O Meu Útero Blog

Neste Natal, não me perguntem quando é que tenho filhos

Chega o período das festividades em família e, para muita gente, a dor de cabeça da pressão familiar sobre os nossos planos de termos filhos.

Infelizmente, a impossibilidade de ter filhos ou o desejo de não os ter são factores que não fazem parte do raciocínio da maioria das famílias que, a partir de que temos uma certa idade, começam a ver-nos apenas como máquinas de fazer bebés.

E, pior, consideram que o facto de não estarmos a cumprir com o nosso “propósito biológico” é uma falha que aportamos para o núcleo familiar.

Como se amássemos menos a nossa família por isso.

Os planos de se gerar uma vida dizem respeito apenas a quem é de facto responsável por ela: os pais/a mãe/as mães. É um tema íntimo e pode muitas vezes ser delicado. Por isso, não toquem nesse assunto e deixem que sejam xs próprixs envolvidxs no assunto a fazê-lo.

Para quem não tem filhos nem sabe quando terá, se terá (seja por que motivos for): lembrem-se de que não estão a falhar em absolutamente nada e que esta atitude que nos cria tensão na alma nada mais é que uma vontade de mostrar amor, de mostrar que estamos juntos nestes projectos pessoais.

Famílias por Portugal fora: as vossas intenções não são maldosas mas, sem quererem, podem causar muita dor com uma aparentemente inócua pergunta. Parem, por favor, de fazer isso. Deixo-vos os porquês:

 

1. Não queremos ter filhos

Para muita gente pode ser que isto seja uma novidade: há quem não queira ter filhos. Porquê?, perguntam vocês.

De que importa isso?, riposto eu.

Se eu não quero, não quero – e não é a pressão social que me vai fazer, de repente, pensar “Oh, bolas, estive enganadx este tempo todo, desculpem lá, para o ano já temos mais um elemento na família”.

Se por acaso souberem que a pessoa X não quer ter filhos, não questionem essa vontade.

Nem sejam dramáticxs, não fiquem ofendidxs, esta decisão não tem nada a ver convosco. Nunca teve, nunca terá, e não faz qualquer sentido levarem-na como um ataque pessoal.

“Ah, mas queria tanto ser tia” – sim, mas a decisão não é tua nem as tuas birras vão fazer diferença. O processo pelo qual te tornarás tia não exige absolutamente nada da tua parte, lamento.

Se for para irem por esse caminho na conversa, é melhor não puxarem assunto.

Muitas pessoas que não pretendem ter filhos abominam esse tópico, simplesmente porque têm de se defender de inúmeros argumentos e isso cansa. Não temos de defender uma decisão que tomamos para a nossa vida, sobretudo entre quem amamos. Mas, por outro lado, termos espaço para expormos as nossas ideias e sentirmos que família e amigos nos apoiam nessa decisão pode ser muito construtivo para todos os envolvidos.

Se tiverem confiança suficiente e uma mente aberta pode gerar-se uma conversa muito elucidativa sobre pontos de vista diferentes para aquilo que queremos da nossa vida.

Acho que, no geral, estamos a anos de luz desse tipo de aceitação social. Assim sendo, à cautela, eu diria para não tocarem nesse assunto.

 

2. Um dos elementos do casal não quer ter filhos

Há muitos casos em que um dos elementos não quer ter filhos. Por vezes, é motivo de ruptura da relação. Em outros casos, há cedências que se fazem.

Ainda assim, este tema pode ser extremamente delicado e tocar nele pode deixar o casal aziado antes mesmo de terem experimentado as entradas que a da tia Lurdes preparou com tanto carinho e agora vão para o lixo.

3. Podemos ter outros projectos prioritários para nós neste momento: perguntem-nos por isso!

Eu sei, não fazem por mal, e parece que acham que têm voto na matéria em relação à nossa reprodução, porque de repente mais nenhuma conquista na nossa vida tem igual relevância.

Se calhar ter filhos até faz parte dos nossos planos, mas não para já, não para os próximos anos. E, ultimamente, o que nos tem feito vibrar tem sido outro tipo de projectos, conquistas pessoais ou profissionais. Um hobby novo, a nossa próxima viagem, os novos truques que temos estado a ensinar ao nosso cão, o nosso crescimento na nova empresa, o nosso blogue de consciencialização para a endometriose… (revirando os olhos heheh)

4. Não conseguimos engravidar

A infertilidade é um problema chato, frequente (segundo a OMS afecta 15% da população em idade reprodutiva), e muita gente ainda age como se nunca tivesse ouvido falar disso.

E se alguém da vossa família for infértil, existe uma (grande) probabilidade de vocês não saberem.

SURPRESA! Será que se esqueceram de ir ao whatsapp da família espalhar a notícia quando descobriram?

Ou será que é apenas um assunto que não querem expôr com ninguém?

Se um casal é infértil, provavelmente tem chorado muito nos últimos tempos, quem sabe a relação já tenha estado prestes a terminar, quem sabe esta seja a mais dura prova que enfrentaram… de repente, há um ano, um médico assegurou que este Natal já haveria um bebé, e afinal não, e cada conquista, cada nova derrota.

É um processo duríssimo e não fazemos puta ideia de para onde nos vai levar.

Os anos passam, as contas esvaziam-se em tratamentos, os casais sofrem sozinhos e, se pensarmos bem, a última coisa que querem é serem constantemente relembrados deste enorme vazio que invade os seus corações e as suas casas.

Natal é carinho, compreensão, risos, abraços. Natal é querer estar ali. Natal é amor.

Perguntarem quando é que vamos finalmente ter filhos é tudo – TUDO – menos uma demonstração de amor.

Então, neste Natal, absorvam de verdade o espírito natalício e parem, de uma vez por todas, de trazer este assunto à baila.

Ficaremos eternamente gratxs e sentir-nos-emos eternamente amadxs, posso assegurar-vos.

Querem ler mais? Tomem e feliz Natal:

Ter dores menstruais NÃO é normal

Endometriose e infertilidade: o que é que se sabe?

12 dicas para tomares conta do teu pipi

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial

Achaste este artigo útil? Então, junta-te a mim e partilha a informação ❤

%d bloggers like this: