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endometriose e infecções urinárias

Qual a relação entre endometriose e infecções urinárias?

Há vários meses fiz um post no instagram sobre a relação entre endometriose e infecções urinárias.

Era uma questão que já me chateava desde que eu soube o que era endometriose, visto que comecei a perceber a recorrência de infecções urinárias não é rara em quem sofre desta doença.

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Dando um pouco de contexto sobre a minha história, tive uma adolescência marcada por infecções urinárias, sobretudo no ano após a morte do meu pai. A cada 4 meses ou assim, lá vinha mais uma crise e, a cada crise, mais uma leva de antibióticos.

Havia anos em que sofria de mais crises, assim como havia anos mais tranquilos. Conhecia outras mulheres que se queixavam do mesmo e, enfim, mais uma vez aceitava que simplesmente tinha azar e era uma dessas pessoas azaradas.

As crises começaram a vir com mais força. Ainda que fosse raro, por vezes sentia apenas o início de infecção urinária e conseguia controlá-la antes de chegar ao antibiótico.

Entretanto, a partir dos 20 anos iniciei-me na culinária macrobiótica (que não é a dieta que sigo hoje em dia, mas que muito me ajudou a prevenir estas crises), comecei a praticar exercício a sério e, com a ajuda de osteopatia visceral, a situação ficou sob controlo. Creio que a toma da pílula também possa ter tido a sua influência no acalmar das crises.

Foi através da Susana Fonseca, presidente da Associação MulherEndo, que soube que podia haver uma relação entre infecções urinárias e endometriose. Pelo menos, no seu caso, era o que tinha acontecido. E embora não saiba se será o meu caso, pois não fui operada e a ressonância magnética nada detectou, comecei a investigar o tema.

Escrevi um breve post no instagram, que gostaria de ter oportunidade para aprofundar no blog, mas a verdade é que, entre tanta coisa para fazer, ainda não consegui. Então, reuni a informação que tenho em mãos para este artigo.

[Ler também: Dor durante a relação sexual pode ser sintoma de endometriose]

 

Infecções urinárias ou cistite intersticial?

Uma vez que muitas mulheres apresentam infecções urinárias recorrentes sem todas as características típicas de uma infecção urinária, os médicos têm começado a referir-se a Bladder Pain Syndrome (BPS – tradução à letra é síndrome da dor de bexiga) ou Cistite Intersticial (CI).

É um termo mais abrangente, que engloba:

  • dor pélvica na bexiga
  • dor ao urinar
  • ardor, dor na uretra
  • vontade de urinar muitas vezes
  • dor no acto sexual
  • entre outros

Estes sintomas podem apresentar-se mesmo sem a presença de bactérias na urina (não carecendo de tratamento com antibiótico).

[Se quiseres saber mais informação sobre os possíveis sintomas associados à endometriose, lê este artigo.]

 

Cistite intersticial e endometriose: os gémeos maléficos

Quando existe comorbidade entre cistite intersticial e endometriose, a academia refere-se como os “evil twins” (gémeos maléficos) por ser algo tão doloroso e debilitante.

No entanto, alguns pontos relevantes sobre este tema:

1. Infecções urinárias de repetição não são motivo suficiente para desconfiarmos de endometriose
Elas podem acontecer por variadíssimos motivos! Não fazer xixi depois do sexo, limpar a pepeka de trás para a frente, lavá-la demasiado, comer mal, descansar pouco, stress constante, são só alguns dos possíveis gatilhos. Se os antibióticos não forem suficientes para acabar com a infecção, e se tivermos mais do que quatro infecções em seis meses, está na hora de ir a um urologista investigar o motivo. Um deles, sim, pode ser presença de endometriose no trato urinário.

2. Qual a prevalência de endometriose no trato urinário em quem tem endometriose? 
Li alguns artigos de blog que dizem que endometriose no trato urinario é extremamente rara. No entanto, os artigos científicos que consultei fazem-me questionar se assim é. Ainda não se sabe garantir ao certo a prevalência, mas pode rondar os 20% entre pessoas com endometriose pélvica severa.

Tomando um estudo como referência¹, 43 em 221 mulheres (19.5%) com endometriose pélvica severa tinham endometriose no trato urinário. Noutro estudo² , feito em 60 mulheres com idades entre 19 e 62 anos, a prevalência de BPS em mulheres com endometriose confirmada por biópsia era de 97%!

A forma como interpreto estes valores é que ainda que não haja endometriose no trato urinário, pode haver presença de cistite intersticial ou BPS, ou seja, de sintomas associados a infecção urinária sem que haja obrigatoriamente a presença de bactérias ou infecção.

De qualquer das formas tenho de deixar a minha própria reflexão: infecções recorrentes, sejam onde forem, estão associadas a um sistema imunitário debilitado.

A toma de antibióticos resolve a coisa, mas se se tornar algo frequente compromete seriamente a nossa flora intestinal, o que se reflecte na nossa imunidade, podendo desencadear cada vez maior propensão para infecções.

Então, em vez de andarmos sempre a tratá-las com penso rápido, pode ser boa ideia tentar perceber, juntamente com um urologista (e outros profissionais de saúde idealmente) onde é que começa este processo e fazer tratamento de verdade (seja ou não endometriose).

O diagnóstico de PBS pode levar muito tempo a ser alcançado,  geralmente desconhece-se a sua elevada prevalência e, por conseguinte, há um grande atraso no tratamento eficaz.

 

Bibliografia:
¹ Prevalence and management of urinary tract endometriosis: a clinical case series.
Gabriel B, et al. Urology. 2011.
² The evil twins of chronic pelvic pain syndrome: endometriosis and interstitial cystitis.
Chung MK, et al. JSLS. 2002 Oct-Dec.

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