O Meu Útero
testemunho endometriose

Endometriose: testemunho da Maria Karoline

Quando falamos de endometriose ou de adenomiose, temos de ter em conta que cada pessoa sofre a doença de uma forma particular. Dificilmente encontramos casos iguais. Por isso, há quem se queixe de dor crónica debilitante; há quem sinta dor cíclica (mais ou menos forte); há quem sinta muito raramente, e há quem nunca sinta dor!

O testemunho da Maria Karoline demonstra um dos extremos da escala de sofrimento causado pela endometriose. A medicação alivia temporariamente, mas causa outro tipo de danos. A cirurgia não é garantia de cura, e corre-se o risco de se iniciar um círculo vicioso porque a doença volta sempre. O quadro inflamatório continua, piorando ano após ano, e o nosso corpo torna-se uma bomba-relógio para as crises de endometriose.

Deixo-vos então o testemunho:

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Olá Catarina, me chamo Maria Karoline, tenho 24 anos e moro em Canoas RS.

Tenho endometriose grau 4, intestino, bexiga e etc. Venho lhe escrever pois ouvir histórias iguais à minha me fazem perceber que não estou sozinha nessa luta.

Minha menstruação veio quando tinha 9 anos, desde a primeira vez com muita cólica. Com 13 anos começaram a vir as dores infernais, comecei a ir em ginecologistas do SUS (serviço nacional de saúde do Brasil) e eles sempre falavam que era normal ter essas dores.

Em uma crise aos 14 anos, e com muita hemorragia, até exame de gravidez a médica pediu, achando que podia ser uma dor de aborto. Lembro-me quando, nesse dia, mesmo estando com sangramento, ela fez exame de toque em mim.

Nessa hora quase morri e gritava de dor.

Lembro-me de cada pausa no anticoncepcional, essas pausas eram motivo de ter um inferno no meu útero, todas as vezes que eu menstruava tinha que ir para a emergência. Assim se passaram 8 anos.

Com 21 anos fiz um plano de saúde onde, na primeira consulta com uma ginecologista, após eu falar das dores e sangramentos, ela me falou da endometriose e me encaminhou para um médico cirurgião.

No ano seguinte veio a primeira videolaparoscopia, onde de cara já detectaram a endometriose por toda a parede adnominal e útero.

Comecei então a descobrir os remédios caros e as bombas de hormônios. Tudo começou com Pyetra, depois Allurene, uma tentativa frustrada de DIU (pois nada segurava o sangramento), em que a ginecologista me aconselhou a estar menstruada para o colocar. Quase morri de dor.

Segui com Pyetra, mas com dores na relação e dores sem sangramento.

Em 2017 veio a segunda videolaparoscopia, onde viram que o intestino estava grudado pela endometriose, e ovários e útero eram quase um só.

Havia tanta aderência que, para retirar nessa cirurgia foi necessária uma cesárea. Comecei então o zoladex de 3 em 3 meses. Tomo a dose mais forte, num valor de 2 mil reais cada (cerca de 460€), com 23 anos e uma menopausa química, que me faz passar mal de tanto calor.

Foram 4 doses do inferno, inchaço, calorões, dores de cabeça, mas sem cólicas.

Hoje, por conta própria, parei o zoladex.

Estou na expectativa de descer sangue e eu morrer de dor, todo o dia o medo toma conta. A terceira videolaparoscopia está prestes a ser marcada, já fiz todos os pré-operatórios mas penso que nunca vai ser a última cirurgia.

Nos últimos 3 anos foram uma por ano, onde ocorre todo um desgaste, afastamento do trabalho, reprovação na faculdade pois não aceitam atestado, toda uma vida baseada na dor: planos, sexo, viagens, tudo dependente de como eu estou.

Idas ao pronto socorro, tomando morfina, tramal e etc, suores diários da menopausa química… Ao longo dos meus 24 anos nunca me vi um dia sem dor.

Terça-feira agora é o dia de marcar a terceira videolaparoscopia, estou pensando se vai ser a última, se vou passar mal no pós-operatório, mais uma anestesia geral… A vida de uma endoguerreira não é fácil.

Após a endometriose veio a intolerância a lactose e ao glúten. Minha médica fala que é porque meu organismo de tanto medicamento ficou sensível a tudo, quase tudo me faz mal, feijão, massas, leite.

Hoje estou sem tomar nenhum hormônio ou anticoncepcional, mas nunca sei do dia de amanhã. Tomei uma decisão de não ir na consulta pré-cirúrgica e não fazer essa videolaparoscopia, amanhã vou me matricular em uma academia (ginásio) e fazer exercício nos dias que não tenho aula.

Faço faculdade mas falto bastante, trabalho mas tem bastante atestados.

As pessoas enxergam quem tem endometriose como uma pessoa que está sempre doente, às vezes tenho a impressão de que ninguém acredita na minha dor mas ela é tão real.

Dói para fazer xixi, cocô, para tossir, espirrar, para fazer sexo, dói na alma, a cada sangramento descubro um lugar ou posição nova para sentir dor.

A vida de uma endoguerreira é uma história incerta. Filhos? Após ter me casado essa é a pergunta que mais ouço.

Meu meu sonho é retirar útero ovários e tudo mais, só quero uma vida normal. Claro que toda mulher pensa em ter filhos mas a dor da endometriose é desumana e cruel, antes de pensar em filhos penso na minha saúde.

Não é egoísmo embora muita gente pense. Somente quem passa pelas dores incapacitantes sabe, só queremos cura e nada mais.

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