O Meu Útero
efeitos da pílula

Contraceptivos orais: o que é que sabemos sobre o seu impacto no cérebro?

Um novo estudo está a ser desenvolvido no Canadá para perceber a forma como a pílula contraceptiva afecta a capacidade de pensar da mulher. Laura Gravelsins, estudante de doutoramento a liderar a investigação, explica que o estudo pretende testar a memória de trabalho de 60 jovens mulheres que tomam a pílula.

Gravelsins é uma entre várias investigadoras que se propôs a explorar uma área que, até agora, foi sempre negligenciada.

A pílula foi introduzida no mercado na década de 60 e, desde então, ganhou crescente popularidade. São conhecidos alguns riscos físicos associados à sua toma e também os seus possíveis efeitos secundários. No entanto, a ciência nunca se debruçou sobre os seus potenciais impactos no cérebro, mais concretamente na disposição, capacidade de aprendizagem e memória das mulheres que a tomam.

 

Estudos são poucos e são contraditórios

A literatura de que dispomos hoje em dia não basta porque é insuficiente e contraditória. Se, por um lado, se afirma que a pílula está associada a um maior risco de depressão, existe outro estudo que conclui que mulheres que tomem a pílula têm menos sintomas de depressão.

Simultaneamente, há que averiguar se a toma prolongada de contraceptivos hormonais tem impacto na forma como se comporta o cérebro.

“Se tomas contraceptivos orais por 20 anos, quais serão os efeitos disso? Não me parece que saibamos a resposta a essa questão, de todo.” esclarece a Dra. Gillian Einstein, professora de psicologia na Universidade de Toronto.

A ciência tem vindo a descobrir o papel de outro tipo de hormonas no funcionamento do cérebro. Então, será que com a pílula contraceptiva é diferente?

Existe uma enorme lacuna em termos de investigação da saúde da mulher ao longo da história, e quem o diz é a Dr. Amy Miller, Chief Executive Officer da Society for Women’s Health Research (Sociedade para a Investigação da Saúde da Mulher).

Até há cerca de 30 anos, as mulheres eram excluídas de todos os tipos de ensaios clínicos, uma vez que os investigadores receavam as consequências negativas destes ensaios em gravidezes não detectadas, e porque assumia-se que as flutuações hormonais tornavam o corpo da mulher demasiado complicado para ser estudado, explica Miller, que completa: “A consequência é, infelizmente, tomar-se decisões respeitantes à saúde a partir da melhor evidência científica que temos, evidência esta geralmente em falta.”

[Artigo: o meu problema com a pílula]

 

As mudanças de humor afinal podem ser uma consequência da pílula

As alterações de humor associadas ao uso da pílula haviam já sido descartadas como sendo apenas uma coincidência. Contudo, a Dra. Nicole Petersen, pós-doutoranda no Semel Institute for Neuroscience and Behaviour, esclarece que crê que “estamos a caminhar para um lugar em que podemos afirmar que não é bem assim – que há mulheres que apresentam uma resposta negativa por causa da pílula”. Acrescenta que, ainda assim, nem todas as mulheres reagem da mesma maneira, e ainda não se sabe o porquê.

Petersen conduziu vários estudos de exames de imagem ao cérebro e encontrou diferenças na estrutura e na actividade de cérebros de mulheres que tomavam contraceptivos orais, em comparação com as que não tomavam.

De qualquer modo, estas conclusões não permitem avaliar de que forma se manifestam estas diferenças, pelo que Petersen está neste momento a dedicar-se a aprofundar estes estudos, comparando as mulheres que tomam a pílula com elas mesmas – observando assim as flutuações de humor e disposição enquanto tomam a pílula e enquanto tomam placebo.

Já na Universidade de Toronto, Gravelsins está a estudar a memória de trabalho das mulheres, nomeadamente enquanto resolvem complexos problemas matemáticos, uma hora ou duas após a toma de contraceptivos orais. O teste é repetido 24 horas depois, quando os níveis hormonais baixam, para perceber se a performance se altera de acordo com a atividade hormonal.

 

Como é que as hormonas sexuais afectam o cérebro? E como é que a pílula afecta o funcionamento dessas hormonas?

Outra área que precisa de maior exploração é a forma como as hormonas sexuais, inclusive aquelas produzidas naturalmente, influencia cérebros em desenvolvimento. Na University of British Columbia (UBC) está a ser levada a cabo uma investigação sobre o papel das hormonas sexuais no desenvolvimento emocional de 300 raparigas, entre os 13 e os 15 anos.

A Dra. Frances Chen, professora assistente de psicologia que está a liderar o estudo da UBC, explica que os contraceptivos hormonais foram desenhados para serem usados por mulheres adultas. Mas os investigadores ainda estão a tentar perceber se esta medicação interage com as hormonas naturalmente produzidas na puberdade, impactando as emoções, o comportamento e a saúde mental das adolescentes.

 

*Nota: este artigo é uma tradução e adaptação deste artigo, da autoria de Wency Leung, publicado no The Globe and Mail

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