O Meu Útero Blog

É preciso cuidado ao associar a endometriose à infertilidade

É claro como a água que sim, existe uma relação entre endometriose e infertilidade. Para além do mais, mulheres com endometriose que tenham dificuldade em engravidar enfrentam uma difícil prova diária, na esperança de conseguirem o bebé que tanto desejam.

No entanto, a doença não se resume à dificuldade em engravidar e isso é muito importante. Explico-vos neste artigo o porquê.

A importância da representatividade

Há muitas mulheres que apesar de mil e quinhentos sintomas debilitantes engravidaram naturalmente, sem qualquer dificuldade e que, por essa razão, não investigam os motivos por detrás dos seus sintomas. A endometriose não é sinónimo de infertilidade (caso queiras saber mais sobre endometriose e infertilidade, escrevi sobre isso aqui)!

Até são capazes de lhes dizer que “não tens endometriose porque engravidaste sem problemas”. Isto é um dos mitos associados à endometriose.

A doença é retratada quase exclusivamente para quem está a tentar engravidar, embora essa não seja a realidade para muitxs portadorxs da doença:

Há mulheres que não estão a tentar engravidar e que sofrem rotineiramente com sintomas de endometriose – achando que é normal, ou simplesmente não entendendo o que é que se passa com a sua saúde.

Mesmo que queiram investigar o que lhes causa tantas limitações físicas, psicológicas e emocionais, a tendência da comunidade médica é desvalorizar as queixas.

A mensagem que passa é mais ou menos esta: “se cumpriste o teu propósito biológico aqui na Terra (ou se não procuras cumpri-lo), não tens espaço para te queixar.”

Há também mulheres que nunca quiseram ter filhos e nunca quererão ter – tenham endometriose ou não. Mas, se tiverem, podem sofrer na mesma com os sintomas, certo?

 

Não diminuir queixas que não se relacionam com dificuldade em engravidar

É que tudo é normal: as dores menstruais são normais, basta tomar um analgésico. A dor no sexo é normal, basta usar lubrificante. O inchaço abdominal é normal, basta ser-se mais saudável. As crises de gases são normais, não coma feijão. A dor lombar é normal, foi algum jeito que deu. As náuseas são normais, isso passa. A fadiga é normal, descanse mais. A prisão de ventre é normal, coma mais verduras. A dor no ombro é normal, faça uma massagem.

E bastava começar a traçar-se um mapa de todos estes sintomas: do historial de vida dx paciente, da sua mãe, tias, irmãs, primas, avós; da periodicidade dos seus sintomas (são cíclicos? relacionam-se com o ciclo menstrual?); do agravamento dos sintomas

E mesmo não se sendo especialista em endometriose, um profissional de saúde podia pensar “Ups, espera lá, já que a endometriose atinge 1 em cada 10 pessoas designadas fêmeas à nascença (gostam? é a minha nova forma inclusiva de me referir a quem pode ter endometriose, podem perceber porque o faço aqui), talvez não seja má ideia encaminhá-lx para quem percebe de endometriose”.

É bom que se fale cada vez mais de endometriose, mas há que retratar todas as realidades a ela associadas. 

Os meios de comunicação escolhem sempre a abordagem de “tem endometriose e foi mãe” ou “tem endometriose e não consegue ser mãe”, o que acaba por invalidar a luta difícil de milhares de outras pessoas que sofrem com a doença em silêncio.

A infertilidade é só um dos (muitos) problemas associados à endometriose. Deve ser encarada com atenção, mas se for a única consequência a ter-se em conta na comunicação ao público, corremos o risco de tornar contraproducente todo o esforço de maior informação e consciencialização sobre a doença e tudo aquilo que ela implica.

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