicas e ambientais.

 

Referência bibliográfica:

¹ Bruner-Tran, K. L., Ding, T., & Osteen, K. G. (2010, January). Dioxin and endometrial progesterone resistance. In Seminars in reproductive medicine (Vol. 28, No. 01, pp. 059-068). © Thieme Medical Publishers.

² Bellelis, P., Podgaec, S., & Brão, M. M. (2011). Environmental factors and endometriosis. Revista da Associação Médica Brasileira (English Edition), 57(4), 448-452.

³ Louis, G. M. B., Peterson, C. M., Chen, Z., Croughan, M., Sundaram, R., Stanford, J., … & Sun, L. (2013). Bisphenol A and phthalates and endometriosis: the endometriosis: natural history, diagnosis and outcomes study. Fertility and sterility, 100(1), 162-169.

⁴ Scialli, A. R. (2001). Tampons, dioxins, and endometriosisReproductive Toxicology15(3), 231-238.

 

Outros artigos que poderão consultar:

A crítica ao documentário, sempre mordaz, do Sci Med

Estes artigos que ele também referencia:

DeVito, M. J., & Schecter, A. (2002). Exposure assessment to dioxins from the use of tampons and diapers. Environmental health perspectives110(1), 23-28.

Tampon Safety

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