O Meu Útero
Disruptores endócrinos

O perigo dos disruptores endócrinos para o nosso organismo

Tem-se ouvido falar cada vez mais de disruptores endócrinos, e não é caso para menos. Fica a saber o que são, o que se sabe sobre o seu impacto na saúde e a relação que têm com a endometriose.

 

O que são disruptores endócrinos?

A Comissão Europeia refere os disruptores endócrinos como químicos presentes no ambiente (ar, água, alimentos…) que alteram as funções do sistema endócrino (ou seja, hormonal) e que são, consequentemente, prejudiciais à saúde. Tratam-se, no fundo, de químicos aos quais nos expomos diariamente e que, a longo prazo, podem contribuir para um risco aumentado de desenvolvimento de problemas como infertilidade, cancro, baixa contagem de esperma, malformações genitais, entre outros.

Este tópico é relativamente recente e tem vindo a receber cada vez mais atenção por parte de instituições internacionais (como a Comissão Europeia, o Parlamento Europeu ou a Organização Mundial de Saúde), ONGs e também por parte da indústria.¹

Em 2010 era estimado que, durante as últimas décadas, mais de 80.000 químicos tinham sido libertados para o ambiente.² Este fenómeno dá-se, sobretudo, com a produção industrial de grande escala e a verdade é que há ainda muito pouco estudo científico que permita perceber completamente todos os riscos que cada um destes tóxicos acarreta para a saúde humana.

A nível da União Europeia, muito se tem feito nos últimos 20 anos em termos de investigação científica, legislação e fiscalização das indústrias que manuseiam produtos (alimentares e não só) relativamente à presença de disruptores endócrinos mais tóxicos, sendo definidos limites máximos para o que é tolerável para a saúde humana.

Contudo, é difícil conseguir apontar um valor que garantidamente não será nocivo e ainda é cedo para se conseguir entender a verdadeira extensão do impacto destes químicos na saúde humana. Se clicares aqui, encontras toda a informação e mais alguma que a Comissão Europeia tem sobre o tema: relatórios, legislações, planos de ação, programas de conferências e até as apresentações dos tópicos apresentados.

Há alguns disruptores endócrinos mais alarmantes que outros, como os BPAs e as dioxinas, e talvez até já tenhas ouvido falar deles. Fica a perceber um bocadinho melhor em que consistem estes disruptores endócrinos e qual a sua relação com endometriose.

 

Dioxina

Existem mais de 400 tipos de dioxinas, sendo que cerca de 30 são nitidamente tóxicas para saúde – o TCDD é o mais tóxico deles todos. É inclusivamente considerado o poluente mais tóxico alguma vez produzido pelo ser humano³. Por isso, quando normalmente se fala de dioxina, é do TCDD que se fala.² 

O TCDD decorre do branqueamento de papel (estando presente, por exemplo, em filtros de café), da fundição de metais ou do fabrico de pesticidas.O consumo de alimentos contaminados é uma das principais formas de exposição ao TCDD.²

Um dos vários problemas deste químico é que ele não se degrada facilmente e bioacumula-se por uma média 11 anos na gordura de humanos e mamíferos.

O TCDD também se encontra presente em elevadas quantidades no leite materno, tanto em países desenvolvidos como em países em desenvolvimento.²

 

BPA

O Bisphenol A, abreviado para BPA, é um químico presente em inúmeros bens que consumimos diariamente, sobretudo em plásticos policarbonatos (garrafas, biberons, pratos, canecas e recipientes para guardar comida), latas de alumínio e papel de recibo (aquele que fica preto com o passar do tempo, ou quando riscamos com a unha).

Os BPA transferem-se dos recipientes de plástico para a comida (ou bebida), sobretudo se esta estiver quente, ou se for aquecida neles. Têm sido muito estudados e já foi concluído que têm potencial de afectar o sistema reprodutor (aumentando o risco de cancro do testículo, do ovário ou do útero, por exemplo)⁶, de aumentar o risco de desenvolver síndrome dos ovários poliquísticos, de diminuir o sucesso de fertilização in vitro, de afectar negativamente a qualidade do embrião, doenças cardiovasculares, diabetes do tipo 2, entre outros.⁷

Inúmeros estudos continuam a detectar BPAs em praticamente todos os indivíduos provenientes de países desenvolvidos, o que permite concluir que os humanos são expostos a este químico continuamente.⁷

Ao contrário das dioxinas, os BPAs são rapidamente excretados pelo organismo através da urina. No entanto, é facto que a exposição diária a longo prazo durante a idade adulta é suficiente para aumentar o risco das doenças acima mencionadas.⁷

Os BPAs são tão perigosos (pelo menos em grandes quantidades) que, em 2014, foi estabelecido na União Europeia um limite de presença de BPAs em brinquedos infantis! A European Food Safety Authority declara que, de momento, os níveis máximos de BPAs autorizados não representam risco para a saúde.

 

Disruptores endócrinos e endometriose

Ainda que não se saiba exactamente o que origina o surgimento da endometriose, e tendo em conta que será um conjunto de vários factores, sabe-se que o TCDD (forma mais tóxica de dioxina) corrompe tanto o sistema endócrino como o imunitário², pelo que a exposição a este químico pode ser tida em consideração como factor de risco.

A questão é que esta exposição começa quando ainda estamos no útero das nossas mães, e tem sido sugerido que este é um aspecto decisivo para o surgimento da endometriose em quem já tem essa predisposição genética. 

Não é fácil estudar-se o efeito dos disruptores endócrinos em humanos, devido a inúmeras limitações. Ainda assim, foram feitos já muitos estudos em animais, mais especificamente com diferentes raças de macacos e roedores, que estabelecem uma associação entre o TCDD e o crescimento de tecido endometrial fora do útero.²

Um estudo realizado em 1997 avaliou a presença de TCDD no sangue de mulheres com endometriose e comparou estes valores com os de mulheres sem endometriose.

A conclusão foi que as mulheres com endometriose tinham níveis mais elevados desta dioxina no sangue (18%) quando comparadas com mulheres saudáveis (3%). Apesar de ter sido um estudo aplicado a uma população reduzida, os resultados são estatisticamente significativos e abrem espaço para maior investigação e discussão do tema.

 

Como evitar os disruptores endócrinos?

Viver uma vida livre de disruptores endócrinos é impossível – eles estão no ar, na comida, na água… em todo o lado! Ainda assim, é possível fazer-se algumas alterações ao estilo de vida com o objectivo de reduzir o contacto com os mesmos. Aqui tens alguns exemplos:

  • Acondicionar a comida em frascos ou recipientes de vidro ou inox
  • Não aquecer a comida em tupperwares no microondas
  • Utilizar garrafa de água de vidro ou inox
  • Preferir produtos cosméticos, de higiene e de limpeza da casa à base de ingredientes naturais (feitos em casa ou comprados em lojas como a Maria Granel, a Mouraria Composta ou a Mind the Trash, por exemplo)
  • Rejeitar o uso de filtros branqueados (como aqueles para o chá ou para o café), preferindo cafeteira de ir ao lume ou french press, por exemplo
  • Moderar o consumo de lacticínios, bem como de carnes e peixes de produção industrial

 

Achaste o tema interessante? Deixo-te alguns artigos para aprofundares a tua investigação:

  • Aqui, podes ficar a saber TUDO o que a Comissão Europeia tem a dizer sobre os disruptores endócrinos.
  • Se o copo menstrual é uma novidade para ti, fica aqui a conhecer em que consiste e algumas dicas úteis LINK

Se quiseres encontrar informação sobre como optar por produtos de limpeza (e não só) mais amigos da saúde e do ambiente, lê os artigos da Catarina Barreiros: aqui, sobre casa-de-banho; e aqui, sobre cozinha (já agora, se tiveres oportunidade, explora também os outros temas que ela aborda).

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

¹Mendes, J. A. (2002). The endocrine disrupters: a major medical challenge. Food and Chemical Toxicology, 40(6), 781-788.

² Bruner-Tran, K. L., Ding, T., & Osteen, K. G. (2010, January). Dioxin and endometrial progesterone resistance. In Seminars in reproductive medicine (Vol. 28, No. 01, pp. 059-068). © Thieme Medical Publishers.

³ Bellelis, P., Podgaec, S., & Brão, M. M. (2011). Environmental factors and endometriosis. Revista da Associação Médica Brasileira (English Edition), 57(4), 448-452.

⁴Louis, G. M. B., Peterson, C. M., Chen, Z., Croughan, M., Sundaram, R., Stanford, J., … & Sun, L. (2013). Bisphenol A and phthalates and endometriosis: the endometriosis: natural history, diagnosis and outcomes study. Fertility and sterility, 100(1), 162-169. 

Peretz, J., Vrooman, L., Ricke, W. A., Hunt, P. A., Ehrlich, S., Hauser, R., … & Flaws, J. A. (2014). Bisphenol A and reproductive health: update of experimental and human evidence, 2007–2013. Environmental health perspectives, 122(8), 775-786.

⁶ Vandenberg, L. N., Hauser, R., Marcus, M., Olea, N., & Welshons, W. V. (2007). Human exposure to bisphenol A (BPA). Reproductive toxicology, 24(2), 139-177

⁷ Rochester, J. R. (2013). Bisphenol A and human health: a review of the literature. Reproductive toxicology, 42, 132-155.

Signorile, P. G., Spugnini, E. P., Mita, L., Mellone, P., D’Avino, A., Bianco, M., … & Portaccio, M. (2010). Pre-natal exposure of mice to bisphenol A elicits an endometriosis-like phenotype in female offspring. General and comparative endocrinology, 168(3), 318-325.

Mayani, A., Barel, S., Soback, S., & Almagor, M. (1997). Dioxin concentrations in women with endometriosis. Human reproduction (Oxford, England), 12(2), 373-375.

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