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Menstruação retrógrada: será uma justificação válida para a endometriose?

Uma das teorias apresentadas para a ocorrência da endometriose nas mulheres é a menstruação retrógrada, ou seja, menstruação que, em vez de ser expulsa durante o período menstrual, é absorvida.

Esta teoria defende que, ao absorver essa menstruação, o corpo absorve também partes de endométrio que se vão depositar no local onde mais tarde se desenvolvem as aderências da endometriose.

Apresento-vos o artigo de Nancy Petersen, traduzido por mim, que refuta esta teoria e que esclarece outras questões relacionadas com a endometriose, nomeadamente a resistência dos profissionais de saúde em diagnosticá-la e/ou tratá-la e o impacto que isso tem na saúde da mulher.

Relembro que eu não sou profissional de saúde. Pretendo tornar toda a informação relevante que encontro acessível a todas as mulheres e encorajo-as a fazerem as suas próprias pesquisas.

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Será a menstruação retrógrada uma teoria válida? Ou será apenas uma desculpa para altas taxas de falhas cirúrgicas? Uma vez mais, outro grupo identificou uma presença significativa de glândulas endometriais e estroma (o standard para diagnosticar endometriose) na pélvis de fetos e de jovens que morreram por razões não relacionadas.

A menstruação retrógrada não é uma justificação para a ocorrência da endometriose

Temos de parar de justificar a endometriose com recorrências de menstruação retrógrada e começar a olhar para as capacidades cirúrgicas daqueles que querem tratar a doença.

A transplantação de tecido uterino carece de alguma ciência para o comprovar e, quando procuramos pelas provas, zero, zilch, nada. Não há nada.

A endometriose e a linha do útero, numa mesma paciente, são tecidos diferentes, têm aspectos diferentes, comportam-se de formas diferentes, têm menos receptores hormonais (um ponto importante já que toda a gente continua a insistir em tratar a endometriose com terapia hormonal) e não têm o mesmo ligamento inicial.

Pensem em enxertos de pele. Quando se faz um enxerto numa área queimada ou magoada com pele de outra área do corpo, ela é colocada na superfície. Ao longo do tempo, o transplante de pele liga-se ao resto da pele, é abastecido de micro-sangue e talvez até de nervos.

Mas a linha inicial de ligação entre as duas peles nunca desaparece, consegue-se sempre ver o local onde os dois tecidos se unem. É isso que falta quando olhamos para a endometriose.

Por isso, será o argumento de que “haverá reincidências” apenas uma desculpa para a falha em aprender-se um a identificar um conjunto de elementos visíveis e a sua evolução ao longo do tempo?

Será a menstruação retrógrada uma desculpa para não perceber a distribuição estatística na pélvis e a forma como se relaciona com queixas clínicas?

Será mais uma desculpa para não se aprender as técnicas necessárias para remover os focos de todas as regiões e órgãos?

Será uma desculpa para se falhar no desenvolvimento de uma abordagem em equipa, para lidar com as especificações de cada órgão?

Será uma desculpa para se vender medicação cara, para calar as queixas das pacientes, para fazer uma histerectomia ou para dizer a uma paciente que engravidar irá curá-la?

Histerectomia ou gravidez NÃO curam a endometriose

Na minha página de Facebook, que actualmente tem 19 mil membros [hoje tem quase 40 mil], muitas mulheres dizem-nos que lhes foi recomendado que tivessem um bebé ou que fizessem uma histerectomia como CURA. Muitas vezes, órgãos inteiros são removidos e a doença é deixada.

Então, começamos a ver pacientes a quem disseram que já não existe endometriose após a realização de uma histerectomia.

E ainda assim, as vidas delas, as carreiras, a vida sexual e as relações interpessoais estão em pausa devido a dor peritoneal… Algo que estudantes de medicina e enfermagem são ensinados a respeitar.

A estas mulheres, descartamos as suas dores e dizemos que está tudo na cabeça delas.

75% das mulheres com endometrioses foram mandadas embora por serem neuróticas. Isto é ultrajante.

E quando conseguimos encaminhá-las para as mãos de VERDADEIROS especialistas, não para aqueles que se afirmam especialistas, verifica-se que elas têm dores intensas relacionadas com a endometriose.

Uma vez removida a doença, elas recuperam as suas vidas, embora algumas ainda precisem de outro tipo de terapia para as dores pélvicas.

Está mais do que na altura para que haja centros especializados

Dado que há 7 a 8 milhões de mulheres nos Estados Unidos, 40 mil ginecologistas e menos de 100 ginecologistas verdadeiramente especialistas nesta área, já está mais do que na altura para que haja centros especializados.

MAIS DO QUE NA ALTURA, pois estamos a falar de vidas que estão estagnadas, e embora a endometriose não seja uma doença fatal, o desespero pode ser e todos os anos perdemos vidas desnecessariamente quando as mulheres não se sentem mais capazes de lidar com as dores que sentem e com a apatia que os médicos têm pelo seu estado.

Está na altura de deixarmos de fechar os olhos a este tipo de sofrimento.

Em países com Sistema Nacional de Saúde, muitos dos especialistas atendem em regime privado e não há qualquer incentivo para que os médicos do SNS dediquem horas a tratar a endometriose – em parte, devido ao facto de alocarem todo o tempo que têm à mesa de operações e, por outro lado, porque receitar a pílula é mais fácil.

Mas não é mais fácil para a paciente que enfrenta dificuldades em gerir o seu quotidiano perante a nossa apatia e, em alguns casos, desinteresse.

É certo que o ginecologista/obstetra está geralmente ocupado, não tem tempo para passar horas na sala de operações para apenas um caso, dado que tem partos para fazer, um atendimento em consultório atarefado e ainda partos em horários imprevisíveis.

Também não têm tempo para desenvolver o expertise que é necessário para encontrar/identificar, e remover toda a doença, e muitos não têm assistentes.

Todos os dias pacientes dizem-me que continuam com a doença porque não era operável, porque era simplesmente demasiado perigoso fazê-lo.

Estou nesta área há já 30 anos e tendo falado com dezenas de milhares de pacientes em circunstâncias diversas; não existem praticamente doenças que sejam demasiado perigosas ou difíceis de remover, tratando-se na verdade doenças que se encontram para além das capacidades do cirurgião que diz essas coisas.

Existem indicações claras para centros especializados e, ainda assim, a resistência mantém-se rainha.

Há mais um estudo que sugere que a endometriose não vem do útero, por isso já está na altura de deixarmos de usar isso como desculpa. Para outras discussões sobre o tópico, visitar: http://www.hormonesmatter.com/endometriosis-fetuses-important/

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