O Meu Útero Blog
Endometriose pessoas trans

Endometriose e pessoas trans: uma luta invisível

No outro dia estava a conversar com o meu grande amigo Gui sobre O Meu Útero e ele colocou-me uma questão legítima:

“Referes-te sempre a mulheres e diriges-te sempre a mulheres. Será que não deverias considerar também os homens trans?”

O meu queixo caiu. Nunca tinha pensado nisso.

Tenho lutado avidamente por uma maior consciencialização sobre a endometriose (se és novx por aqui, explico o que é esta doença aqui). Tenho dedicado boa parte do meu tempo entre pesquisa e produção de conteúdo relacionado com potenciais tratamentos e tenho-me submergido no maravilhoso mundo do empoderamento feminino como forma de lidar com os impactos físicos, psicológicos, emocionais e relacionais que a doença pode ter na vida de uma mulh…-

Espera aí.

Eu sei que sexo e género não têm de corresponder. Eu sei que há homens que têm órgãos reprodutores femininos. Eu sei que há pessoas que simplesmente não se identificam como homens ou mulheres porque não se sentem representadxs por nenhum dos dois géneros que a nossa sociedade definiu (referidxs como gender non-binary ou não-binárias). E também sei que há pessoas que nascem intersexuais, ou seja, com características sexuais femininas e masculinas.

Mas não quer dizer que não tenham um útero, trompas de falópio, vagina e sobretudo ovários, que é onde é produzido o estrogénio, e que é a hormona que “alimenta” a endometriose.1

Se eu sempre apoiei e defendi a comunidade trans, como é que eu pude ter um discurso tão exclusivo (ainda que sem querer)?

Pesquisei sobre o tema e a única coisa que encontrei foram DOIS testemunhos em inglês (e uma tradução) de pessoas trans que expuseram a sua batalha com a endometriose e as angústias daí decorrentes.

Li os testemunhos e senti o meu coração gelar. Ninguém merece passar por isto, muito menos sozinhx. E depois os comentários de pessoas que não se identificam como mulheres e que procuram por algum apoio ou algum conforto neste mundo que é a internet e que, apesar de complexo, se esqueceu delxs.

Se uma mulher sofre por causa da endometriose, uma pessoa que não se identifique como tal e que tenha a doença sofre muito mais.

“Tenho de escrever sobre isso”, pensei.

 

O problema de se associar uma doença a um género

Não sei bem porquê, talvez haja uma razão (que não deve ser muito boa), mas todos sabemos que algures no tempo foi definido pela nossa sociedade que existem dois sexos e dois géneros que devem estar estritamente interligados.

Apesar de existir essa regra, há muita gente que não a segue. E não é por rebeldia ou provocação: é porque simplesmente essa regra não faz muito sentido para elxs e quiçá não seja sequer necessária.

Nós somos como somos, não somos aquilo que um livro qualquer pretende ditar.

Algumas pessoas (a maioria, vá) encaixam nesta questão do sexo e género – eu sou uma delas. Fisicamente sou uma mulher e sinto-me bem com isso. Em todos os aspectos relevantes da minha vida quotidiana, eu aceito que sou uma mulher. Sinto que o meu corpo feminino é meu. Para os mais leigos na matéria, há um nome para isso (mas calma, não é para rotular, é só para esclarecer): sou cis-género, ou cis.

Acontece que há pessoas que não se sentem representadas pelo género que lhes dizem que devem sentir como seu.

Eu não sei como é passar por isso, mas tento compreender. Quase como se me tivessem dito, desde pequena, que eu era um homem. Desculpem, não posso. Não é algo que se aprenda – eu nunca me senti um homem e nunca me vou sentir um homem.

Mas adiante.

Uma doença é um processo físico que transcende convenções culturais. Ou seja, pouco importam as questões de género, raça, credo.

Assim, a endometriose não quer saber da tua inclinação política, se tens bom humor ou se achas que a paz no mundo é uma prioridade.

A endometriose está-se nas tintas para o nome que decidiram dar àquilo que tu és. Basta que o teu corpo produza estrogénio para estares sob a mira dela.

O problema é que, se fores trans, tudo à volta da tua luta vai ser ainda mais complicado. E o teu caminho vai ser bem mais solitário.

 

O tratamento para endometriose visto como tentativa de agilizar a transição

Dos testemunhos que li, uma ideia muito presente é a de que existe o medo de que os homens trans se aproveitem da endometriose para acelerarem o processo de transição através da remoção do útero (ou histerectomia).

Eu acho que quem pensa estas coisas – médicos, no caso – não deve ter mais nada para fazer da vida. É deplorável diminuir as queixas de uma pessoa dessa forma.

Ainda por cima a histerectomia não trata a endometriose! A endometriose ocorre fora do útero!

Para além de que muitos homens trans querem (e com todo o direito) preservar o útero para manterem aberta a possibilidade de um dia conceberem.

Devo, no entanto, fazer a ressalva de que a histerectomia é recomendada para a adenomiose – esta sim, é uma doença prima da endometriose que acomete o útero – e talvez em ambos os testemunhos as pessoas tivessem adenomiose. Não o referiram. Não sei. Já me chateei com a Lena Dunham. Não perpetuemos o mito.

 

Mantendo uma ligação indesejada ao universo feminino

Um homem trans pode saber que é homem desde que se conhece, ou pode chegar a essa conclusão mais tarde na vida. Não há regras para isso, na verdade.

O processo de transição (que é composto por três dimensões, o Luca explica isso muito bem aqui) não tem data certa de começo e irá variar muito de acordo com a experiência, vivência, vontade de cada um.

O “tratamento” mais recomendado para a endometriose é a toma continuada da pílula contraceptiva ou a toma de progesterona.

Em ambos os casos, estamos a falar de hormonas femininas. Estamos a falar de medicação que nos evidenciam características femininas – como, por exemplo, o crescimento das mamas.

No caso de um rapaz trans que talvez não tenha tido oportunidade/vontade de se assumir como homem para o médico que o acompanha (e se calhar nem sequer para a família!), talvez não tenha coragem de recusar esta sugestão de tratamento. O tratamento com hormonas femininas revela-se altamente cruel nestas situações e vai acentuar a disforia de género, que é uma coisa muito complicada e que o Paulo, homem trans, esclarece aqui.

E para alguém gender non-binary, ou seja, que não se identifique com nenhum dos dois géneros, esta imposição externa de características femininas é emocional e psicologicamente complicada porque pode ir contra aquilo que a pessoa deseja para o seu corpo.

Mas se elxs sofrem de dor crónica, que alternativa têm? (Na verdade tem muitas e infelizmente este é um problema que afecta também as mulheres. A prescrição de pílula é já um dado adquirido como mecanismo de controlar os sintomas da endometriose e dificilmente são discutidas outras hipóteses de tratamentos.)

Para além de que ter de lidar com tudo aquilo que lhes lembra de que a sociedade “exige” que se identifiquem como algo que não são é bastante traumático e é um pesadelo do qual as pessoas trans querem sair rapidamente.

 

Endoguerreiras, ou endoguerreirxs?

A endometriose é uma doença que, para a maior parte das mulheres, tem uma directa associação a tudo aquilo que envolve o feminino – onde claramente as pessoas trans têm dificuldade em se integrar.

Para além disso, a própria investigação científica à volta da doença simplesmente exclui as pessoas trans da fórmula.

Não se estuda, não se considera, não se conclui nada.

Tão simples assim.

Para compor o cocktail, as pessoas trans que sofrem de endometriose ainda são presenteadas com a falta de apoio por parte da comunidade de quem sofre com a doença (eu incluída até hoje)!

Não é que condenemos. Simplesmente não estamos lá para dar carinho, como fazemos umas com as outras.

Alguém esqueceu-se de nos avisar e nós nunca aparecemos.

Deixámo-lxs sozinhxs, abandonadxs à própria sorte.

Traduzo-vos um excerto do testemunho do Luke Fox que resume bem como é experienciar isso na primeira pessoa:

“Muitas pessoas que não se enquadram numa definição pré-estabelecida podem acabar isoladas, marginalizadas, estigmatizadas e discriminadas. Numa comunidade de pessoas que sofrem bastante com uma condição muito debilitante, é desanimador saber que uma pessoa pode ser ainda mais marginalizada nesse grupo, como alguém que é desconsideradx, muitas vezes de formas não-intencionais.”

(Podem ler o artigo traduzido na íntegra pelo blog brasileiro “A Endometriose e Eu” aqui.)

Porque isso significa que há homens e pessoas gender non-binary com endometriose que, para além de apoio e compreensão, e ainda que sejam uma minoria no universo de pessoas com endometriose, merecem ter a sua existência reconhecida.

A luta que vou partilhando convosco continuará a ser feita a partir das lentes de alguém que é mulher cis e não poderei fazer jus ao que é a experiência de alguém trans. Mas isso não me impede de lutar para que pessoas trans com endometriose não continuem invisíveis.

E espero que este artigo cumpra esse propósito.

Já agora, se têm curiosidade sobre tudo o que tem a ver com ser trans, o Luca é um homem trans e faz um excelente trabalho publicando vídeos regularmente para esclarecer as pessoas sobre o tema no seu canal de youtube.

Não é o único a expôr-se dessa forma, eu sei, mas tive oportunidade de o conhecer e ele é uma pessoa maravilhosa. 🙂

1É verdade que embora seja extremamente raro, já foram reportados casos de homens sem útero ou sistema reprodutor feminino com endometriose e uma teoria sugerida é a longa exposição a estrogénio.

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