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Endometriose e infertilidade

Endometriose e infertilidade: o que é que se sabe?

Recebo muitas vezes mensagens de mulheres com dúvidas sobre este tema e acho que é uma preocupação natural. A endometriose é das principais causas de infertilidade. 

A questão é que na maioria das vezes, estas mulheres já partem do pressuposto que não podem ter filhos e isto não é necessariamente verdade. As mensagens vêm normalmente como um desabafo: “descobri que tenho endometriose, estou desesperada, sempre quis ter filhos e agora não posso…”.

É importante esclarecermos que a endometriose não é sinónimo de infertilidade e que a infertilidade não é imediatamente uma sentença.

 

Mas vamos por partes:

 

O que é infertilidade?

Segundo a definição da OMS, é a incapacidade de um casal heterossexual conceber após um ano de sexo sem contracepção.

Aquilo que limita a gravidez pode ter a ver com o aparelho reprodutor feminino, pode ter a ver com o aparelho reprodutor masculino, pode ter a ver com ambos.

Esta definição de infertilidade não me trouxe grandes luzes na cabeça; as questões continuavam: então mas se sou infértil, posso engravidar ou não? Quais são as implicações práticas na minha vida? Tendo endometriose, tenho de fazer tratamentos depois desse ano sem conseguir engravidar? O que é que a ciência diz sobre isso?

Um artigo da revista Human Reprodution diz que “a maioria das gravidezes ocorre nos primeiros seis ciclos de relações sexuais durante o período fértil (80%). Após esse período, deve ser assumida subfertilidade séria em metade dos casais (10%).”

A outra metade poderá ser considerada ligeiramente subfértil, visto que engravidará naturalmente nos seis ciclos seguintes.

(A subfertilidade designa a dificuldade em engravidar naturalmente após um longo período – quão longo, sinceramente não percebi – de tentativas. Já a infertilidade, em teoria, resulta em 5% de chances de uma gravidez natural)

Se depois de 12 meses de relações sexuais desprotegidas não ocorrer uma gravidez, a taxa de nascimentos decorrentes de gravidezes naturais desce para 55% nos 36 meses seguintes.

Finalmente, a partir dos 48 meses, “cerca de 5% dos casais são definitivamente inférteis, com cerca de zero chances de engravidarem naturalmente no futuro.”

 

Pronto, agora que tivemos uma mini-aula sobre infertilidade, resta saber a sua relação com a endometriose.

Vamos falar de valores, mas não se atrapalhem: uma coisa é a quantidade de mulheres com endometriose que é infértil; outra coisa é a população de mulheres inférteis das quais uma parte tem endometriose (que causa a tal infertilidade).

 

Qual é a percentagem de infertilidade entre pessoas que têm endometriose?

A taxa de infertilidade entre pessoas que têm endometriose está entre os 30% e os 50%.

Isto significa que em 10 mulheres com endometriose, verifica-se que cerca de 3 a 5 levam pelo menos um ano a tentar engravidar naturalmente, sem sucesso.

Também significa que 5 a 7 dessas mulheres conseguem engravidar naturalmente no período de um ano.

 

Quantas pessoas com infertilidade têm endometriose?

A percentagem de mulheres inférteis com endometriose ronda os 25%-50%. Significa que em 100 mulheres inférteis, 25 a 50 dessas mulheres terão endometriose.

Ou seja, daquilo que se sabe, entre ¼ e metade das mulheres inférteis têm endometriose.

Não é raro que as mulheres descubram que têm endometriose após um longo e tortuoso processo de tratamentos para engravidar sem sucesso. Por vezes, é quando decidem iniciar os tratamentos que descobrem a doença; outras vezes, descobrem-na apenas após várias tentativas de tratamento.

O que é que isto quer dizer?

Se tens endometriose e não estás a tentar engravidar, não vale a pena sofreres por antecipação. Eu sei, é mais fácil dito que feito, mas a verdade é que é uma questão de probabilidades.

Eu estou nessa situação e prefiro ver o copo meio cheio: tenho 50%-70% probabilidade de ser fértil. Quando a altura chegar, logo veremos.

 

Como é que uma mulher com endometriose se torna infértil?

À primeira vista poderíamos concluir que apenas quem tem aderências de endometriose nos ovários (ou eventualmente nas trompas) é que tem problemas para engravidar, mas o problema da infertilidade na endometriose vai muito mais além disso.

Supostamente, se eu tiver endometriose nos ligamentos sacro-ilíacos (por acaso tenho, é como quem diz “na zona lombar”) e tiver todo o corpo limpíssimo de endometriose, posso ser infértil na mesma.

Infelizmente a pesquisa científica ainda não sabe explicar qual é a associação entre a endometriose e a infertilidade. Mas já houve várias propostas para esclarecer esta associação.

Uma delas é que a endometriose contribui para distorcer a nossa anatomia pélvica.

Há também quem proponha que a infertilidade decorre de anomalias ovulatórias e endócrinas (ou seja, que dizem respeito às hormonas), alterações na função do peritónio (que é uma membrana que envolve as nossas vísceras), e alterações nas funções hormonais no endométrio.

Mas a discussão continua e, até hoje, ainda não houve consenso científico sobre o assunto.

 

E se for infértil? O que faço?

Bom, nesse caso há várias formas de proceder e as opções devem ser vistas com médico especialista. Eu não sou médica, li muitos artigos e fiquei baralhada, até porque este é um território com muito espaço ainda por explorar.

No entanto, eis as conclusões de um artigo científico de 2015 que fez uma revisão de literatura sobre o tema:

“Em pacientes com endometriose pélvica ligeira-moderada, a excisão ou ablação de endometriose peritoneal aumenta a taxa de gravidez. Em mulheres com endometriose severa, estudos controlados sugerem uma melhoria na taxa de gravidez.

Em mulheres com endometrioma de 4 cm ou quistos ováricos maiores, a cistectomia melhora a taxa de gravidez e diminui a taxa de reincidência. No entanto, está associada a uma diminuição da reserva ovárica. (…) A cirurgia realizada por cirurgiões expert pode resultar num aumento significativo da taxa de gravidez.”

 

Endometriose peritoneal: endometriose que ocorre entre os órgãos da zona pélvica.

Cistectomia: remoção cirúrgica de quistos.

Para ajudar a compreender a diferença entre excisão e ablação, aqui está a explicação retirada do site Bloom in Uterus:

Excisão: remoção da lesão inteira através do corte de uma margem de tecido saudável que circunda a lesão.

Ablação: destruição da lesão através da cauterização da superfície. É como queimar um sinal por exemplo, mas aplicado às lesões de endometriose.

 

 

São muitos “se”, mas o que importa retirar daqui é que muitas mulheres com infertilidade devido à endometriose conseguem engravidar através de procriação medicamente assistida. Só gostava de saber a percentagem, mas ainda não encontrei dados concretos a propósito.

Se não sabes bem o que fazer, leva esta informação para o consultório, discute as tuas opções com o teu médico e questiona aquilo que achares necessário.

Se tiveres mais questões sobre endometriose e fertilidade, porque é que não te juntas ao grupo do meu útero no Facebook (por favor responde às questões de acesso)? Lá, podes colocar questões que tenhas, pedir a opinião de outras pessoas que estejam a passar pelo mesmo que tu e até consultar um excel com informações sobre profissionais de saúde especialistas na doença.

 

 

Bibliografia:

Bulletti, Carlo et al. “Endometriosis and infertility” Journal of assisted reproduction and genetics vol. 27,8 (2010): 441-7.

Rizk, B et al. “Surgery for endometriosis-associated infertility: do we exaggerate the magnitude of effect?” Facts, views & vision in ObGyn vol. 7,2 (2015): 109-18.

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