O Meu Útero
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Endometriose: Porque não quero remover o meu útero como a Lena Dunham

Desde que a Lena Dunham partilhou pelos meios de comunicação que removeu o útero por causa da endometriose que tenho vontade de tecer alguns comentários a propósito. E de explicar porque é que eu não vou remover o meu útero como ela (calma, é só um título provocatório, porque uma rapariga chamada Sofie Hartley, após o comunicado da actriz, disse “Quero remover o meu útero como a Lena Dunham”).

Na verdade, para quem ainda não viu, escrevi um artigo para o Shifter no qual explico porque é que é perigoso bradar aos quatro ventos uma frase que inclua os termos “endometriose” e “histerectomia” sem um “não” pelo meio.

Antes de começar gostaria, ainda assim, de esclarecer que tenho um enorme respeito por todas as mulheres que se viram obrigadas a submeter-se a essa intervenção. Idealmente, ninguém deve ter de se sujeitar a uma cirurgia para remover um órgão – todos eles têm o seu papel no nosso organismo – e tomar essa decisão não deve ser nada fácil.

Apesar de nunca ter passado por isso, reconheço que este processo deve custar bastante a qualquer mulher.

É preciso muita coragem para lidar com todas as consequências físicas e emocionais subjacentes a uma cirurgia com contornos tão delicados como é a histerectomia.

Há que ter cuidado ao associar a histerectomia à endometriose

O meu problema com toda esta conversa da Lena Dunham (que já uma vez disse que gostava de ter feito um aborto) reside no facto de esta notícia ser a propagação fácil de um mito comummente associado à endometriose, que é o de que a histerectomia é um tratamento para a doença.

[Não é, ok? Não é. Vejam este artigo e tirem as vossas próprias conclusões.]

E depois a coisa segue tipo vírus: “Se jornalista A escreveu assim, então deve estar certo. Vamos copiar e colar para toda a gente do mundo inteiro”. De repente, temos centenas (ou milhares?) de manchetes de jornais a associar erroneamente a histerectomia à cura/tratamento da endometriose.

Este fenómeno é particularmente preocupante quando estamos a falar de uma doença que, apesar de bastante frequente, não é conhecida pela generalidade da população – e muitas vezes nem sequer pelas próprias portadoras!

E agora, assim de repente, já imensa gente se familiarizou com este nome, provavelmente associando que “é aquela doença que tens de remover o útero para curar”.

E porque é que é grave perpetuar o mito?

A histerectomia é a remoção cirúrgica do útero e a endometriose caracteriza-se pelo crescimento de tecido endometrial FORA do útero.

Existem doenças que podem estar associadas à endometriose, como por exemplo a adenomiose (mas não quer dizer que estejam: uma mulher pode ter uma e não ter a outra!). Uma vez que a adenomiose acomete apenas o útero, e visto que dores pélvicas crónicas, dores lombares e cólicas menstruais constam da lista de sintomas, uma histerectomia pode ser a solução para casos extremos.

Infelizmente, muitas mulheres recebem o diagnóstico de endometriose e pouco mais lhes é dito; em muitos casos, a recomendação médica é simplesmente realizar uma histerectomia.

Não é investigado o caso, não são discutidas soluções alternativas e, assim, como se nada fosse, tira-se o útero a uma mulher.

Tenho tido contacto com casos de mulheres que tiveram o seu útero removido para continuarem com as mesmas dores, ou mesmo piores. Hoje, deparam-se com a realidade e sentem-se traídas.

Com esta avalanche de notícias, a mulher a quem é recomendado retirar o útero talvez faça a sua pesquisa e encontrará artigos sobre a Lena Dunham. Talvez ela não procure sequer investigar mais a fundo, porque se lembra da situação da Lena Dunham e usa-a como exemplo.

Não posso dizer com certeza porque é que os médicos sugerem e realizam intervenções que, na maioria dos casos, não fazem diferença nos sintomas da doença, ou que não estão preparados para realizar, mas pode haver vários motivos que influenciam esta atitude (já falámos deles aqui).

Este procedimento deve ser bem pensado e discutido entre a paciente e o(s) seu(s) médico(s), os prós e os contras devem ser pesados e deve ser sempre esclarecido à paciente que esta cirurgia não cura a endometriose, a menos que todos os focos existentes sejam também removidos, o que nem sempre acontece.

E, por muito que confiem nos vossos médicos, a percentagem de cirurgiões no mundo altamente capacitados para realizar uma operação deste tipo com sucesso é muito reduzida.

O que é que eu quero dizer com sucesso?

É verdade que a reincidência da doença é um fenómeno muito referido, mas sabiam que se relaciona sobretudo com a falta de competência na remoção dos focos? Estarei a dizer que, se houver reincidências, os médicos foram incompetentes? Não.

Mas um cirurgião qualificado deverá registar uma taxa muito reduzida de reincidência dos focos entre as pacientes que opera.

Esta é, aliás, uma questão pertinente a colocar ao médico perante a possibilidade de realizar uma cirurgia, seja ela qual for.

Se colocam a hipótese de realizar uma histerectomia…

Não têm a certeza de que o devem fazer, mas sentem-se pressionadas para realizar esta cirurgia? Procurem outro médico.

Acham que devem fazer uma histerectomia e o vosso médico opõe-se? Procurem uma segunda opinião para concluírem se fará ou não sentido prosseguir com a operação. Saibam que, se tiverem apenas endometriose, esta cirurgia poderá não ter o efeito que procuram.

Eu não sou médica mas posso deixar-vos, em conclusão, algumas recomendações que não exigem que o seja:

  • Procurem um verdadeiro especialista em endometriose;
  • Conheçam o vosso corpo e atentem ao que ele vos diz;
  • Se não se sentirem confortáveis com alguma terapêutica que vos sugerirem, peçam por alternativas – sim, elas existem;
  • Leiam muito sobre a doença – há muita informação científica recente que muitas vezes os próprios médicos desconhecem!;
  • Façam sempre todas as perguntas e mais algumas – mais vale pecar pelo excesso;
  • Reflictam sempre muito bem antes de tomarem uma decisão importante.

Este deverá ser um tópico discutido ao pormenor com o respectivo profissional de saúde e a decisão será SEMPRE da mulher.

Eu não prevejo o futuro. Quero preservar o meu útero tanto quanto possa e sei que, por ter adenomiose, existe a possibilidade de ter de o remover um dia, de forma a aliviar os sintomas desta doença.

Se esse dia chegar, não vou permitir que se associe o conceito de histerectomia à endometriose que também tenho.

Por isso, se eu tiver de remover o meu útero, não vai ser como a Lena Dunham.

4 comments

  1. Olá. Sou a M., tenho 41 anos e 2 filhos. O meu primeiro período foi aos 12 e a partir dos 13 as dores eram constantes e impeditivas de uma vida normal. O meu alívio é um saco de água quente na barriga e outra nas costas e esperar que saia tudo, “o dilúvio”, como chamo. Fora a dose de medicamentos que tomo. Admito que me automedico e que não respeito as quantidades nem horários se estiver desesperada com dores. Já fui muitas vezes para o hospital, mandam-me tomar paracetamol e brufen. Ecos durante a adolescência, nada.

    Há uns anos, após um aborto espontâneo, a ginecologista disse-me que tenho adenomiose. Durante a gravidez, a GIN/OB que fazia as ecos disse-me que tenho o útero com miomas. Não posso tomar a pílula nem nada que implica hormonas porque tenho crises de choro e pensamentos suicidas ao fazê-lo.

    Honestamente, estou saturada. Tenho menstruações por vezes de 10 dias, no mínimo 3/4 de corrimento intenso. Fiz os cálculos e se contar só com 7 dias, são 3 meses por ano em que sinto completamente indisponível para viver.

    Uma amiga minha tirou o útero. Notou uma diferença brutal em termos de qualidade de vida.

    Estou a pensar fazer mesmo, não quero ter mais filhos. O meu problema? Qual médico e qual hospital? Não pode ser público porque que estou temporariamente fora do país (já tentei ter consultas mas na hora “h” desmarcam e eu não consigo alterar passagens, etc com facilidade).

    Acresce a isto que eu tenho alterações de humor enormes consoante a fase do ciclo. Na altura da ovulação sou optimista e muito produtiva. Isso também acontece consigo?

    Obrigada

    M.

    1. Olá M, obrigada por teres partilhado a tua experiência.

      De facto, os sintomas que apontas correspondem todos a adenomiose. Sendo uma doença que acomete o útero, uma histerectomia total irá trazer-te muito alívio, a menos que tenhas endometriose (que, segundo o que dizes, não terás). A remoção do útero é uma solução a considerar no caso de adenomiose porque cura a doença (na medida em que a adenomiose apenas acomete o útero).
      Quanto aos miomas, nada posso dizer, porque não tenho conhecimento na matéria.

      Por vezes também sinto flutuações hormonais que se manifestam em sintomas de TPM mais intensos, mas não é frequente. É facto que acontece com muitas mulheres que tenham endometriose ou adenomiose. Isto acontece porque são doenças relacionadas com um desequilíbrio hormonal, que é a predominância de estrogênio sobre a progesterona.

      Em relação à pílula, nunca senti os efeitos que relatas mas já li sobre isso e, na minha modesta opinião, poderá ter que ver com o facto de tomares pílulas com estrogénio. Sugiro que te informes junto do teu ginecologista sobre a possibilidade de tomares progesterona apenas. Se ainda não experimentaste, poderias ver se te permite controlar os sintomas antes de procederes a uma histerectomia. Muitas mulheres sentem um enorme alívio (eu nunca experimentei) nesses sintomas. Mas atenção, não terá efeito contraceptivo.

      Poderás obter informação sobre quais os profissionais que poderão operar-te em Portugal com a Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose. Podes contactá-los via Facebook. Irão dar-te todas as informações de que precisas.

      Espero ter ajudado! Não sou médica, pelo que te deixo apenas algumas recomendações baseadas no que leio e na informação que os meus médicos partilham comigo.

      Desejo-te muita força e toda a facilidade em recuperares a tua vida, seja de que maneira for!

      Um grande beijinho
      Cat

  2. Concordo plenamente com você!
    Tenho endometriose e adenomiose.
    Tenho 40 fiz uma cirurgia à céu aberto, onde foi retirado uma porção do segmoide e as duas trompas. Já fui induzida a retirada do útero.
    Hoje faço uso do dienogest.

    1. Lindiane, obrigada pelo comentário. Fico muito contente por saber que concordas comigo. Espero que as intervenções te tenham trazido alívio… Força e beijo grande!

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