O Meu Útero
tratamento natural da endometriose

Tratamento natural da Endometriose: como minimizar os sintomas

Assim que soube que tinha endometriose, decidi que ia fazer um tratamento exclusivamente natural. Foi um risco mas, seis meses passados, valeu muito a pena.

Já há bastante tempo que queria escrever este artigo, mas sentia que precisava de fazer uma coisa muito estruturada e fundamentada, quase como se fosse uma mini tese sobre porque é que a dieta anti-inflamatória é tão importante – e como é que o tratamento dos sintomas da endometriose sem recorrer a hormonas sintéticas pode ser maravilhoso.

Acontece que tenho falta de tempo para estudar aprofundadamente o assunto e para trabalhar a sério em conteúdo que cite fontes, e por isso tenho adiado este trabalho.

Após receber várias mensagens a pedir informação sobre a dieta que faço, e após quase ganhar calos a escrever sempre rios de informação personalizada sobre o tema, lembrei-me da minha querida professora de canto que me dizia que “o óptimo é inimigo do bom” e percebi que estava na altura de colocar mãos à obra.

Partilho então convosco o que faço e que funciona para mim (e para a esmagadora maioria das mulheres com quem tenho contactado).

Pode não funcionar convosco, mas se sentem o chamamento para fazer um tratamento natural, sigam esse instinto.

Quanto a alguns porquês de muita coisa da minha dieta, não sei esclarecer para já.

Mas confio na minha médica ginecologista e foi ela que me traçou o plano de tratamento.

Por isso, independentemente do tratamento que desejem fazer, certifiquem-se que o fazem sob orientação médica.

A minha partilha surge como um incentivo para o fazerem, mas não deve nunca ser reconhecida como aconselhamento médico!

(Já agora: convido-vos a pagarem-me um café, se acharem que o meu trabalho vale a pena. Podem encontrar o botão para o fazerem à direita do écrã, ou no fundo da página para quem está a usar smartphone. O Meu Útero não tem fins lucrativos, o blog não tem publicidade e dedico a este projecto 90% do meu tempo livre. Podem saber mais sobre o meu trabalho e sobre o porquê de me vos sugerir que me paguem um café aqui.)

 

Dúvidas? Explico a endometriose aqui: Endometriose: o que é e como se diagnostica

 

O tratamento natural da Endometriose não cura a doença!

Até ao momento, nenhum tratamento cura a endometriose. A única “cura” que existe é a remoção dos focos sem que haja reincidências, o que infelizmente é raro por um variado número de razões.

Assim sendo, devo lembrar-vos de que este tratamento tem como objectivo minimizar (ou até eliminar) os sintomas. Segundo a minha médica, as aderências tornam-se mais maleáveis, causando menos dor.

Ao mesmo tempo, o sistema imunitário começa a funcionar melhor, o organismo desinflama e as hormonas começam a comportar-se como devem.


 

Alimentação: dieta anti-inflamatória

Existem várias correntes diferentes que defendem uma dieta anti-inflamatória específica, e a minha sugestão é que experimentem até encontrarem aquela que vos traz maior alívio.

Posso dizer-vos que, de acordo com tudo o que tenho lido, todas as dietas têm alguns pontos em comum, que é cortar nos seguintes alimentos:

  • glúten;
  • lacticínios;
  • carnes vermelhas;
  • soja e derivados (é uma grande fonte de estrogénio, que alimenta a endometriose);
  • álcool;
  • produtos industrializados/processados;
  • açúcar.

Começar por aqui já é um grande passo, mas não chega.

A dieta que faço é muito semelhante à dieta paleo, com pequenas diferenças. Uma delas é não comer vegetais crus: cozo sempre todos os vegetais, ao vapor.

 

Mais leituras: A TPM, a predominância de estrogénio e os hábitos saudáveis

 

Vamos começar pelo pior: o que NÃO posso comer

Para além da lista acima, eu eliminei da minha dieta os seguintes alimentos:

  • cereais (quaisquer que eles sejam) e derivados;
  • leguminosas (incluindo amendoim);
  • camarão;
  • quinoa;
  • batata;
  • pimento;
  • beringela;
  • inhame e tapioca (não foi recomendado que cortasse, mas notei que me caem muito mal);
  • ovos de super-mercado.

 

O que eu POSSO E DEVO comer:

  • peixe (todo e qualquer peixe, preferencialmente pescado);
  • ovos de galinha que eu saiba que são de criação biológica (não confio em nenhuns dos que se compram no super-mercado);
  • ovos de codorniz;
  • carne de perdiz;
  • carne de coelho;
  • carne de borrego
  • carne de cabrito ….etc;
  • cogumelos;
  • algas;
  • frutos secos;
  • vegetais (courgette, cenoura, couve-roxa, couve-coração, brócolos, cebola, abóbora, alho francês, pepino, etc…);
  • duas peças de fruta por dia, no máximo (a fruta é boa, mas não em demasia, porque apesar de tudo é açúcar);
  • crustáceos;
  • côco e qualquer alimento à base de côco: óleo, leite, côco ralado, etc e tal;
  • picantes (wasabi, malagueta, pimenta, gengibre);
  • especiarias como a curcuma (conhece os benefícios aqui);
  • leite de amêndoa;
  • vinho tinto (um copo por dia);
  • chocolate negro;
  • tâmaras;

Outros dois aspectos importantes da alimentação anti-inflamatória:

1 – Jejum

Espaçar as refeições entre 4 a 6 horas para dar tempo ao corpo de “limpar” e jejuar regularmente. No início é estranho e complicado (pudera, foram anos e anos a comer porcaria), o corpo ressente-se nos primeiros dois dias ou assim – mas não faz mal, é a desintoxicação a acontecer.

Não vamos morrer nem vamos entrar em modo de auto-consumo.

O jejum deve ser treinado: quanto mais vezes fazemos, mais tempo conseguimos aguentar.

Mas atenção: o jejum é especialmente prejudicial se no momento em que nos alimentamos só comemos porcaria. Por isso, quando se quebra o jejum é muito importante fazer-se uma refeição equilibrada e neutra. Convém procurar orientação de um nutricionista.

2 – Comer intuitivamente

Esta forma de encarar a comida tem a ver com a forma como nos relacionamos com o nosso corpo e exige que repensemos essa relação.

Entre outros aspectos, comer intuitivamente significa que, quando não há fome, mesmo que seja hora da refeição, a solução é simples: não se comer.

Parece algo drástico, sobretudo depois de anos e anos das nossas mães e pais dizerem-nos que tínhamos de comer X refeições, num determinado horário.

Na mesma linha de raciocínio, quando deixa de haver fome, é hora de se parar de comer.

Esta dinâmica exige algum treino e disciplina, mas é possível e os resultados são muito positivos.

Podem ler mais sobre intuitive eating aqui, por exemplo.

Hidratação

É facto que a hidratação é um ponto crucial que muita gente se esquece de respeitar, mas também há quem leve isto ao extremo. Aqui, impõe-se novamente a regra de ouvirmos o nosso corpo.

No entanto, eu costumava esquecer-me de beber água e era capaz de passar dias sem sentir vontade de beber um copo de água, o que era péssimo porque sentia os efeitos da desidratação no organismo.

Beber 2L de água, segundo a PsicoNeuroImunologia, poderá ser extremo e sobrecarrega os rins.

O que eu faço é beber muita água, controlando se estou a beber a mais ou a menos através da cor do xixi.

Se estiver muito escuro, é urgente beber mais água; se estiver transparente, já passei a dose.

Honestamente, a quantidade de água que bebo depende dos dias: às vezes tenho mais sede, outras transpiro mais… mas bebo entre 1 e 2L por dia – em casos raros bebo mais.

 

Outro artigo: Endometriose: quando uma crise de gases me mandou para o hospital

 

Sono

Dormir cerca de 8 horas por noite é imprescindível.

No outro dia li um artigo sobre a relação entre noites mal dormidas e a probabilidade de incidência de cancro.

A conclusão do estudo era que as pessoas que dormiam menos tinham uma maior probabilidade de desenvolverem cancro.

Há inúmeros estudos sobre o impacto do sono na nossa saúde e bem-estar e, só por aí, já devia servir de argumento suficiente.

Mas é durante o sono que o nosso sistema imunitário se restabelece e já se sabe que, no caso de quem tem endometriose, o sistema imunitário não anda propriamente a funcionar como deveria.

Por isso, apesar de a vida ser muito acelerada (ou talvez por causa disso mesmo) importa dormir bem.

Tomemos consciência deste aspecto tão importante e tantas vezes menosprezado.

 

Exercício físico

Entre muitos outros, o exercício desinflama o organismo, activa a circulação, regula a produção hormonal e contribui para um bom funcionamento de todo o nosso sistema imunitário.

Quando as dores da endometriose são insuportáveis, poucos são os exercícios que se podem fazer. Mas parar é proibido-íssimo!

Alongamentos e exercícios de respiração diários são coisas que é possível fazermos a partir de casa e aliviam as dores e o inchaço.

Depois, cada umx tem de ver o que é que sente que consegue fazer. Mas, se há dor num determinado exercício (não estou a falar daquela dor boa de puxar pelo corpo, claro), este deve ser evitado.

Deixei os pesos por alguns meses porque não aguentava com a dor lombar, que descobri que se devia à endometriose ou à adenomiose.  Fiz Yoga, melhorei bastante e, felizmente, consegui regressar aos pesos sem sentir dor!

Por isso, há que ir experimentando de vez em quando para sabermos até onde conseguimos ir.

 

Suplementação

A suplementação faz milagres, mas não pode ser tomada de qualquer maneira.

Idealmente, análises sanguíneas devem ser feitas e todo o historial da pessoa deve ser estudado, para que o profissional de saúde saiba recomendar um plano de suplementação adequado.

No entanto, existe um suplemento com pouco protagonismo mas que já vai coleccionando vários estudos a propósito do impacto positivo que tem em reduzir os sintomas da endometriose, entre outros. Chama-se Melatonina.

A Melatonina é a hormona do sono. Apesar de o nosso corpo produzir Melatonina, esta produção é inibida pela exposição às luzes azuis dos gadgets.

A suplementação ajuda a regular o ciclo circadiano e tem um efeito anti-inflamatório no corpo.

Testes em que administraram melatonina a ratos demonstraram inclusivamente a possibilidade de fazer regredir aderências de endometriose!

Já falei inclusivamente com alguns médicos sobre o suplemento (um dos médicos era endocrinologista, falei sobre a consulta aqui). Até ao momento, nenhum me disse para parar de o tomar.

O endocrinologista disse-me que não havia contra-indicação e que, se eu me sentia bem, não havia problema em continuar a tomar.

Se quiserem passo-vos os artigos sobre a melatonina, para que possam avaliar com o vosso médico a possibilidade de começarem a tomar.

Outros suplementos que fazem muito sucesso entre a comunidade endo, são o Ómega 3, a Vitamina D, a Glutamina, a Curcuma, os Probióticos e os Prébióticos. Estes são aqueles que já experimentei e com os quais senti (e sinto) enorme alívio.

As dosagens e horários deverão ser recomendadas pelo médico e, por essa razão, não partilho convosco as minhas.

 

Evitar os disruptores endócrinos

Muitos estudos vêm apontando o efeito nefasto dos disruptores endócrinos, que estão por todo o lado: parabenos, BPAs (bisphenol-A), Dioxina, Ftalatos, e por aí vai.

Basicamente são substâncias que, através do nosso contacto com elas (ingestão ou absorção através da pele), mimicam o comportamento das hormonas no nosso corpo e causam inúmeras disfunções hormonais.

São tipo aquele amigo de um amigo que aparece na nossa festa sem fazer grande alarido e, quando nos damos conta, destruíram a casa toda, comeram a comida toda e, se for preciso, estão desmaiados sobre uma sanita vomitada.

Então, vamos deixar de os consumir, certo? Ah, se ao menos fosse assim tão fácil…

E onde é que estas substâncias estão?

Em todo o lado:

  • no ar poluído que respiramos diariamente;
  • nos plásticos;
  • na maquilhagem;
  • nos detergentes da roupa;
  • em implantes dentários (de chumbo);
  • no peixe pescado em oceano (mercúrio);
  • nos detergentes da loiça;
  • nos detergentes da roupa;
  • nos pensos higiénicos;
  • nos tampões;
  • nos preservativos;
  • na comida (dependendo da sua origem);
  • no champô;
  • no hidratante;
  • no sabonete;
  • BASICAMENTE EM TUDO!

 

Mas nem tudo está perdido. Podemos reduzir o nosso contacto com os disruptores endócrinos: emigrando para uma tribo perdida na Amazónia ou:

  • Trocando a garrafa de plástico por uma de água, bebendo sempre água da torneira, se possível filtrada;
  • Dizendo adeus para sempre aos tupperwares de plástico, trocando-os por tupperwares de vidro com tampa de madeira (o ikea já tem);
  • Utilizando palhinhas de inox, ou rejeitando palhinhas de plástico sempre que pedirem uma bebida num restaurante ou café;
  • Trocando os tampões por um copo menstrual (descrevi aqui a minha experiência de principiante, mas agora já estou pro);
  • Trocando os pensos higiénicos descartáveis por pensos higiénicos de pano, orgânicos e laváveis. A marca Fluffy Organic and Eco é portuguesa, podem encomendar com eles os vossos pensinhos e nunca mais gastarão um cêntimo em pensos;
  • Preferindo cosmética natural, como da Miristica ou do The Green Beauty Concept, por exemplo;
  • Usando sabonetes naturais, como os da Saponina;
  • Usar óleos naturais como hidratantes: azeite, óleo de côco, óleo de sésamo, de cânhamo, etc…
  • Comprando produtos de limpeza para a casa que sejam isentos desses químicos, e podem encontrar em qualquer loja de artigos biológicos.

Sobre este ponto, podem ter interesse em ver o vídeo que fiz com a Catarina Pinto (que leva uma vida zero waste, ou seja, faz de tudo para não criar lixo), sobre vida ecológica e saúde menstrual, no qual damos muito mais dicas.

 

Bem-estar emocional

Em último lugar, mas não menos importante, é o bem-estar emocional.

De que serve querermos ser saudáveis se a ansiedade, o medo e a depressão nos matam por dentro?

Não é propriamente fácil encontrar paz depois de obtermos o diagnóstico de uma doença crónica que pode ser muito dolorosa, mas é possível, sim, e é extremamente gratificante.

Em Abril fiz um live no meu instagram com o meu querido Alexandre Vaz (psicólogo) sobre o impacto psicológico e emocional da endometriose. Falámos de como gerir as nossas emoções e de como ultrapassar o choque por cima, não permitindo que se crie um trauma.

Partilhei o vídeo no Facebook, podem vê-lo aqui:

Também não me canso de falar no empoderamento como arma contra os medos, as dores (físicas e não só) e as angústias.

Procurar acompanhamento psicológico também não deve ser desconsiderado. Não há que ter vergonha de procurar ajuda.

 

A mudança começa hoje

São imensas mudanças, que é impossível adoptar-se de uma vez só.

Mas vale a pena, mesmo que o tratamento natural não seja o único tratamento escolhido.

Eu não tomo a pílula nem faço qualquer tipo de tratamento que recorra à toma desse tipo de hormonas. Encontrei um alívio enorme nos meus sintomas e não podia estar mais feliz com a minha decisão.

Cada umx escolhe o tratamento que quer, mas para isso é necessário que se gere conhecimento sobre as várias alternativas.

E espero ter conseguido contribuir para isso.

Sigam-me no instagram para uma actualização mais constante de dicas, ideias e informação sobre saúde menstrual:

www.instagram.com/omeuutero

Adoro receber as vossas mensagens por isso, se vos apetecer, força.

 

Beijos com amor.

 

Cat

4 comments

  1. Olá, faz dois anos que descobri que tenho endometriose, moro no interior do RS, o único tratamento que me passaram foi com a pílula continua. Porém nesses dois anos tive um aumento de peso grande em função dos hormônios, aumento de varizes e vasinhos nas pernas, estou buscando tratamentos alternativos mas é muito difícil encontrar médicos aqui para me auxiliarem. Mesmo não menstruando mais, ainda sofro com dores.
    Achei muito bom o conteúdo do blog, vou começar a fazer algumas coisas.

    Obrigada!

  2. Olá desde já agradeço ,pois ainda não fui ao médico , mas já algum tempo que tenho quase 90%de certeza que é o que eu tenho , agradeço o seu tempo para nos ajudar com a sua experiência .tenho vindo a mudar alimentação e as outras mudanças também virão como dizem na Catalunha pouco a pouco não tenho qualquer dúvida que esta no caminho certo obrigada

  3. Desde já , agradeço a partilha, visto também ser um destes casos. Já li muito sobte a endometriose, contudo nada tão explicito ao nível da alimentação e demais informações. Aquj, encontram-se mais detalhes que tornam mais fácil perceber a o impacto da endometriose nos vários campos da vida e, simultaneamente, alternativas para obter uma melhor condição de vida. De facto, ao ler estas informações pude associar muitas das situações que tem ocorrido e a razão das mesmas. É caso para referir que vi me sensibilizada a prestar mais atenção, no sentido de ter maiores cuidados, quer na alimentação (embora já os tenha), quer em outras sugestões apresentadas. Sem me alongar mais, volto a agradecer este esclarecimento.

    1. Olá Lina, fico verdadeiramente feliz e grata pelas tuas palavras. É um prazer trilhar este caminho e trazer maior luz sobre a gestão das doenças e dos sintomas. Estamos juntas neste caminho 🙂 Beijos

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