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endometriose e sintomas intestinais

Endometriose e sintomas intestinais: 5 aspectos importantes

Sempre tive crises pontuais de gases – ou, pelo menos, desde o início da adolescência. Sentia muito incómodo intestinal e uma imensa vontade de dar puns, mas nada saía. Quando era assim, punha-me de gatas na cama e às vezes o desconforto era tanto que não me permitia andar direita.

Sem saber muito bem o que é que estava a meter no corpo, mas sob indicação de um amigo da família que é médico, comecei a comprar comprimidos para os puns e tomava-os sempre que uma crise que me assaltava. Andava sempre com eles para todo o lado.

Eu não sabia o porquê destas crises, nem me lembrava de as relacionar com algo que tivesse comido, mas a verdade é que assim como surgiam, voltavam a desaparecer. E enfim, habituei-me à ideia de que o meu intestino tem comportamentos peculiares – sempre tive muita prisão de ventre – porque vim com defeito de fabrico.

Já partilhei por aqui toda a minha jornada em busca de um diagnóstico, e um ano antes de obter o diagnóstico tive uma crise de gases monumental que me obrigou a ir ao hospital. Suspeitando já da endometriose, expus esse episódio à minha médica de família, que comentou comigo que isto mais lhe parecia resultado de parasitas no intestino.

Sim, até podia ser (não era), mas eu tinha partilhado com ela todos os meus outros sintomas que já eram suficientes para fazer suspeitar de endometriose mas, uma vez mais, eram recebidos como “normais” e como “parte de se ser mulher”.

No momento que antecedeu a ecografia endovaginal com médico especialista, voltei a referir esta estranha crise de gases como motivo da minha suspeita de ter endometriose. E mesmo ele, tendo-me identificado na ecografia a presença de adenomiose, confortou-me no final dizendo que “fique descansada que esse episódio de gases não tem nada a ver com endometriose”.

O pior é que tem.

E é pena que não se saiba.

 

O que dizem as mulheres que sofrem de gases causados pela endometriose?

Antes de ter investigado devidamente este tema, fiz um post no instagram a pedir que partilhassem comigo os sintomas, o que os despoleta e formas de os aliviar. Na altura prometi um artigo de blog (demorou, mas foi!). Eis um resumo de todas as respostas que recebi:

Sintomas: gases dolorosos, não precisam de sair puns (às vezes esse é o problema), ardor abdominal generalizado e barriga de grávida. Pode acompanhar febre, náuseas, tontura.

Gatilhos: álcool, carne vermelha, gluten, leguminosas, cansaço, dormir mal, stress, jantar tarde, comer muito, açúcar, exercício exigente, caminhadas, ou às vezes surge do nada.

Dicas que outras pessoas me foram dando para aliviar no momento: tomar cápsulas de carvão activado, mas pode prender o intestino (aconteceu comigo) e cuidado ao tomar com outra medicação porque pode comprometer a absorção da medicação! Chá de funcho (nunca tentei mas supostamente é mais saudável que o carvão), dulcogas (nunca tentei), calças de grávida.

 

O que nos diz a pesquisa científica sobre a endometriose e sintomas intestinais?

Da minha pesquisa, a maioria dos estudos faz referência à presença da endometriose no intestino, e não propriamente aos sintomas intestinais apenas.

Os sintomas intestinais associados à endometriose consistem em dor abdominal intensa, obstipação, inchaço e flatulência, urgência para defecar e sensação de não se conseguir fazer o cocó todo.¹

 

#1 Os sintomas intestinais não significam que tenhamos endometriose no intestino

É uma dúvida muito frequente, mas sentirmos cólicas e dor intestinal não quer dizer que a endometriose tenha chegado ao intestino. Um estudo² concluiu que, em 290 mulheres com endometriose, apenas 7,6% tinha endometriose no intestino, mas 90% tinha sintomas intestinais, sobretudo inchaço abdominal.

 

#2 A ocorrência de sintomas intestinais não demonstra relação com a menstruação ou com a localização das lesões de endometriose

Ao tentarmos perceber a lógica destas crises e destas dores intestinais, podemos tentar perceber se surgem ou se se intensificam de acordo com o nosso ciclo menstrual.

Não vale a pena. Estes sintomas têm muito mais a ver com o que comemos (e com outros factores associados à inflamação crónica de baixo grau).

Não se encontrou relação com o período menstrual. Nem mesmo com a localização das aderências!

Isto quer dizer que podemos ter endometriose no pé e, mesmo assim, sentir sintomas no tracto gastrointestinal (o que só sublinha a importância de olharmos esta doença como o resultado de um processo inflamatório que deve muito ao – mau – funcionamento do intestino, e não como apenas lesões a aparecerem onde não é suposto).

 

#3 Pacientes que fazem uso de opióides experienciam sintomas mais intensos

Vou ser sincera, fiquei um bocado confusa com o termo opióides e creio que é porque nunca tomei tal coisa. São drogas tomadas para alívio de dor, como a morfina por exemplo. Não sei se em Portugal é frequente a sua toma, mas fica a nota para quem tenha interesse: quem toma opióides geralmente tem sintomas intestinais mais intensos.

Aliás, “o uso de opióides é conhecido por causar sintomas gastrointestinais tais como obstipação, náusea e dor abdominal, sendo casos mais graves referidos como narcotic bowel syndrome”¹.

 

#4 Pacientes que tomam ou tomaram análogos de GnRH sentem dor abdominal mais intensa do que outras pacientes

GnRH é o nome dado à hormona libertadora de gonadotrofinas.

As gonadotrofinas, tal como explica a Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução, têm um papel muito importante no desenvolvimento dos folículos ováricos e na ovulação.

Basicamente os análogos de GnRH são medicamentos como o Lupron ou Zoladex que, normalmente administrados através de injeção, induzem a famosa menopausa química.

É um tratamento que tem efeito temporário nos sintomas de endometriose, nomeadamente hemorragias que de outro modo não cessam, mas está associado a um maior intensidade de sintomas intestinais. Aliás, “estudos recentes têm vindo a sugerir uma ligação entre a GnRH e a função gastrointestinal.”¹

Para além disso, análogos de GnRH podem trazer consigo vários efeitos secundários extremamente difíceis de suportar, pelo que a sua toma deve ser sempre discutida com o médico.

É que muitas vezes as mulheres não são advertidas para a possibilidade de queda de cabelo, afrontamentos, quebra/queda de unhas, perda de densidade óssea, depressão (entre outros) durante a toma desta medicação. Mas isto é tema para um outro artigo 🙂

Se quiserem ficar a saber mais sobre a GnRH, chequem esta página do Endometriosis.org.

 

#5 A toma da pílula combinada ou de progesterona não tem efeito nos sintomas gastrointestinais

Outra conclusão a que o tal estudo chegou foi que, apesar de a toma da pílula combinada ou a toma de progesterona poder ter um efeito muito positivo nos sintomas de endometriose (apenas durante o momento da toma, porque quando se deixa a pílula os sintomas voltam³), esse alívio não se reflete no intestino.

 

E tu? Tens algo a dizer sobre este sintoma de endometriose? Fica à vontade para deixar comentário por aqui, adoro trocar umas ideias!

 

 

 

Referências bibliográficas:

¹Ek, M., Roth, B., Ekström, P., Valentin, L., Bengtsson, M., & Ohlsson, B. (2015). Gastrointestinal symptoms among endometriosis patients–A case-cohort study. BMC women’s health15, 59. doi:10.1186/s12905-015-0213-2

²Maroun, P., Cooper, M. J., Reid, G. D., & Keirse, M. J. (2009). Relevance of gastrointestinal symptoms in endometriosis. Australian and New Zealand Journal of Obstetrics and Gynaecology, 49(4), 411-414.

³Vercellini, Paolo et al.  (1993) A gonadotropin-releasing hormone agonist versus a low-dose oral contraceptive for pelvic pain associated with endometriosis * Fertility and Sterility , Volume 60 , Issue 1 , 75 – 79

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