O Meu Útero

Sobre influencers que não são bem o que parecem

Hoje li um artigo sobre uma influencer que seguia uma dieta estritamente vegan e foi “apanhada” a comer peixe. É espantoso o poder que têm as redes sociais e todos os dias aprendemos um pouco mais. Influenciadores têm de parar de se impor como modelos a seguir, e seguidores têm de aceitar que ninguém é perfeito. Ambos têm de aprender a pensar pelas suas cabeças.

Isto faz-me refletir sobre a minha própria experiência com O Meu Útero, principalmente no que toca ao instagram. Os meus conteúdos são quase exclusivamente sobre saúde, e com a saúde não se brinca. Qual é o meu papel no meio disto tudo? Disseminadora de informação ou influenciadora? Um pouco de ambos, já que o segundo vem por arrasto do primeiro?

É sobretudo quando estou no banho que me questiono e que chego a algumas conclusões. Sinto que, neste projeto, me coloco em posição de desbravar terreno com a minha própria experiência, e isso funciona para o bem e para o mal. Sei do importante papel da alimentação e do estilo de vida para tratamento dos sintomas, e sei que comigo funciona. Sei que se me porto mal sofro as consequências quando me vem o período. As crises são horrorosas e levam-me ao limite de questionar o porquê de ter nascido.

Mas, apesar de tudo isto, nem sempre consigo seguir o tratamento. Porque “sou humana”, dizem os meus amigos. Porque sou preguiçosa, digo eu; porque sempre gostei de comer, de beber e de festa e em certas situações é demasiado fácil ceder.

E quando se passam semanas em que não sinto sintomas, quando menstruo sem dor, é inevitável não me convencer de que estou bem. É mesmo difícil. Eu sei que continuo doente, mas não me sinto assim, e atirar-me a um balde de Ben&Jerry’s é aliciante. Não só pelo prazer do sabor. Fazer asneiras destas faz-me sentir liberdade e poder.

Eu no fundo sei que estou a cavar a minha própria cova, que isto mais tarde há-de refletir-se em sintomas. Tenho noção que estou a deitar por terra muito trabalho feito. Mas eu quero poder não querer saber. E, honestamente, não sou assim tão forte. Mudei imensa coisa na minha vida e o balanço é positivo. Mas também achei que ia conseguir tornar-me num ser iluminado, capaz de resistir a tentações malévolas, e não foi assim. Pelo menos até agora.

Estou mais calma, sem dúvida. O meu quotidiano é bem mais estável, preocupo-me muito com as horas de sono, medito às vezes, alongo um bocadinho todas as manhãs, e todas essas coisas que as pessoas que passaram para o lado da luz fazem.

Só que ainda sinto borboletas na barriga quando marco uma saída com amigos. Faço figas para a noite só acabar às 8 da manhã. Penso nas asneiras todas que vou fazer e fico contente. Depois fico apreensiva. Se o meu útero não existisse, este dilema não era uma questão para mim.

Não tenho problema nenhum com as bebedeiras que apanho (que são raras), ou com as palhaçadas que faço (que não são assim tão raras). Contudo, cada vez mais, sei que me vou tornando um exemplo para quem me acompanha através das redes. Evito falar dos erros que cometo porque não quero correr o risco de estar a encorajar outras pessoas com endometriose a cometê-los também.

Mas também não quero passar a imagem de ser perfeita.

Estou convicta de que a solução para mim passa por deixar de fazer coisas que me fazem mal para sempre, e acho que esse dia há-de chegar. Mas julgo que isto tudo seja mais uma questão da cabeça, sabem?

Eu ainda sou irresponsável comigo mesma. Reconheço isso. Entre o dizer e o fazer, às vezes existe uma distância.

Eu realmente acredito que sou o tipo de pessoa que nasceu para ser boémia, carpe diem, noitadas inspiradas nos hábitos alcóolicos do Bukowski e etc e tal. Com a diferença de que a endometriose veio para me estragar os planos.

De qualquer forma, eu sou só uma pessoa qualquer.

Nunca pensei escrever/dizer isto e sei que corre o risco de soar presunçoso. É que é mesmo o tipo de coisas que celebridades históricas dizem em entrevistas, nas suas mansões, com os seus 14 cães de raça, cozinheiro privado e milhões de euros na conta.

Eu não sou nenhuma dessas coisas mas, algures na minha trajetória aqui na Terra, decidi começar um blog e um instagram, mantive o trabalho consistente, comecei a alcançar cada vez mais pessoas que não me conheciam de lado nenhum e a ajudá-las a encontrarem um diagnóstico. Muitas delas começaram a acompanhar-me diariamente, muitas delas admiram-me porque a informação que passo permitiu que melhorassem a qualidade de vida.

Eu agradeço as palavras de apreço e de reconhecimento ao meu trabalho, nomeadamente quanto aos artigos informativos sobre endometriose. Eu sei que o que faço exige determinação e estou muito orgulhosa do que alcancei.

No entanto não sou perfeita. Ninguém é perfeito. E aquelas pseudo-celebridades que vocês seguem no instagram muitas vezes são pessoas miseráveis e inseguras, movidas exclusivamente pela validação externa. As fotografias são manipuladas. Aquilo não é real.

Mas também, como já dizia o Matrix, nada é real.

Por isso, carpe diem.

Procurem informar-se o melhor possível sobre as decisões que tomarem e responsabilizem-se por elas.

Já agora, se apoiam o trabalho d’O Meu Útero, estejam à vontade para me pagarem um café, clicando aqui (é seguro, prometo). Se quiserem saber mais sobre esta opção, espreitem este artigo.

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