O Meu Útero Blog

Discuti com o meu médico e ficámos amigos

Lembram-se quando falei de que os médicos deviam ser os nossos melhores amigos? A propósito disso, apresento-vos hoje a minha mais recente experiência de primeira consulta.

Esta semana tive uma consulta com um endocrinologista. Marquei-a há um mês num acesso de pânico ao sentir um caroço estranho no pescoço.

O caroço desapareceu (não faço ideia do que terá sido) mas aproveitei para deixar a consulta marcada, porque mal certamente não faria.

Eis que chega o dia e, à medida que me aproximava do consultório, começava a questionar-me sobre o que é que deveria dizer ou perguntar.

Reconheci que imensas mulheres com endometriose visitam um endocrinologista, mas dei-me conta de que não fazia a mínima ideia do que é a endocrinologia, excepto ser o ramo da medicina dedicado às hormonas.

A única vez que fiz análises às hormonas foi em 2015, por isso achei que uma consulta com endocrinologista mal não vai iria fazer.

A consulta

O médico foi desde o primeiro momento impecável: atencioso, sorridente, carinhoso até.

Começou por fazer-me perguntas quanto a questões de saúde que tenha e perguntou-me brevemente pelo histórico de doenças dos meus pais, nomeadamente diabetes.

O meu pai tinha diabetes do tipo II, desenvolveu-a no decurso de anos e anos de um péssimo estilo de vida, e eu achei que estava livre dessa sina.

“Se tiver cuidado com o seu peso, não terá com que se preocupar.”

Provavelmente terei uma predisposição genética, mas não creio que seja assim tão simples. Os hábitos do meu pai eram aqueles de quem quer ter diabetes. Não havia como escapar.

Por isso, não estou certa de que a genética tenha tido grande relevância no caso dele – mas, novamente, não sou médica.

Em termos gerais, eu saí dali a saber que a minha tiróide está bem e que tenho de fazer análises ao sangue periodicamente para controlar algumas hormonas.

Mas esta consulta foi muito importante para mim noutro aspecto; acabou por centrar-se numa discussão sobre verdades e mitos da medicina e creio que acabei por fazer um amigo.

O debate

Entre as várias perguntas que me fez, acabámos invariavelmente a falar da alimentação. Percebi que este médico segue a via dita “tradicional”, sem grandes proibições alimentares e moderação em tudo.

Recomendou vivamente os lacticínios e não pude evitar um esgar de dor. Dor no peito, dor na minha consciência, mesmo.

Sorriu-me. “Não bebe leite?”

“Não.”

“Porquê?”

Por muitas razões, mas tinha medo de entrar ali numa plena batalha campal de argumentos com respostas que ele notoriamente já antecipava com um sorriso expectante, e decidi contornar a situação de forma diplomática.

“Decidi alterar a minha dieta, cortei nos lacticínios, e noto muito alívio em todos os sintomas da endometriose. Além disso, tornei-me intolerante ao leite, por isso mesmo que quisesse não poderia voltar a beber.”

Disse-lhe que não comia cereais, que o fazia sob orientação médica e, percebendo o meu ponto de vista, disse-me algo que achei muito belo:

“O problema com a comida é não a ter. Como médico, só quero o seu bem e se sente bem com a alimentação que leva, continue.”

Daí começámos a discutir questões relacionadas com suplementação.

Explicou-me que em termos científicos não era possível afirmar-se com certeza qual a dose de referência de Vitamina D para um ser-humano. Que as indústrias beneficiavam desta moda da vitamina D.

Ele defendia que a minha alternativa mais sensata seria reposição hormonal; eu discordava.

“O meu corpo tem de saber regular-se. Estive oito meses sem menstruar por causa do Síndrome dos Ovários Poliquísticos e agora estou mais regular.” Mostrei-lhe o gráfico que a minha aplicação disponibiliza.

Pareceu-me contente: “Esta periodicidade não aponta para SOP, tem a certeza que tem?

Fiquei tão feliz! Mas sim, tenho a certeza, já vi N vezes os meus ovários e os seus múltiplos estúpidos quistos.

Fazia-lhe pergunta atrás de pergunta.

Teve tempo e paciência para me explicar tudo e mais alguma coisa. “Abuse de mim com as suas perguntas”, dizia.

Falei-lhe dos meus estudos. Disse-me que há estudos para tudo e mais alguma coisa e que há muita gente a lucrar com novas modas da alimentação ou da suplementação.

Isso despertou-me algumas questões. Talvez deva ter mais atenção às fontes dos estudos e investigá-las.

Admiti-lhe que acredito que há muitas práticas referentes à área da medicina tradicional que, a meu ver, estão ultrapassadas. E sinceramente acho que tenho motivos para isso. Levei 13 anos desde a minha primeira queixa de dores insuportáveis até ao momento do diagnóstico de adenomiose e endometriose.

Mas este tipo de debate rapidamente ganha uma dimensão filosófica.

“Não pense que estou a querer fazer algum tipo de provocação”, dizia-lhe eu, antes de apresentar um argumento um pouco mais radical.

Olhava-me carinhosamente e encolhia os ombros, como quem diz que já tem idade suficiente para identificar o que é, de facto, uma provocação.

Criámos uma ligação muito bonita e sincera. Vi que não me olhava do cimo de um altar inalcançável, como fazem tantos médicos.

Pareceu-me até satisfeito por eu procurar incansavelmente saber mais e mais.

É que quando achamos que encontrámos a verdade, temos uma tendência muito grande para toldarmos a nossa visão quanto àquilo que vai contra os nossos princípios, ideologias e até factos que temos como inabaláveis.

É preciso muito cuidado com isso.

Então, onde está a verdade? Certamente não sou eu que a tenho. E duvido que um dia a irei alcançar. Mas, ao mesmo tempo, creio que isso vale também para o mais sábio dos médicos. Desconfio que ele também saiba disso.

Já que estás aqui, pode interessar-te a leitura destes outros artigos:

Endometriose: Porque NÃO quero remover o meu útero como a Lena Dunham.

Porque é que os tratamentos para a Endometriose falham

Endometriose: testemunho da M.

Quando só tu podes ser responsável pelo teu empoderamento

 

2 comments

  1. Muito bem. Estou muito orgulhoso com o tipo de abordagem que decidiste adoptar perante a tua condição, incluindo a partilha de conhecimento neste blog. Chegar a um ponto em que consegues argumentar desta forma com um doutor é obra.
    Continua. Se conseguires ajudar uma pessoa já valeu a pena.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial

Achaste este artigo útil? Então, junta-te a mim e partilha a informação ❤

%d bloggers like this: