O Meu Útero Blog

Hoje sinto TPM, ou todas as emoções à flor da pele

Ontem conversava com um amigo e culpabilizava a fase do ciclo em que me encontrava com a reacção que tive a uma determinada situação.

Contei-lhe sobre um momento recente que me tocou especialmente. “Choraste?”, perguntou-me. E eu, no meu modo teatral, revirei os olhos e respondi “Não, não estava a ovular”. Na verdade, agora que penso, cometi um erro: não é quando ovulo que se me nasce um nó na garganta e um beicinho por tudo e por nada – é depois; a famosa tensão pré-menstrual, que me dá para viver emoções intensamente.

Há quem não entenda a fase pré-menstrual e eu compreendo. Nem todas a vivem. E entre quem a vive, as experiências são diferentes. Quando os sintomas de TPM são muito evidenciados, há que procurar perceber o que se passa. No meu caso, as minhas hormonas, útero, ovários, está tudo baralhado. E, talvez por isso, tenho endometriose, adenomiose e ovários poliquísticos.

Então é mais ou menos assim que o meu corpo e a minha mente acusam que a menstruação está para chegar:

Não que me sinta propriamente mais triste com a vida – por vezes há alguma tristeza desencadeada por sabe-se lá o quê. Mas, antes de menstruar, o coração está mais trémulo e lida de forma especial com as adversidades quotidianas.

De certa forma, busco explorar estas sensações, tocar na ferida. Tenho bebido sumo de melancia, que só costumo beber no Brasil. Tenho usado o Ma Chérie, perfume do Boticário que usava em pequena, e que todas as meninas no Brasil usavam.

Tenho agradecido por estar calor, como está lá o ano inteiro. Tenho visto passagens para ir visitar a minha família, já não a vejo há mais de dois anos.

Hoje pus-me a redescobrir a discografia do Caetano Veloso – alguma coisa acontece no meu coração -, que o meu pai reproduzia com os seus dedos longos e desenvoltos nas cordas do seu violão, num mero dia de semana após o jantar – já qualquer coisa doida dentro mexe.

Quero rever os meus tios, beleza pura, quero abraçar os meus primos, pra ficar tudo jóia rara, quero respirar o ar húmido nordestino, tão pouco turva-se a lágrima nordestina. Quero o meu pai.

Como é que é possível alguém sentir tanta saudade assim, de repente? Como é que as hormonas trabalham tão avidamente para que o coração pulse tanto? Se o tempo cura tudo, às vezes parece que tem o efeito contrário. Sinto-me a borbulhar por dentro.

Ao mesmo tempo, noto o tamanho deste amor. É um amor que não cabe no peito. Afinal, não será isso bom? Não será uma dor boa? Talvez. Mas dá-me vontade de chorar e de me enfiar debaixo dos cobertores.

No outro dia senti um cheiro que se assemelhava a cuscuz com leite e manteiga acabado de fazer. Imediatamente fechei os olhos e imaginei-me em casa da minha tia.

Agora já não posso comer dessas coisas, mas só o cheiro já me deixa feliz, e talvez até comesse um pouco se pudesse…

E talvez o momento até merecesse uma lágrima. Uma lágrima, ou até duas, certamente não tão contidas como aquelas que insistem em querer sair enquanto escrevo este desabafo.

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