O Meu Útero Blog
empoderamento

Quando só tu podes ser responsável pelo teu empoderamento

Hoje é feriado, acordei às 9 da manhã e passei as cinco horas seguintes a fazer as minhas investigações e a traduzir artigos sobre endometriose. Estou desde ontem a sentir ligeiras dores menstruais, mas sem vestígios de menstruação.

O meu útero deve estar a conter-se à espera do dia de amanhã, em que vai haver festa, para me dedicar um belo festim assassino ou algo desse tipo. 😂

Amanhã completo 26 primaveras. É estranho. Não que eu tenha complexos com a idade ou com aniversários. É só estranho dar-me conta de que sou, de facto, uma mulher.

E a verdade é que não foi há muito tempo que deixei de ser aquela menina insegura que costumava ser.

Este ano foi um ano de transição para mim. Foi, por várias razões, um ano complicado.

Tive de lidar com situações muito desafiantes, como a perda inesperada de uma pessoa que me era muito querida.

Logo de seguida, o medo de perder outra pessoa por quem tenho um enorme carinho e respeito, pessoa essa que me deu uma valente lição sobre coragem e enfrentar medos e que, por isso, saiu da difícil situação em que se encontrava de cabeça erguida.

Depois, ganhei novas colegas de casa e amigas que me introduziram a um mundo novo de conceitos, comidas, séries de televisão.

Entretanto, as dores diárias que continuavam a piorar.

O diagnóstico de que tenho uma doença crónica.

Colocar tudo em cheque. Colocar-me em choque.

Por momentos, achar que nunca na vida serei digna de amor.

Quem é que vai querer apostar numa relação comigo?, pensei eu, se nem a porcaria do meu útero funciona como deve ser?

Acho que faz parte pensar em coisas do género. Senti muita raiva e aflição.

Acabada de sair do consultório, abraçava-me à minha mãe, sentia-me injustiçada, sentia-me uma falhada enquanto mulher.

Felizmente, não me demorei muito tempo nesse buraco em que senti que caí. Foi o momento crucial para começar a mudar a minha vida.

Quando se fala de endometriose, fala-se muito em empoderamento. Imagino que isto possa ser estranho para muita gente.

Endoguerreiras, endolutadoras, endovencedoras, endoirmãs, endofighters, endowarriors, endosisters… é assim que muitas pacientes se identificam. Isto é porque a atitude de guerreira tem um impacto tremendo na gestão psicológica e emocional da dor.

As mulheres sentem-se vitimizadas pela endometriose, e com razão.

A verdade é que a grande maioria dos médicos está-se nas tintas para nós, pelo mundo inteiro. Eu digo isto com base em testemunhos que conheço e com artigos que leio – e até baseando-me na minha própria experiência, que não é de todo assustadora quando comparada com as de muitas outras mulheres.

Estão-se nas tintas. Encaminham-nos para psicólogos. Dizem que está tudo na nossa cabeça.

E não têm que ser só os médicos. Maridos, famílias, amigos. Vocês não imaginam as queixas que partilham comigo – em grupos de whatsapp, em grupos de facebook, em mensagens privadas.

É ultrajante e vergonhoso. É até um comportamento algo abusivo, cujas consequências emocionais e físicas são devastadoras. Como podem imaginar, isto em nada contribui para tratamento dos sintomas ou da doença.

A endometriose é uma doença séria. Não mata, mas pode levar à depressão e ao suicídio, principalmente pela falta de informação e apoio. Não é uma brincadeira.

A endometriose não me define, mas alavancou um processo pelo qual toda a gente deveria passar: o empoderamento.

Sim, honestamente, se não fosse por causa da endometriose eu creio que não seria a pessoa feliz que sou hoje. Irónico, não é?

Não quero com isto dizer que a doença me deixa assim. Mas o esforço que a doença me exigiu permitiu-me conhecer toda uma nova Catarina e a ter maior controlo sobre o meu corpo e sobre as minhas emoções. E creio que até sobre as minhas relações.

Colocar-me à prova com esta doença, querer fazer a diferença, trocar impressões com pessoas que estão na mesma posição que eu e reconhecer que se não fosse por minha insistência incansável nenhum médico me iria dar credibilidade trouxe-me uma sensação enorme de concretização.

A certo momento, dei-me conta: “Olha, sou capaz!” e apesar de nunca me ter considerado estúpida, nunca fui segura o suficiente, nunca me senti capaz o suficiente de levar um projecto a sério, ou de dar o melhor de mim.

O medo de falhar e a vergonha de ser criticada falaram sempre mais alto.

É engraçado porque, ao mesmo tempo, sempre fui extrovertida. Mas era muito difícil para mim expôr-me. Sentia-me ridícula.

Sinto que estou a conseguir empoderar-me apoiando-me naqueles que me amam e que me dão apoio incondicional. Se eu, felizmente, posso usufruir desse apoio, isso não significa que não compreenda aquilo pelo que estão a passar outras portadoras.

E assim também elas podem iniciar o seu próprio processo de empoderamento.

Foi um percurso e tanto, desde Janeiro até agora.

Estou entusiasmada para saber o que 2018 vai trazer.

2 comments

  1. Ola Catarina, parece que conheces a minha vida e escreveste este artigo em meu nome porque muito do que foi escrito neste artigo faz parte da minha historia, das minhas lutas, incertezas e dores (tanto emocionais como físicas).
    Fiquei muitíssimo feliz por ter me deparado com o seu blog pois vejo que as endomulheres sao mais que vencedoras pois quanto mais a doença tenta nos parar mais adiante nos caminhamos e com um sorriso no rosto e gratidão no coração.
    Eu já vivo com a doença há cerca de 18 anos e tenho dias bons e outros maus mas ainda tenho esperança que um dia me sentirei livre desse “demónio”.

    Beijos carinhosos

    1. Olá Dércia! Obrigada. Como fico contente com o teu comentário! Eu também acredito que me verei livre desse demónio – na verdade não só eu, como todas nós. Ainda que a doença se mantenha, pelo menos que não se manifeste e que não nos coloque limitações. Penso que poderás gostar do que partilho no instagram, caso tenhas conta e caso não conheças ainda: http://www.instagram.com/omeuutero fica à vontade para comentar ou enviar mensagens. Só beneficiamos com esta nossa partilha! <3 beijos e muito amor!

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