O Meu Útero Blog
Endometriose e infertilidade

Quando já nada parece resultar | Testemunho da Ana

Recebi o e-mail da Ana e fiquei arrepiada com o seu testemunho. Espero que a sua história sirva de alento para quem está neste preciso momento a atravessar o duro caminho da infertilidade.

É verdade que nem todas as pessoas conseguem alcançar o sonho de terem um filho.

No caso da endometriose, não se sabe porque é que isto acontece, mas os números estão em cima da mesa – há mulheres com endometriose que não conseguem engravidar.

Se, no entanto, paira a incógnita sobre se havemos de conseguir ou não ter filhos um dia, eu digo que temos que nos agarrar ao copo meio cheio: ao número de mulheres que conseguem engravidar depois de muito batalhar e aos seus relatos que nos inspiram.

Caímos? Caímos, sim. Mas havemos de tornar a erguer-nos, sabendo que nem sempre nos vamos sentir capazes de o fazer, mas lembrando-nos que podemos recorrer a rede de apoio que começa a crescer. 

Há mais mulheres com as nossas feridas e dores.

Partilhar e aprender com a experiência de quem conhece de perto a nossa situação é o que nos permite seguir em frente.

Se também quiseres partilhar o teu testemunho, envia-mo para catarina@omeuutero.pt.

 

Também podes querer ler:

Endometriose: o que é e como se diagnostica

Endometriose e infertilidade: o que é que se sabe?

É preciso cuidado ao associar a endometriose à infertilidade


 

Olá Catarina,

Eu sou a Ana, tenho 33 anos e resolvi partilhar contigo e com as meninas que te seguem, a minha caminhada nesta luta contra a endometriose e infertilidade.

 

Períodos muito dolorosos.

Fiquei menstruada pela primeira vez aos 13 anos, mas antes disso, era frequente ter dores na barriga durante a noite, acompanhadas de cólicas e diarreia.

Sempre tive muitas dores quando me vinha o período, tomava sempre comprimidos e achava que era normal, porque era o que me diziam. Claro que sempre tive pessoas que achavam que eu exagerava e isso fez com que eu própria sentisse que devia desvalorizar as dores que tinha.

Aos 17 anos tive a minha primeira consulta na ginecologista, onde me foi receitada a pílula de modo a aliviar esses sintomas. De facto, as coisas melhoraram, mas continuava a ser necessário tomar algo para as dores quando menstruava.

Posteriormente comecei a tomar a pílula contínua, receitada pela minha ginecologista para evitar ter semanas complicadas e impeditivas das minhas rotinas.

Na verdade, eu sempre achei estranho ter dores tão intensas. Nunca achei normal uma mulher ter que recorrer a fármacos todos os meses, para mim isso não era natural, o corpo humano “perfeito” devia funcionar sem isso.

[Ter dores menstruais não é normal, podes ler mais sobre isto aqui]

Quando bateu aquela vontade de ter filhos, achei eu que isso ia ser um processo normal, que as coisas iriam acontecer naturalmente. Fui à ginecologista, fiz exames (ecografia pélvica) e análises. Resultado: tudo OK!

A médica que me seguia nessa altura disse para tomar o ácido fólico e que se em 3 meses não engravidasse para ir lá novamente. Confesso que achei isto um exagero, até porque já tinha ouvido dizer que o quadro de infertilidade começa a ser investigado depois do casal ter relações não protegidas por um ano e não acontecer gravidez.

Deixei a pílula, começaram as menstruações dolorosas, os meses a passar e nada de gravidez…

Voltei à médica 6 meses depois, repeti a ecografia pélvica e fiz ressonância, e aqui sim foram detectados, nos dois ovários, quistos de grande dimensão de endometriose e focos de endometriose em toda a minha zona pélvica, bem como obstrução das trompas.

A ginecologista que me seguia disse-me logo que tinha que fazer cirurgia e pediu também um espermograma ao meu marido.

Eu vim arrasada dessa consulta e comecei a pesquisar na internet tudo sobre a doença e médicos especialistas.

 

A partir daqui, começou um período negro da minha vida.

Amigas a engravidar, babyshowers para organizar. Isto para mim era como ir para a forca. A pressão social mais forte que nunca, principalmente nestes eventos. A pergunta “então e vocês?” “já  está mais que na hora!” “estão à espera de que?”.

Eu ficava num estado emocional tão débil, que passava as noites a chorar.  Marquei consulta com o Dr. Setúbal em 2016. O primeiro impacto com ele não foi nada bom, ele sugeriu logo a cirurgia, tendo em conta os exames que lhe mostrei, disse-me que seria impossível engravidar no estado em que estava, que nem com uma FIV (fertilização in vitro) ia conseguir.

Nesse dia fiquei sem chão.

Para piorar, tinha uma das minhas melhores amigas na MAC (Maternidade Alfredo da Costa) a ter bebé e eu não consegui ir lá vê-la porque, para mim, a vida estava a ser madrasta e eu não conseguia lidar com a felicidade dela.

 

Aqui começou a minha luta no caminho da infertilidade.

Para além do sofrimento que o casal vive, todos os meses são frustrantes, todos os meses os casais que passam por isto enfrentam duas fases: a fase da esperança de que este mês é que vai ser e a fase do luto, sempre que a mulher menstrua.

A vida sexual do casal deixa de ser um momento descontraído e passa a ser organizado ao calendário. Isto é o princípio do fim de uma relação.

A par disto, a vida social começa a desmoronar-se por completo.

Vi todas as minhas amigas a engravidarem, todas as colegas de trabalho, todas as amigas de infância… senti-me completamente excluída de tudo, porque as conversas passam a ser gravidez/filhos.

Os momentos festivos, como o Natal, passagem de ano e aniversários eram terríveis. Comecei a afastar-me de algumas amigas, mas também foi nesta fase que vi quem eram as amigas de verdade!

 

O momento da cirurgia.

Ao fim deste tempo todo sem bons resultados resolvi ser operada em setembro de 2017, pelo Dr. Setúbal.

Na cirurgia verificou-se que tinha focos de endometriose em toda a região pélvica, muito mais do que os que foram visíveis nos exames que tinha feito, tinha no umbigo, intestinos, bexiga, rim e apêndice (que me foi retirado).

Mas, contrariamente ao que os exames demonstravam, não tinha as trompas obstruídas. A cirurgia demorou 4h.

 

A tão esperada gravidez.

A recuperação pode-se dizer que foi rápida e não muito dolorosa e em novembro decidi voltar aos “treinos”. Em janeiro, comecei a sentir-me muito calma e sem o peito dorido.

Fiz o teste de gravidez e estava grávida!

Contei ao meu marido, ficámos felizes mas não celebrámos. O sofrimento que já tínhamos passado não permitia celebrar, apenas esperar e rezar que tudo corresse bem. Felizmente tive uma gravidez muito serena, sem problemas e exatamente passado um ano da cirurgia à endometriose, entrei em trabalho de parto.

Foi uma luta muito difícil, que deixa marcas, a vontade de desistir de tudo esteve sempre muito presente, mas não foi maior que o meu desejo de ser mãe. Gastámos muito dinheiro e mais do que isso, ficámos arruinados da nossa saúde mental.

A infertilidade traz dores inimagináveis, debilitantes, tira-nos a auto-estima por completo, tira-nos a vontade de conviver e de viver.

 

Uma mensagem para quem está a viver a infertilidade neste momento.

A mensagem que gostaria de deixar é para terem sempre fé e não se deixarem abalar pelos outros, que eu sei, que podem não fazer por mal, mas muitas vezes a curiosidade e a vontade de falar e especular, falam mais alto e por mais forte que sejamos, isso deita-nos abaixo.

Nesta fase da vida acho importante rodearmo-nos de  pessoas que nos fazem bem, que nos animam e que nos façam esquecer por  momentos a dor de alma que carregamos.

Agora que olho para trás, arrependo-me de não ter dito “não” a muitas situações, que eu antecipadamente previa que me iam deixar mais triste e deprimida.

Eu sei que ninguém tem culpa de uma pessoa estar a atravessar uma situação de infertilidade, mas é importante protegermo-nos de situações que nos deixem desconfortáveis.

Já nos bastam as dores horríveis que a endometriose nos dá! No meu caso, foi também importante confiar a 100% no meu médico e seguir a linha de tratamento que ele propôs.

E mais importante que tudo isto é nunca nos sentirmos culpadas nem menos mulheres por termos este problema!

Quero agradecer-te, Catarina, pela ajuda, pela força e pelas dicas que sempre nos transmites e que tão bem nos fazem!

Grande beijinho

 

 

2 comments

  1. Obriagada Ana pela partilha e á Catarina por nos dar voz 🙂
    Já tive a necessidade de verter umas lágrimas 🙁 lol AHHHHH a infertilidade já era um fardo pesado para mim…E depois descobri a endometriose essa malvada…A sensação que tenho é que cada passo que dou para conseguir ser mãe, acabo por dar 2 ou 3 para tras…e cada vez me parece mais dificil.A minha história é parecida a da Ana. So que no meu caso demorou a algum ginecologista me dar credito e me ouvir, só quando isso aconteceu e percebi o que se passava comigo. Fui operada e nem sequer tive dúvidas que não iria conseguir engravidar e talvez nem viver se nao fosse operada. Mas julgava que a operação ia ser a solução para tudo. A minha HAM ficou muito muito baixa, naturalmente não conseguimos e fizemos FIV. Mas parece que também não o vamos conseguir, a resposta dos ovarios é muito baixa. Só tinha folículos no dia da punção. Só 2 estavam maduros e apenas um fertilizou, mas parou de se desenvolver…E sem ovos não se fazem omeletes… 🙁 Vou tentar um ultima vez com medicação e protocolo distinto, mas se a resposta for similar nem faço a punção…O dinheiro é pouco e são tratamentos muito caros…o que me deixa um aperto no peito, um desespero…por não poder continuar a tentar…Já aceitei que o meu caminho terá de passar pela ovodoação…

    1. Patrícia, obrigada por partilhares a tua história <3 nós fazemos planos e estamos habituadas a ter uma ideia concreta de como é que as coisas se vão desenrolar... mas ninguém nos prepara para aquilo que não é a norma. Deparamo-nos com imprevistos difíceis e sentimo-nos perdidas! Para além disso temos pouco apoio (financeiro, social...) e poucas alternativas. Talvez não seja este o nosso rumo, mas também é verdade que me chegam cada vez mais histórias de resilência e conquistas, e isso tem de significar alguma coisa. Nem que seja para nos encher de confiança quando o quadro se afigura negro. Desejo-te muuuita força. E seja qual for o teu caminho, que seja sem dor e com muitos momentos felizes. Um beijo. Cat

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial

Achaste este artigo útil? Então, junta-te a mim e partilha a informação ❤

%d bloggers like this: