O Meu Útero Blog
endometriose

Ginásio, dia 1

Quando tive o diagnóstico de endometriose, e devido às dores constantes que sentia, desisti do ginásio. Fiquei muito triste porque acreditava que não haveria chances de voltar. Fiz o meu luto. Lembrei-me do entusiasmo que sentia nas fases em que conseguia ir com maior frequência ao ginásio, e em como isso me deixava feliz, e reconheci que era uma possibilidade nunca mais recuperar aquela dinâmica.

Uma actividade que se recomenda muito a quem sofre de endometriose é o Yoga, por exemplo. Inscrevi-me numa escola e comecei a fazer aulas duas vezes por semana. Gostei do Yoga, fez-me conhecer um pouco mais de mim mesma.

Às vezes sentia que estava aos poucos a encaixar-me naquele estereótipo de jovem adulta à procura do sentido da vida: com dois gatos, a fugir do glúten, a praticar Yoga e a acender incensos. Percebi que tinha de abraçar esta nova pessoa que a endometriose me estava a forçar a ser. Mas o mais triste é que isso significava também dizer adeus à pessoa que já tinha sido, e que gostei tanto de ser.

Apesar de ter sido por muitos anos uma lontra de sofá, aprendi a gostar do ginásio, sobretudo quando comecei a ver que era possível mudar pra caraças a minha resistência física e a minha força. Sobretudo a força. Quando comecei a ficar com músculo nos bíceps, não queria outra coisa. Sentia-me empoderada.

Entretanto descobri o maravilhoso mundo do Body Pump [modalidade de aula acompanhada de música: em cada música trabalhamos diferentes grupos musculares, com orientação do professor, e a cada três meses a playlist muda] e fazer aquelas aulas deixava-me genuinamente feliz.

Bom, como dizem os antigos: se a vida te der limões, passa a comer outra fruta qualquer.

Mas o problema é que a merda dos limões não me saíam da cabeça. Ouvir as músicas do Body Pump deixava-me amargurada – eu tinha uma playlist no Spotify e recusei-me a voltar a ouvi-la. Foi como o término de uma relação, ainda por cima em (muito) maus termos.

O Yoga era bom, ajudou-me bastante, mas não me bastava. Sentia-me um passarinho a quem tinham tirado todas as penas. Eu sabia que era uma questão de tempo até me acostumar, mudar pode ser bom e tudo vai da perspectiva que escolhemos ter.

Felizmente, com a dieta extremamente bem pensada e seguida quase à risca, com os suplementos recomendados pela minha médica e com o Yoga, consegui reduzir as minhas dores – por completo até agora, excepto um ou outro incómodo pontual.

Soube que um ginásio perto de onde trabalho estava a fazer uma promoção e fiquei interessada. Por coincidência, o Filipe, o meu parceiro de treino, tinha acabado de se inscrever. Nesse ginásio também há aulas de Yoga, por isso percebi que estava na hora de me aventurar uma vez mais.

Segunda-feira passada foi o dia. O medo de sentir dores esteve sempre lá. Avisei o instrutor antes da aula que tinha uma lesão e que se a faixa de costas me causasse dor, não ia insistir – sei lá, eles às vezes passam-se e começam a mandar bocas para puxar pelos mais preguiçosos, obrigando a aula toda a colocar os olhos sobre os pobres coitados que não querem continuar o exercício.

Não houve dores, e mais: provavelmente por causa da glutamina toda que ando a tomar (segundo recomendação médica), não me custou como eu estava à espera que custasse. Fiquei até surpreendida com a minha força nas flexões. Sinceramente acho que é da glutamina e da alimentação.

Sorri o tempo todo. Tinha medo que o meu corpo me traísse, mas confiei e consegui. Não me condenaria se não conseguisse, mas sabia que ia ficar ainda mais triste se sentisse dores, se tudo aquilo tivesse sido em vão.

Meu Deus, estava tão na minha praia que só me apetecia sair por ali beijando e abraçando o mundo inteiro. Não sei se foi impressão minha, mas toda a gente naquele ginásio foi impecável, parecia que estava num musical da Disney, toda a gente sorridente, toda a gente amiga e bem-disposta.

Fiz um treino acompanhado que me foi oferecido por uma PT – a sorte estava do meu lado. Usámos e abusámos das pernas, ao ponto de eu ficar temporariamente incapaz de descer escadas – quem não gosta de uma boa fraqueira de coxa após o treino? 😏

Agora já preparei um plano para esta semana que vem e estou cheia de vontade de voltar para a sala de treino. A sensação de realização que sinto depois deste imbróglio de tristezas e sintomas malvados é inexplicável.

Eu sei que é possível que, de um dia para o outro, a situação se altere drasticamente. Com a endometriose uma pessoa nunca sabe muito bem com o que é que há-de contar.

Mas agora também sei que já estive, inesperadamente, tão mais longe de poder fazer tudo aquilo que bem me apetece. Uma pessoa começa a ver as coisas com outros olhos.

De repente, sinto-me sortuda por poder fazer o que quer que seja. É um clichê que ouvimos desde pequenos e que remonta provavelmente aos tempos pré-históricos. Quando não podemos ter uma coisa de que gostamos, é quando mais lhe damos valor. Mas vá lá, ninguém é capaz de viver no constante êxtase de poder estar a fazer tudo aquilo que faz! São picos de felicidade até nos acomodarmos e o que temos infelizmente já não bastar.

Amanhã é outro dia. E lá estarei. Pronta para fazer rebentar as costuras da roupa. Pronta para assassinar as coxas e os bíceps. 💪

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