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6 grandes mitos da endometriose

A endometriose é uma doença ainda pouco compreendida no meio científico e sobre a qual ainda não existe muita atenção na área académica.

Se os próprios médicos estão despreparados e se o número de mulheres a sofrerem da doença cresce a um ritmo alarmante, não é de admirar que surjam mitos que acabam sendo perpetuados – pelas mulheres, pelos meios de comunicação e infelizmente às vezes por alguns médicos.

Os mitos são vários, mas exponho aqui seis.

Ler também:

Endometriose: o que é e como se diagnostica

Porque é que os tratamentos para a endometriose falham

 

1 – Endometriose é uma doença da mulher moderna

Há quem acredite que a endometriose acomete tendencialmente mulheres adultas, solteiras, que coloquem a carreira à frente dos planos de serem mães, sendo por isso mulheres stressadas e independentes, focadas no seu próprio percurso.

Mas as características da endometriose nada têm a ver com um perfil de mulher.

Porque é que isto não passa de um mito?

Em primeiro lugar, porque graças a avanços na medicina a endometriose é diagnosticada cada vez mais cedo. É cada vez mais comum haver jovens muito novas a receberem o dignóstico após as primeiras menstruações.

Muita gente acha que uma jovem que acaba de entrar na adolescência é demasiado nova para ter endometriose. Lamento informar mas isto não é uma questão de opinião, infelizmente. A endometriose não quer saber dessas coisas para nada.

Em segundo lugar, a endometriose leva entre 8 a 12 anos a ser diagnosticada, desde o primeiro momento em que há queixas. Imaginem o exemplo de uma menina de 14 ou 15 anos. Isso significa que ela só receberá o seu diagnóstico aos 22 – 26 anos. Quer dizer que a doença apareceu nessa altura? Não!

Eu comecei a ter os primeiros sintomas na minha segunda menstruação. Tinha 12 anos. Fui diagnosticada aos 25, altura em que coincidentemente não faço planos de ter filhos e estou a dedicar-me à minha carreira, aos meus amigos, à minha vida.

Em terceiro lugar, passamos a vida a ouvir que dores menstruais são normais e silenciamos os nossos sintomas. Nesses casos, e nos casos de mulheres que sofram menos com os sintomas, o diagnóstico surge no momento em que a mulher quer engravidar e não consegue, procedendo à realização de exames e descobrindo a doença.

Nos dias de hoje, é cada vez mais frequente as mulheres experienciarem a maternidade pela primeira vez por volta dos 30 ou após. Se descobrirem a doença nessa altura, significa que ela apareceu naquele momento? Não!

 

2 – Mulheres com endometriose não podem ter filhos

É um facto de que, se tens endometriose, tens maior probabilidade de te tornares infértil. Mas também não é preciso entrar em pânico.

Antes de mais, vamos perceber o que é infertilidade.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, podemos designar de infertilidade a incapacidade de um casal em conceber após um ano de relações sexuais desprotegidas.

Isso são boas notícias! Não significa que o casal esteja impossibilitado de conceber, mas possivelmente terá de recorrer a alternativas. É o que acontece em muitos casos em que a mulher sofre de endometriose.

Sim, a endometriose pode conduzir uma mulher a um quadro de infertilidade.

Mas segundo o site endometriosis.org, e apesar de não haver ainda suficientemente fundamento científico, crê-se que cerca de 60% a 70% das mulheres com endometriose sejam férteis, e que aproximadamente metade das que têm problemas em conceber conseguem fazê-lo, seja pela via natural ou artificial.

 

3 – Endometriose ocorre porque as mulheres adiam a maternidade

A endometriose não acontece porque as mulheres decidem ser mães mais tarde.

Na verdade, ninguém sabe muito bem porque é que ela acontece, sequer. Nem os médicos especialistas!

Há várias teorias, mas adiar a maternidade NÃO É uma delas.

Mas atenção: devido à própria natureza feminina, quanto mais tarde uma mulher decidir ser mãe, maior a possibilidade de ela enfrentar alguns obstáculos relativos à gestação, mais ou menos limitadores.

Isso aplica-se também relativamente à endometriose, visto que as aderências têm tendência para crescer, mas depende de inúmeros factores, ainda mal compreendidos pela medicina. Por isso, apenas um médico especialista competente poderá dar o devido acompanhamento em cada caso.

Há uns tempos uma mulher partilhou num dos grupos que acompanho que tinha sido diagnosticada recentemente e que o médico insistiu que ela deveria engravidar o mais rapidamente possível. Ela tinha 19 anos e nem vivia com o namorado mas, apavorada, foi o que fez.

Partilhou connosco a notícia da gravidez, dizendo que se sentia abençoada, mas muito assustada, porque se sentia demasiado nova para ser mãe. Ela não tinha nem sequer colocado essa hipótese ainda.

Os comentários foram maioritariamente de apoio, acompanhados de mensagens do tipo “tiveste sorte, aproveita, eu estou a tentar há anos e não consigo, uma criança é sempre motivo de alegria”.

Eu achei todo este cenário aterrorizador. A miúda estava claramente assustada e todos os votos de felicidades abafaram o medo dela. Como estará ela psicologicamente no espaço de um ano? Talvez dê a volta por cima. Espero que sim. Mas engravidar por pânico não me parece uma boa solução a longo prazo.

 

4 – Engravidar trata a endometriose

Este ponto vem de braço dado com o anterior.

Engravidar não trata a endometriose, apesar de poder silenciar alguns sintomas devido às alterações hormonais que o corpo da mulher sofre nesse período. Por exemplo, um dos sintomas da endometriose são as dores menstruais – durante a gravidez não existe menstruação.

Isto acontece porque a endometriose é uma doença associada à predominância de estrogénio sobre a progesterona e, durante a gravidez, existe uma maior produção de progesterona.

No entanto, é muito importante dizer que há muitas mulheres que, por terem endometriose, continuam a relatar as famosas dores pélvicas, entre outros sintomas, durante a gestação.

Para além de que, após o parto, a doença continua lá, podendo os sintomas piorar.

A par disso, e sem menosprezar a maravilha que é a maternidade, a mulher terá de focar a sua atenção e a sua energia no bebé.

E não se esqueçam de que esse bebé é uma pessoa que vai ficar por perto por alguns 18 anos, no mínimo.

Ou seja, para uma mulher que sofre com endometriose, o processo da maternidade pode ser especialmente exigente.

Logo, decidir gerar uma vida dentro de nós é algo que deve ser feito pelas razões certas – tratar uma doença não é uma delas.

Artigo: Porque é que a endometriose é uma filha da p-

 

5 – Remover o útero cura/trata a endometriose

Já vos falei deste ponto recentemente no artigo que escrevi sobre porque é que NÃO vou remover o meu útero como a Lena Dunham, mas faço uma breve explicação novamente.

A endometriose caracteriza-se por crescimento de tecido semelhante ao do endométrio fora do útero (nos ligamentos útero-sacros, nos ovários, nos intestinos, bexiga… ou até no nariz!).

Remover o útero por causa da endometriose não faz sentido e muitos médicos continuam a sugerir essa intervenção como tratamento.

É claro que aqui não estou a falar de doenças associadas à endometriose, como a adenomiose, os miomas, ou outro tipo de doenças em que retirar o útero é uma das intervenções recomendadas.

Artigo: Tratamento natural da endometriose: como minimizar os sintomas

 

6 – A intensidade da dor equivale à gravidade da doença

À endometriose são atribuídos quatro estágios.

No entanto, uma mulher pode sofrer do estágio I e sofrer horrores numa base diária, ao passo que outra mulher pode ter endometriose de grau IV e não apresentar sintomas incapacitantes.

A intensidade e o tipo de dores sentidas variam de mulher para mulher, tanto pela sensibilidade à dor que cada uma tem, como pela localização dos focos – e muito provavelmente por outras questões que ninguém conhece ao certo.

Mesmo em casos em que o estado da endometriose não seja preocupante, a dor é real e tem impactos muito negativos na vida de uma mulher: interfere na sua vida social, afectiva, profissional e na sua auto-estima, podendo levar a uma depressão e, em casos extremos, ao suicídio.


 

Também te podem interessar estes outros artigos que escrevi:

– Ressonância magnética para detectar a endometriose: a minha experiência

– Porque é que eu me exponho no insta e porque é que é urgente mudar

– Endometriose e adenomiose: a minha busca por um diagnóstico

– Quando só tu podes ser responsável pelo teu empoderamento

One comment

  1. Sofro a vários anos, já tentei de tudo…. nada deu resultado, então resolvi parar de tomar anticoncepcional. Hoje com 39 anos e sem filhos, vou tentar o tratamento natural com curcuma. Sinto como se fosse minha última chance, tenho dores muito fortes e meu intestino não funciona direito, mas não custa tentar mais uma vez. O desanimo, insonia, dores, são meus companheiros diariamente, e por vezes escuto dizerem: que exagero da sua parte, não deve ser tudo isso que voce fala ou voce é muito mole, qualquer dorzinha te derruba……

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