O Meu Útero Blog

Porque é que eu me exponho no insta e porque é que é urgente mudar

Olá uterinos e uterinas (talvez eu esteja a pagar uma aposta que fiz ao chamar-vos isto, ou talvez esteja a testar a sugestão que a Jhovana me deu à hora de almoço, num destes dias, lá no escritório).

Por falar em sugestões: normalmente penso num artigo, faço a minha pesquisa se necessário, e publico. É um processo relativamente metódico. Quero que o blog seja um canal de informação para quem, como eu, quer saber mais sobre esta doença marota.

Mas hoje decidi apenas pegar no computador e começar a teclar. Sinto-me inspirada e não me apetece estar a focar-me em aspectos específicos da endometriose.

Eu sempre adorei comunicar. Fazer amigos. Aprender com as pessoas.

Tenho uma relação agridoce com as redes sociais. Se, por um lado, acho que são excelentes meios de disseminação de informação, por outro acho-as tóxicas, cansativas e maçadoras. Sempre gostei de colocar fotos no instagram e fazer piadas. Faço-o porque, sinceramente, é o que faço na minha cabeça no meu dia-a-dia.

Sinto uma necessidade muito urgente de me expressar. Música, arte, escrita… são dimensões que me acompanharam desde cedo. O meu pai era músico e pintor. O meu irmão é artista. A escrita foi uma coisa que partiu apenas de mim. Mas a verdade é que exprimir o que sinto e penso, questionar o estado das coisas e provocar reacções nas pessoas são um combustível para o meu ser.

Ao mesmo tempo, sou uma pessoa de extremos. Desligo-me por alguns períodos e gosto de me isolar. Detesto falar ao telefone. Cada vez uso menos o Facebook. Acho um pouco assustador o rumo que as coisas estão a tomar em termos de exposição da vida privada – não porque ache que há coisas que não devem ser partilhadas, mas porque as pessoas vão tendo cada vez menos vida própria para consumirem cada vez mais a vida dos outros. E esses outros começam a comportar-se como entidades divinas e perfeitas, tornando a sua própria pessoa num negócio.

Eu sempre achei isso e, de repente, ó pra mim a partilhar mil coisas e a ter crescente feedback. Nossa, como ela é influenciadora.

Quando descobri a endometriose tomei a decisão de me expôr ao mundo e, até agora, ainda não me questionei sobre se o deveria ter feito. Mas às vezes dou por mim a sentir a pressão de ter de partilhar conteúdo para manter o projecto vivo… e não é assim que eu quero funcionar. A necessidade de partilhar conteúdo tem de ser a partilha em si mesma e não os algoritmos das redes sociais ou a atenção de pessoas que não conhecemos. Parece óbvio, mas quando nos metemos nisto quase que entramos num mundo paralelo, as linhas vão ficando cada vez mais ténues.

Eu recebo mensagens de pessoas que nunca conheci a agradecerem-me por abdicar do meu tempo a partilhar informação. Recebo também mensagens de pessoas que me agradecem por, mesmo sem ter plena consciência disso, lhes trazer motivação e inspiração para levar o dia-a-dia.

É inacreditável. É uma sensação maravilhosa ter este impacto positivo na vida de alguém. Eu sempre fui uma sonhadora, sempre quis lutar por um mundo melhor e esta doença permite-me transmitir esta visão que tenho. Mas, ao mesmo tempo, tenho noção de que estou a entrar num campo relativamente perigoso para mim – é aliciante termos esta projecção e é tentador começarmos a afastar-nos do nosso eu real. Eu sei disso.

E para contrariar isso mesmo, achei que deveria ser verdadeira convosco sobre este projecto e sobre o que me motiva a trabalhar nele. Eu quero chegar a todas as mulheres que têm endometriose, e principalmente às que têm e não sabem. Para que lhes seja mais fácil obter um diagnóstico, para que se sintam menos constrangidas pela sociedade e para que encontrem compreensão e tolerância entre aqueles que as rodeiam. Nós todas temos útero e vaginas e alguns estão avariados. Não há problema, vamos encontrar uma solução!

Eu luto pelas mulheres que têm endometriose, mas luto também por muito mais. O nosso mundo está cheio de porcaria. Estamos cheios de porcaria nas nossas cabeças e no nosso corpo e está mais do que na hora de acordarmos e termos mão sobre aquilo que pensamos e fazemos. Estamos a tornar-nos pequenos soldadinhos de chumbo numa brincadeira de monstros assustadores. Estamos a arruinar a natureza à nossa volta e estamos a exterminar a nossa própria espécie (quase literalmente)!

Os casos de doenças que acometem a fertilidade têm aumentado a uma velocidade absurda. A contagem média de espermatozóides de um homem baixou em cerca de 59% nos últimos 40 anos. Os cancros e a infertilidade começam a tornar-se cada vez mais frequentes. Sim, a medicina avança para dar a volta à situação e muitas vezes com sucesso (isso é uma felicidade, eu sei), mas fazem-no com mais químicos e toxinas que nos enfiam no corpo!

Mas porque é que andamos loucos a tentar curar doenças que somos nós próprios que causamos? Porque é que não tentamos, em vez disso, ouvir o nosso corpo e atuar na origem da doença e, se possível, na sua prevenção? Porque é que silenciamos dores que se vão tornando cada vez mais gritantes, em vez de silenciarmos tudo o resto para as ouvirmos com atenção?

Este discurso “extremista” é de quem, aos 25 anos, foi dito que provavelmente não vai ter filhos pelo método natural (é que, para além da endometriose, tenho também ovários poliquísticos, pelo que ovulo muito menos frequentemente do que uma mulher dita “normal”).

Havia 80 milhões de mulheres no mundo com endometriose em 2003. Hoje, há 176 milhões. Estudos comprovam que um grande potenciador da endometriose é a exposição a toxinas que, neste momento, estão por toda a parte. É fácil ver a ligação, certo?

No entanto, nem tudo são más notícias. Podemos contornar a situação, alterando hábitos de vida e indo contra aquilo que sempre nos disseram ser o certo.

Eu não sei o caminho certo para isto, mas vou desbravar terreno e partilhar a minha jornada para que mais pessoas possam sentir-se menos estúpidas ou lunáticas por fazerem-no também. Talvez no fim eu veja que afinal não era bem por aqui; vamos readaptando a rota à medida que vamos avançando. Mas eu acredito que é possível.

Optei por utilizar o instagram como principal meio de comunicação por ser mais fácil, mais rápido e por permitir um contacto mais directo com quem queira comunicar comigo, mas não esqueço os vídeos. A questão é que me levam mais tempo, tenho de investir em luz e estou sem tempo e sem dinheiro.

Um útero é algo muito poderoso; é onde se gera vida. O Meu Útero é um espaço virtual de troca de informações, ideias, medos, conquistas – mas não apenas da minha parte. Da de quem o segue também.

 

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