O Meu Útero Blog

O meu útero à conversa com a nutricionista Maria Inês Antunes

O que começou como um live de Facebook falhado (que passou para o instagram e que por motivos técnicos continuou a ser falhado), culminou ontem num evento maravilhoso.

A Maria Inês e eu estivemos à conversa sobre endometriose e alimentação e, bolas, dava vontade de reservar um dia inteiro em vez de apenas uma hora!

Aqui vos deixo uma bela fotografia:

O meu útero e a nutricionista Maria Inês na Mercearia Saloia

Já agradeci umas mil e quinhentas vezes à Maria Inês, mas volto a fazê-lo. Apesar de O Meu Útero ser um projecto que mantenho por gosto, não deixo de o encarar como trabalho e foi absolutamente um prazer trabalhar com ela. Certamente que iremos repetir a dose – não sei quando nem em que formato, mas vai acontecer.

Aqui está mais uma foto:

O meu útero e a nutricionista Maria Inês na Mercearia Saloia

Não só adorei preparar esta conversa com ela, como também com a malta da Mercearia Saloia. Em primeiro lugar, não podia ter-me sentido mais em casa. Fiz a bebida de curcuma (espreita aqui o artigo que escrevi sobre os incríveis benefícios da curcuma na endometriose), houve bolo de chocolate sem glúten e sem lacticínios de oferta (por cortesia da Gluoff), senti-me recebida como parte da família.

É algo que é impossível forçar-se e eu sinto-me extremamente honrada por ter sido naquele lugar, com aquelas pessoas.

Tivemos também oportunidade de trocar ideias e de responder a algumas questões. Quando conversávamos no final, senti aquela pertença, aquela validação de saber que quem comunica comigo sabe o que é andar nestes sapatos. É claro que cada uma tem as suas vivências, os sintomas variam, as histórias também… mas todas nós nos sentimos sozinhas, esquecidas num canto -algures no caminho, por vezes ao longo de todo o caminho e é extraordinário quando vemos com os nossos olhos que a realidade afinal não é assim.

Lê também: Quando a dor das mulheres é ignorada

 

E em relação à alimentação?

Para além de altamente complexo, o tema da alimentação para a endometriose é cheio de buracos por preencher. Assim sendo, por muito boa vontade que se tenha, vai haver sempre perguntas por responder (quer dizer, sempre não – quero acreditar que a cura está ao virar da esquina).

Para esta conversa, a Inês e eu investigámos e cruzámos vários temas referentes à alimentação, estudámos aquilo que se começa a saber com relação à endometriose e, quando não há propriamente conclusões a tirar dos estudos, deixámos as nossas ideias e sugestões.

Um dos aspectos associados à endometriose são os sintomas intestinais:

  • prisão de ventre ou diarreia constantes;
  • alterações intestinais durante o período menstrual;
  • crises dolorosas de gases;
  • inchaço abdominal;
  • dor ao defecar;
  • sangue nas fezes.

Sem dúvida que a alimentação e a saúde intestinal são importantíssimos para alívio destes sintomas.

Sem dúvida que certos alimentos podem despoletar reações intestinais e que devemos procurar prevenir isso.

No entanto, acompanhando o passo vanguardista de alguns académicos e profissionais de saúde por todo o mundo, defendo que a questão é bem mais profunda que isso.

Se já se sabe que existe uma relação estreita entre imunidade e intestino e se o sistema imunitário é uma condicionante cada vez menos questionável na endometriose, podemos perceber a necessidade de tirarmos o foco do útero, da menstruação, das trompas e dos ovários e de o virarmos para este órgão tão subestimado e menosprezado que é o intestino.

Para além dos sintomas intestinais, há outros sintomas de endometriose que, aparentemente, nada têm que ver com o intestino:

  • cólicas menstruais;
  • hemorragias entre períodos;
  • períodos muito longos e/ou intensos;
  • náuseas;
  • vómito durante a menstruação;
  • dor durante o acto sexual;
  • dor após o orgasmo;
  • dor lombar;
  • dor no ombro;
  • colapso dos pulmões na altura da menstruação;
  • queda excessiva de cabelo;
  • dor pélvica na altura da ovulação;
  • dor pélvica crónica;
  • infecções urinárias recorrentes;
  • sangue na urina;
  • fadiga;
  • pensamento turvo;
  • e etc, etc etc.

Mas, se prestarmos atenção, todos eles estão invariavelmente relacionados com um quadro de inflamação crónica e com um sistema imunitário que não está a funcionar como seria expectável.

É claro que há muitos outros factores que podem desencadear qualquer um destes sintomas! Ou seja, posso ter endometriose e ter náuseas porque comi comida estragada. Ou ter queda de cabelo porque lhe apliquei demasiados químicos no salão de beleza.

Mas quando temos presente endometriose (ou adenomiose) e quando estes sintomas se tornam recorrentes (ou crónicos), há que tratá-los como um todo, e não como casos isolados.

Isto é: de pouco me serve tomar pastilhas para alívio das náuseas se continuo a comer comida estragada. E de pouco me serve aplicar produtos contra a queda de cabelo se a origem da queda não está no couro cabeludo. Assim como de pouco me serve tomar um brufen para as dores menstruais se, sobretudo através da alimentação, continuo a favorecer o processo inflamatório que provoca essas mesmas dores.

Num momento de aflição, é claro que devemos recorrer àquilo que nos traz alívio. O objectivo não é sacrificarmos o nosso bem-estar em nome daquilo que a longo prazo é melhor para nós. Às vezes é mesmo necessária certa intervenção, certo químico, certos riscos. Dizia a minha professora do curso de PsicoNeuroImunologia Clínica que “se sou atropelada por um carro e fico desfeita, que se lixe a curcuma, dêem-me morfina!”.

No entanto, há que fazer um uso consciente dos analgésicos. Essa não é, muitas vezes, uma opção. Mulheres com endometriose vêem-se obrigadas a recorrer a medicação cada vez mais forte para acalmar as dores. E depois? Quando o analgésico mais forte deixar de ser suficiente? Até onde queremos chegar com este ciclo vicioso?

Uma forma de nos conseguirmos afastar dos analgésicos aos poucos é fazendo estas duas questões:

  1. Estarei a fazer a alimentação adequada para que o meu organismo trabalhe como é suposto?
  2. Estará o meu intestino suficientemente saudável para conseguir rejeitar o que me é tóxico e absorver aquilo que preciso?

Para quem tem endometriose, a resposta a estas duas perguntas é, muito provavelmente: não.

Mesmo que até tenhas uma dieta dita “saudável” (que isso também é relativo, mas pronto), o teu corpo pode não estar a tirar o máximo partido dela.

A lógica é: de que serve ter um combustível topo de gama, se o nosso carro não passa dos 30km/h? Estamos a gastar recursos em gasolina boa que não está a ser devidamente aproveitada.

Nesse sentido, ontem falámos da importância do papel do intestino, de formas de cuidar dele e da necessidade do acompanhamento profissional na preparação de um plano alimentar e de suplementação individualizado.

Falámos de alimentos a incluir na dieta, de alimentos a retirar e falámos daqueles alimentos que suscitam sempre muita polémica (glúten, carnes vermelhas, leite…) desde o ponto de vista da evidência científica.

São temas que irei obviamente explorar através de artigos aqui no blog, sobretudo para quem não teve oportunidade de assistir. Mas são também temas de uma profundidade imensa, que exigem um artigo bem estruturado e fundamentado, o que requererá mais tempo da minha parte.

Falámos também sobre o plástico, sobre o bisfenol-A e sobre a importância de substituirmos as garrafas de plástico por garrafas de vidro; o mesmo em relação aos tupperwares. Mencionámos a importância (gigantesca) da prática regular de exercício físico.

E… o tempo esgotou-se num instante.

 

Vai haver vídeo da conversa?

E quanto à pergunta sobre o vídeo – sim, é claro que haverá vídeo! 🙂

Houve alguns contratempos mas conseguimos gravar a sessão. Terei de editar o vídeo para poder partilhá-lo e infelizmente não sei dizer quando me será possível fazê-lo.

 

A todas as pessoas que apareceram; a todas as pessoas que queriam ter aparecido e não puderam; a todas as pessoas que de uma forma ou de outra contribuem ou contribuíram para O Meu Útero: eu, enquanto mera pessoa que sofre com endometriose, agradeço-vos do fundo do coração.

Fruto dos vossos contributos cresce este projecto, que me traz muita motivação e força.

 

Outras leituras:

Tratamento natural da endometriose: como minimizar os sintomas

A curcuma e os seus efeitos milagrosos nos sintomas da endometriose

Endometriose nos pulmões: como se manifesta?

O meu problema com a pílula

 

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