O Meu Útero
Endometriose testemunho da M

Endometriose: testemunho da M.

Não conheço a M. fisicamente. Aliás, a maior parte de portadoras de endometriose que conheço são pessoas com quem acabei por “me cruzar” na internet – através de páginas, grupos, fóruns e, por vezes, amigas de amigos. Deixo aqui o testemunho dela.

Os meus sintomas começaram quando tinha mais ou menos 17/18 anos se não me engano: dores de período muito fortes, muitas vezes tinha dores quando tinha relações sexuais, doía-me imenso durante a ovulação, a andar, sentada, deitada, de todas as maneiras.

Aos 20/21 foi quando piorou e pouco antes de fazer 22 começaram as hemorragias espontâneas, que felizmente não duraram mais que um ano.

Eu não fazia ideia o que poderia ser. A minha avó teve cancro no útero e eu claro só pensava no pior. Queixava-me imenso no Facebook, fui aquela miúda chata que publicava cada sintoma e cada desilusão em termos médicos, e felizmente uma amiga minha de Arizona falou comigo através do messenger e explicou que podia ser isso [endometriose], e adicionou-me a um grupo chamado Nancy’s Nook Endometriosis Discussion para me informar um pouco melhor.

O Nancy’s Nook Endometriosis Discussion é um grupo no Facebook que procura providenciar informação fidedigna sobre a doença para portadoras ou familiares/amigos. De salientar que é proibido publicar conteúdo na primeira semana após adesão e as regras do grupo são muito restritas, por forma a controlar spam e publicidade.

Centenas de testemunhos diferentes, artigos científicos com tudo explicado ao pormenor, enfermeiras e especialistas a ajudarem os membros do grupo, etc. Aprendi imenso.

Continuei a ver médicos diferentes, a pedir exames diferentes, e nada. Finalmente em 2015 se não me engano fui ver uma médica especialista, muito bem falada e recomendada.

Vi palestras dela online para me certificar de que ela sabia realmente do que falava e eu não tinha dúvidas que ela ia ser a minha salvação. Mas enganei-me. Uma amiga minha recomendou-ma e os nossos testemunhos não podiam ser mais diferentes.

A médica fez-me meia dúzia de perguntas, nunca um pingo de empatia, fez uma ecografia onde não viu nada, e fez o exame do toque, onde me exprimi completamente e chorei de dores, e ela disse-me que não era endometriose. Assim. Uma consulta que nem quinze ou vinte minutos durou…

Eu a chorar compulsivamente e ela nem uma única vez me perguntou se estava bem, se tinha dores, o que se passava. Nada. Enfim.

Ela recomendou que eu tomasse a pílula contínua e que voltasse lá passado um mês. Eu tomei a pílula mas desisti de lá voltar.

Chorei durante dias e perdi toda a esperança depois daquela consulta, e várias vezes pensei em suicidar-me, porque ninguém merece viver assim.

 

A pílula para mim é para esquecer. Os piores efeitos secundários, tinha hemorragias fora do ciclo menstrual, andava super deprimida, e cheia de raiva! Não conseguia controlar as hormonas. Felizmente melhorou um pouco depois de ter deixado a pílula, pelo menos a nível mental!

Mudei-me para a Holanda o ano passado, e no início do ano decidimos que estava na altura de começarmos a nossa família.

Consegui engravidar, mas quando fomos fazer a ecografia para ouvir o batimento do coração do bebé, só havia silêncio…

 

Essa dor ultrapassa qualquer dor que alguma vez tenha sentido. Cerca de um mês depois de ter perdido o bebé, tive a primeira consulta com um especialista cá, fizemos um exame pélvico e uma ecografia e ele viu um endometrioma no ovário esquerdo, e um quisto no ovário direito.

Pelo que percebi, um endometrioma é sinal de endometriose, mas até agora não sabemos se há muito ou onde está sequer. Recomendou-me fazer a dieta (cortar soja, Gluten, cafeína, lacticínios e açúcar), e receitou-me laxante porque eu sofro bastante de obstipação e também de diarreia (mas sinto uma pressão na bexiga cada vez que vou à casa de banho).

Por agora, para controlar as dores, estou a praticar “pelvic floor therapy“. Tem-me ajudado imenso. Respirar correctamente é fundamental e eu pelos vistos em 25 anos de vida não sabia respirar. No fundo, tenho consultas para aprender a respirar melhor e para tentar relaxar os músculos, o que me ajuda bastante nas dores. Dependendo de como está o músculo pélvico, é preciso exercícios diferentes. Mas toda a gente com quem tenho falado faz isso por recomendação do médico, antes e depois da cirurgia.

Os laxantes ajudam com a obstipação mas tenho dores à mesma. A pílula de momento está fora de questão porque estou a tentar engravidar novamente, mas se não conseguir nos próximos três meses, vamos marcar a laparoscopia para ver se há alguma coisa a fazer, nomeadamente retirar a endometriose para aumentar as hipóteses de concepção… Agora é tudo uma questão de tempo…

One comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Segue-me nas redes sociais

Instagram
Facebook
Subscrever
Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial

Acompanha o meu útero e mantém-te a par de tudo! ❤

%d bloggers like this: