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Endometriose: o que é e como se diagnostica

A endometriose é uma doença benigna, crónica e que acomete mulheres em idade fértil e que está relacionada com a predominância de estrogénio. É caracterizada sobretudo por provocar dores menstruais e dores abdominais fora do período menstrual.

A endometriose afecta aproximadamente uma em cada dez mulheres e, ainda assim, não é fácil obter um diagnóstico, por diversas razões que estão explicadas aqui.

Na página da Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose, o Doutor António Setúbal esclarece o que é a doença da seguinte forma:

“O endométrio é a parte do revestimento interno do útero. Pela acção hormonal no ciclo menstrual, o endométrio sofre um processo cíclico de regeneração e descamação. Esta descamação provoca a menstruação e com ela são recicladas as glândulas e o estroma que compõem o endométrio.

Quando as células que compõe o endométrio se encontram fora da parte interna do útero, implantando-se noutros locais (peritoneu pélvico, ovários, recto, bexiga, apêndice, intestinos, diafragma, etc.) dá-se o processo de Endometriose.”

No fundo, isto significa aquela almofadinha que se chama endométrio, que existe para acolher um potencial bebé e que é expulsa durante a menstruação, por alguma razão, cresce onde não deve, normalmente na zona pélvica, e pode trazer dores (e outro tipo de sintomas).

Uma mulher com endometriose costuma levar até 12 anos desde o momento em que percebe que alguma coisa de errada se passa com a sua saúde até que um médico se aperceba de que as suas queixas se devem à endometriose.

Outras leituras: Endometriose: Testemunho da M.

Para além disso, é prestada muito pouca atenção a esta doença, tanto em Portugal como por todo o mundo. Uma das formas de encurtar o tempo que se demora para se obter um diagnóstico é providenciar informação às mulheres. Foi através de pesquisas que eu comecei a suspeitar que tinha endometriose, antes mesmo de qualquer médico colocar essa questão.

E sabem o que é que aconteceu?

Nada. Nunca nenhum médico suspeitou que eu tinha endometriose, mesmo tendo ido parar ao hospital com aquilo que parecia ser  uma apendicite e mesmo tendo-me queixado por anos de sintomas que, vistos no seu conjunto, são exactamente aquilo que encontro em tudo o que tenho lido (papers médicos, estudos, artigos, testemunhos de pacientes…).

E mesmo depois de eu chegar ao consultório e dizer: “acho que tenho endometriose”, nunca ninguém fez caso. Eu sei que não foi por mal. Mas como é que é possível que a comunidade médica ainda olhe a endometriose como algo assim distante?

Se as mulheres conhecerem o seu corpo e estiverem devidamente informadas, já é meio caminho andado para que haja alguma mudança no estado das coisas.

Sintomas da endometriose

Há muitos sintomas relacionados com a endometriose, e muitos deles são erroneamente associados a outro tipo de patologias, como por exemplo o síndrome do intestino irritável. Isto acontece devido à localização das aderências, que normalmente localizam-se na zona pélvica mas em casos mais raros podem chegar à pele, pulmões e até ao cérebro.

Ao mesmo tempo, se verificares que tens um ou outro sintoma da lista, não significa que seja sempre devido a endometriose. Mas um check up com um especialista é sempre uma boa ideia.

Outra questão importante é que os sintomas são mascarados pelo uso da pílula contraceptiva.

As dores da endometriose costumam ser mais evidentes durante o período ou durante a ovulação, mas podem estar presentes numa base diária.

Os sintomas são:

  • dores menstruais que acabam por ir respondendo cada vez menos a medicamentos analgésicos;
  • fluxo menstrual abundante;
  • dor lombar;
  • dor durante o acto sexual;
  • desconforto abdominal fora do período menstrual;
  • dores nos intestinos durante o período menstrual;
  • diarreia ou prisão de ventre durante o período menstrual;
  • funcionamento irregular dos intestinos (mulheres com endometriose geralmente queixam-se de prisão de ventre ou de sensação de nunca conseguirem esvaziar os intestinos quando evacuam);
  • dores abdominais agudas que parecem facadas;
  • náusea e/ou vómitos, sobretudo durante o período menstrual;
  • sangramento anal;
  • presença de sangue na urina;
  • dor ao urinar;
  • crises de inchaço abdominal, que podem ser acompanhadas de sensação de gases, náuseas inchaço das mãos e em casos mais raros febres baixas;
  • sintomas de infecções urinárias recorrentes no caso de as aderências localizarem-se na bexiga ou na uretra;
  • dificuldade em engravidar ou infertilidade, que acomete 25% a 45% das mulheres com endometriose;
  • pode ser assintomática.

Diagnóstico

Obter-se um diagnóstico esclarecedor não é fácil. Infelizmente, são poucas são as equipas médicas que estão preparadas para conseguir identificar a doença e, ainda assim, os exames podem ser inconclusivos por variados motivos.

Os exames que se realizam para identificar a doença podem ser vários, e podem ser usados em conjunto para trazer informações mais precisas.

É possível fazer-se um exame de sangue para o indicador CA-125, que pode sugerir a presença da doença, mas este exame tem sido cada vez mais refutado na comunidade médica, por ser muito pouco fiável – muitas vezes até desajuda na busca por um diagnóstico.

No exame de toque, havendo dor, pode-se desconfiar da presença de endometriose. Mas também não são todas as mulheres com endometriose que sentem dor durante o exame. Eu, por exemplo, nunca senti qualquer dor até realizá-lo com o Doutor António Setúbal, que suspeitou imediatamente da presença da doença.

Por isso, é importante sublinhar que os exames devem ser feitos com especialistas na doença.

A ecografia transvaginal também pode ser realizada para diagnosticar endometriose. No meu caso acabou por ser inconclusiva. Também pode ser necessário fazer-se uma colonoscopia, para perceber em que medida os intestinos estão afectados.

Para além da ecografia, pode também realizar-se uma ressonância magnética, que permite uma observação mais detalhada da zona pélvica e que, no meu caso, foi o que permitiu confirmar o diagnóstico.

Finalmente, há a video-laparoscopia. A laparoscopia é o procedimento através do qual também se operam os focos de endometriose. Trata-se de uma intervenção cirúrgica na qual se perfura o abdómen com um instrumento chamado laparoscópio e que irá permitir:

1) observar os órgãos com uma sonda, no caso de ser realizada com o objectivo de encontrar endometriose (ou outra irregularidade qualquer);

2) remover focos de endometriose.

Para perceberem melhor como funciona a laparoscopia, podem ver este vídeo que, embora esteja em espanhol, é muito esclarecedor.

Causas da endometriose

Gostava de ter uma resposta para isto, mas na verdade ninguém tem, pelo menos por enquanto. Há várias teorias, nenhuma verdadeiramente comprovada.

Existe claramente uma componente genética. Por eu ter endometriose, a minha filha terá sete vezes maiores probabilidades de desenvolver a doença. Mas ela pode ter e a sua irmã não.

Os factores ambientais, maus hábitos alimentares, sedentarismo, exposição a químicos tóxicos (e não é preciso mergulharem numa piscina de detritos industriais: os champôs, sabonetes, hidratantes e detergentes estão cheios de porcarias comprovadamente nocivas), stress e ansiedade… tudo isso pode contribuir para despoletar a doença e para agravá-la.

E o processo pelo qual se dá a endometriose é também ainda uma incógnita, embora cada vez mais se afirme que existe uma correlação entre a predominância de estrogénio e a doença.

Tratamento para a endometriose

Segundo o que tenho lido, o tratamento eficaz para a endometriose é a remoção cirúrgica dos focos através de laparoscopia. No entanto, é um procedimento muito complexo e que, se não for realizado por um cirurgião expert na área, pode resultar em reincidências (o que é o que ocorre na maioria dos casos hoje em dia – sustento este argumento com os artigos médicos que leio nesta página).

Fora a intervenção cirúrgica, esta é considerada uma doença crónica, sem tratamento.

Ler mais: Tratamento natural da endometriose: como minimizar os sintomas

Mas nem tudo está perdido. A sintomatologia pode ser mantida sob controlo através de inúmeras formas:

Adopção de um estilo de vida saudável

A prática regular de exercício físico tem um impacto muito positivo na redução das dores causadas pela endometriose.

Visto que a inflamação do organismo influencia muito o estado da doença, alterações a nível da alimentação para uma dieta anti-inflamatória fazem toda a diferença.

Hei-de dedicar um artigo a este tema mas, assim por alto, cortar nas carnes vermelhas, fritos, lacticínios, alimentos processados e no açúcar já é um grande passo. Incluir alimentos anti-inflamatórios como o gengibre, a curcuma, o wasabi e tudo o que seja picante nas refeições.

Dormir bem e por volta de oito horas por dia também ajuda, porque permite ao sistema imunitário trabalhar convenientemente.

A suplementação através de anti-inflamatórios naturais, como a curcuma e o ómega-3 é uma das principais recomendações dos apologistas de terapia natural para alívio das dores.

Também é cientificamente comprovado que suplementos diários de 10 mg de melatonina são muito eficazes no tratamento dos sintomas:

  • redução do nível de dor crónica: 39,8%;
  • redução dores menstruais: 38,01%;
  • redução em 80% a necessidade de tomar analgésicos.

E depois um esforçozinho aqui, outro ali… quando notamos, já fizemos mudanças extraordinárias e já sentimos o efeito na nossa qualidade de vida.

Recorrer a tratamentos alternativos

A prática de Yoga e meditação não resolvem tudo, mas ajudam muito com as dores. E embora isto pareça “teoria da chacha”, passo a explicar-vos (tanto quanto me é possível) um dos grandes motivos que sustenta a importância da gestão das emoções como forma de tratar as dores.

Fica a saber a importância de te empoderares no tratamento da endometriose

Quando uma mulher começa a sofrer de dores cíclicas, ela entra em angústia: ela dorme mal, ela fica preocupada (ainda mais se mais ninguém der crédito às suas queixas) e ela entra em stress.

Existe uma hormona muito importante produzida pelo nosso corpo que se chama cortisol. No entanto, os valores desta hormona nem sempre se mantêm em níveis normais e um dos grandes culpados disso é o stress em demasia, que hiper-estimula a produção de cortisol, o que tem efeitos nefastos no organismo, nomeadamente a nível imunitário.

E depois gera-se um ciclo. Mais cortisol, mais dores; mais dores, mais cortisol.

Os níveis de cortisol podem ser controlados através da dieta e através de práticas que permitam uma gestão das emoções mais eficaz. É claro que não significa estarmos sempre felizes.

Significa, sim, conseguirmos sentir-nos em paz, capazes de lidar com os nossos próprios problemas e de ultrapassá-los.

Acupunctura, osteopatia, massagens e outro tipo de medicinas alternativas são excelentes formas complementares para um plano de redução das dores.

(Experimentei fazer uma massagem ayurvédica no pico das cólicas menstruais e relato tudo aqui).

Aliás, foi o próprio Doutor António Setúbal, especialista em endometriose que me segue, que me recomendou recorrer a estes tratamentos.

Entretanto escrevi este artigo sobre em que consiste o tratamento que faço, que vai muito para além da alimentação.

 

Pílula contraceptiva ou DIU Mirena

O controlo hormonal através da toma continuada da pílula contraceptiva ou da implantação do DIU Mirena (que providencia apenas progesterona) também têm resultados notórios em silenciar os sintomas porque evitam que a mulher menstrue e regulam a atividade hormonal.

Nunca é demais sublinhar que, independentemente da terapia pela qual se opte, os resultados são apenas a nível dos sintomas.

Pouco depois de ser diagnosticada, fiz um plano de acção para gerir as minhas dores. Posso dizer que reduzi as dores menstruais em cerca de 50%. Quanto às dores diárias, elas vão variando um pouco mas raramente têm sido debilitantes.

Ler mais: O meu problema com a pílula

 

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