O Meu Útero

6 razões pelas quais a endometriose é uma filha da p&%#

Não sei se foi de ter começado um novo ano, mas este mês de janeiro o meu útero tem-se portado muito bem, tanto que acabei por me dar conta de que esta história toda da endometriose é uma montanha-russa de emoções.

Que clichê, não é? “Montanha-russa de emoções”. Parece até um bocado pomposo dizer isto, quase como que fôssemos uma raça especial de seres humanos. Não somos nem queremos ser, mas às vezes sentimo-nos pouco normais.

Acho que é uma sensação inerente a qualquer pessoa que atravesse um período menos feliz na vida, ou que sofra de outro tipo de doença crónica.

Eu quero descomplicar e não quero dar muita atenção à conversa de vítima. Eu sei que pode ser desesperante, todxs nós merecemos um miminho e atenção de vez em quando (eu sei que é estranho que use “x” em vez de “a”, faço-o por causa disto).

Mas sejamos objectivos e tentemos compreender porque é que a endometriose é tão chatinha e perversa.

Escrevo para as pessoas que não sabem que têm endometriose, escrevo para aquelas que sabem que têm e reconhecem comigo que de facto assim é.

E escrevo também para quem nos acompanha no dia-a-dia. É claro que isto advém unicamente da minha vivência, pelo que infelizmente não represento todxs xs endoguerreirxs que há por aí.

Aliás, são todxs mais que bem-vindxs a deixarem o vosso comentário neste artigo sobre como se sentem e sobre o que pensam.

 

1 – Cada pessoa é uma pessoa

Esta sentença também parece mais uma daquelas frases que apenas soa bem: sim, todos os corpos são diferentes pelo mundo inteiro. Mas a endometriose é particularmente enervante porque:

a) Não tem cura (e até ao momento, supostamente, nem tratamento);

b) Os sintomas variam estupidamente de pessoa para pessoa;

c) Cada pessoa responde de formas diferentes a diferentes terapêuticas.

Este último ponto torna toda esta jornada mais interessante porque cada uma de nós pode tentar traçar o seu caminho e vamos todxs trocando impressões sobre aquilo que pode ou não funcionar.

Ainda assim, seria muito mais fácil se houvesse já um caminho e pronto. Escusávamos de andar aqui a brincar aos tratamentos.

Por isso, por muito que eu queira ser o exemplo de que o tratamento 100% natural é a melhor alternativa, tenho de ter humildade para reconhecer que pode simplesmente não funcionar para algumas pessoas (se queres saber o tratamento, natural que faço, explico tudo aqui).

Por isso, às vezes sentimo-nos perdidxs nas dores, e nada do que funciona com as outras pessoas funciona connosco.

E agora?

O que é que fazemos?

É fantástico procurarmos o nosso próprio caminho, mas às vezes não sabemos por onde ir e é no calor da crise de dor que nos sentimos sozinhxs e injustiçadxs.

Temos de passar por aquilo sozinhxs até, sei lá, a crise acalmar ou o nosso corpo ter a sensatez de se desligar (sim, há pessoas que chegam a desmaiar de dores).

 

2 – Ninguém me entende

Em Portugal, ainda pouco se fala de endometriose, apesar de uma em cada dez pessoas com sistema reprodutor feminino serem portadoras da doença.

É estranho, não é?

Um factor que me parece relevante é que é muito comum o uso da pílula contraceptiva neste país. A pílula mascara os sintomas enquanto a doença se desenvolve (há muita polémica à volta da questão da pílula e eu não quero entrar por aí, mas creio que não seja a melhor coisa para colocarmos no nosso corpo).

Para além disso, as pessoas que sofrem de dores são muitas vezes silenciadas. As dores menstruais ainda são consideradas normais, mesmo que acompanhadas de enjôos, fadiga, diarreia, etc.

Ora, uma pessoa que sabe que tem endometriose sente-se pouco acompanhada neste processo.

Não só ninguém faz ideia do que estás a falar, como acham que é mania tua.

E, para piorar, é uma doença que tem a ver com uma questão muito íntima, tanto a nível físico como emocional.

 

3 – Produtividade no trabalho

Uma pessoa que tenha de trabalhar com dores e, em casos extremos, acamada, não consegue ser tão produtiva quanto uma pessoa que se sente fisicamente bem.

O problema com quem tem endometriose é que isto pode estar a acontecer todos os dias. E se falarmos nos picos de dor, então, pior ainda.

A endometriose pode obrigar-nos a ficar de cama, com dores de costas, pernas, cabeça, estômago, rins, e todas as tripas que nós nem imaginávamos ter.

Quando esta situação se torna recorrente, é natural que receemos perder o respeito dos nossos colegas, chefias e, em último caso, o nosso trabalho.

 

4 – Hoje não tenho dores, amanhã acho que vou morrer

Isto é o que está a acontecer comigo agora. Tenho estado sem dores nenhumas e parece que finalmente vivo a vida como deve ser. Há um mês passei muito mal e esses dias não passam de uma névoa que quero esquecer.

Mas, de vez em quando, lembro-me do quão imprevisível esta doença pode ser e sei que as crises de dores podem regressar assim, do nada.

É claro que é maravilhoso estar livre de dores de momento, sei que não é o caso para muitas pessoas que têm endometriose, mas aquelas que conseguem livrar-se dos sintomas sabem que nunca há uma certeza de que estamos realmente bem.

 

5 – Será que sou infértil?

Eu não estou a tentar engravidar e esta questão assola-me o pensamento inúmeras vezes, porque a infertilidade é uma das consequências possíveis da endometriose.

Segundo a Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose, entre 25% a 45% das mulheres inférteis terão endometriose.

E muitas mulheres com endometriose são inférteis (não todas).

Muitas mulheres descobrem que são portadoras da doença porque não conseguem engravidar naturalmente.

Depararmo-nos com esta realidade é assustador. Fertilização in vitro começa a assemelhar-se como a única possibilidade de concretizarmos o sonho de sermos mães.

Ninguém quer engravidar dessa forma. Fazer um bebé deveria ser bom e fácil. Para além disso, trata-se de um processo dispendioso que pode não dar certo à primeira tentativa. Às vezes nem à segunda ou à terceira…

Como cereja no topo do bolo, família e amigos, alheios à questão e claramente sem más intenções, começam a fazer pressão nesse sentido.

Para quem não sabe se é infértil, é motivo de apreensão. Para quem sabe que não consegue engravidar pela via natural, é simplesmente desolador.

 

6 – Quero levar um estilo de vida “normal” e não devo

Acho que ultimamente tenho dito mais asneiras do que o costume. É a minha forma de não comer ou beber aquilo que não devo.

Um dia não são dias, mas visto que estou a levar tão a sério a dieta anti-inflamatória que a minha médica me prescreveu (e estou a sentir um imenso alívio), qualquer porcaria que consuma faz-se sentir: gases, inchaço abdominal que mais parece gravidez, azia, prisão de ventre ou diarreia, e por aí vai.

Bebedeiras também são altamente desaconselhadas, já agora.

Eu tenho 26 anos e um dos hobbies dos meus amigos é sair à noite. Significa que tenho de me readaptar ao raio da endometriose para me sentir bem e isso exige um grande esforço psicológico.

É tudo uma questão de hábito. Só estou a fazer esta dieta há coisa de dois meses e já foi mais difícil. Mas, sobretudo agora que me sinto bem, dá vontade de poder comer um pacote de chips ahoy a ver um filme ou beber quatro imperiais de seguida numa sexta-feira à tarde.

Não, Catarina. Bem podes dizer adeus a esses tempos.

Somado a estas alterações no estilo de vida, há os exames médicos e consultas que se tornam mais frequentes. A cada seis meses tenho de visitar o meu médico especialista, provavelmente até morrer.

Para além disso, estou neste momento a ter consultas mensais com a minha médica ginecologista que está a traçar-me um plano de recuperação.

Talvez vista mais batas de hospital na vida do que ganhar 1€ na raspadinha (e eu costumo jogar na raspadinha).

Não faz mal.

Não há mal nenhum em andar a mostrar o rabo no corredor do hospital.

 

Apesar do toque de sarcasmo naquilo que vos exponho, e apesar de todas as adversidades que a endometriose nos traz, não quero dramatizar o panorama.

Há inúmeras formas de encontrarmos qualidade de vida e podemos ver o lado bom das coisas, permitindo que esta doença nos traga mais empoderamento.

É um processo muito individual, mas pelo qual todxs nós passamos. Por isso, mesmo que pareça, nunca estamos sozinhxs – bendita internet! – e há sempre alguém, mais perto ou mais longe, que está a passar exactamente por aquilo que estamos a passar e com quem podemos partilhar as nossas angústias e conquistas.

De salientar que o acompanhamento psicológico não deve ser menosprezado. Há sempre uma solução. Para tudo. Por isso, vamos lá!

Se quiseres acompanhar a minha luta diária, visita o meu instagram e deixa o teu comentário ou mensagem.

Se achas que podes ter endometriose e não sabes o que fazer, contacta a Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose. Envia-lhes um e-mail para geral@mulherendo.pt informando sobre a tua área de residência.

unsplash-logoGabriel Matula

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