O Meu Útero Blog
Pílulla

O meu problema com a pílula

Existe muita controvérsia à volta da pílula contraceptiva – uns dizem que é potencialmente cancerígena, quando outros dizem que é maravilhosa na prevenção de cancro. Uns dizem que é a causa de todos os problemas do mundo, enquanto outros defendem que é a melhor invenção depois da roda.

Ainda há muitos estudos a serem feitos, uma vez que a pílula não é hoje o que era há 20 ou 30 anos. Se podemos assumir que, sim, a pílula do tempo das nossas avós era uma bomba para o organismo e que hoje em dia as coisas não são bem assim, também temos de reconhecer que é necessário que se continue a investigar os potenciais riscos associados à toma prolongada da pílula.

Feita esta introdução, não é o objectivo deste artigo defender ou atacar a pílula contraceptiva a partir daquilo que a ciência tem vindo a manifestar sobre o tópico – apesar de achar um tema muito interessante, não sou médica. e, muito francamente, não sei que conclusões tirar de todo o debate.

Mas de um ponto de vista sociológico, creio que existe espaço para que teça alguns comentários sobre como a generalização da toma da pílula como terapêutica pode ter um efeito contraproducente a longo prazo.

 

Onde começou o meu problema com a pílula

Acho a pílula um meio maravilhoso para prevenir gravidezes indesejadas e, nesse sentido, cumpre o seu papel praticamente a 100%.

Acho que qualquer mulher tem o direito de tomar a pílula e não deve a ninguém uma justificação para o fazer.

O problema, no meu ponto de vista, é quando a pílula é tomada contra a vontade da mulher para “solucionar” algum comportamento menos normal que o corpo venha a apresentar.

Eu tomei a pílula por cinco anos, sem grandes efeitos secundários associados, e decidi parar. Decidi parar só porque sim.

Desde que deixei a pílula fui inundada por uma corrente de variados sintomas e acabei por descobri um conjunto de problemas relativos ao meu sistema reprodutor: tenho ovários poliquísticos, tenho adenomiose e endometriose.

Foi exactamente por esta ordem que descobri cada uma das doenças (nota: ovários poliquísticos, em teoria, não é uma doença), num período de dois anos.

 

Terá sido a pílula a origem de todos os meus problemas?

Honestamente, sentia que se tinha montado uma cabala contra mim.

Uns poderão dizer que foi a pílula que me provocou tudo isto. É fácil arranjar um bode expiatório.

Mas, muito sinceramente, tenho a certeza que não. O que não deixa de ser também um problema.

É que a maioria dos sintomas que me atacaram sem dó nem piedade já lá estava antes de eu sequer ponderar tomar a pílula. Desde a primeira vez que menstruei, para ser exacta.

Aliás, pensando bem nas coisas, foi exactamente por causa desses sintomas que eu comecei a tomar a pílula! Se tivesse continuado a tomá-la (não a deixei por nenhuma razão em concreto, simplesmente não quis continuar a tomar), hoje ainda estaria longe de sonhar que o meu corpo, afinal de contas, não estava bem.

 

Varre-se um problema para debaixo do tapete

Esta situação merece um valente encolher de ombros, porque a verdade é que não há cura para nenhum dos problemas que eu tenho. Hilariante, não é?

Você tem ovários poliquísticos. A solução é tomar a pílula.

Não.

Você tem adenomiose. Planeia engravidar em breve? Então tome a pílula continuada.

Não.

Você tem endometriose. Para reduzir as dores tome a pílula continuada.

NÃO!

E mil vezes não! Sabem porquê? Porque foi por causa da estúpida da pílula que a minha doença piorou sem eu sequer ter noção de que estava doente! Já chega de pílula!

Foi por acharem que a pílula deve ser recomendada como terapêutica para sintomas que nem sequer são encarados como sintomas (dores menstruais não são normais, e devem ser investigadas em vez de serem imediatamente silenciadas) que eu não descobri logo que de facto tinha um problema.

Vocês podem achar “Ok, o médico não deve ter percebido que as dores eram tão fulminantes”. Eram, eram aniquilantes, eram centenas de facas a atravessarem-me o útero, era uma chacina entre a zona do meu umbigo e dos meus joelhos – nem as pernas se safavam. Era eu deitada por um dia inteiro, gemendo, à espera que o anti-inflamatório resultasse.

Para além disso, devido aos ovários poliquísticos, eu nunca fui regular. “Há mulheres que não são regulares”, diziam-me, e eu nunca fiz caso. Até perceber que não se ser regular significava ter uma variação de um par de dias no ciclo.

Não, minha gente. Desde a primeira vez que menstruei que tenho intervalos entre menstruações de 15, 20, 30, 40, 50, 70, 100 dias.

Solução: pílula. Aliás, se eu tenho cólicas monstruosas e períodos tão irregulares, junta-se o útil ao agradável, não é?

Só quando fiquei por oito meses sem menstruar (na minha primeira tentativa de deixar a pílula) é que pensámos que alguma coisa não estava a bater certo. Através de uma ecografia intravaginal, descobrimos os sacanas dos ovários cheios de bolinhas, pareciam uma colmeia. Eu não queria acreditar.

Mandaram-me tomar a pílula porque não havia outra solução para os ovários poliquísticos.

Mau, outra vez?

Comecei a investigar, e a investigar – sobretudo quando descobri a endometriose e a adenomiose, dois anos depois. Descobri que uma alimentação equilibrada, juntamente com outras alterações ao estilo de vida, tem um papel fundamental em regular os ciclos e também em contribuir para o alívio de sintomas.

Descobri também que é preciso muito mais estudos e pesquisas quanto a estas disfunções. Estão a ser feitos? Nem por isso. Pelo menos, não com a urgência que deveriam.

Descobri que os médicos precisam de maior preparação quanto a estas doenças. Tem acontecido? Meh… nada de especial.

Sabem, é que enquanto continuarmos a silenciar estas doenças com pílulas e mais pílulas, não vai haver quem crie a urgência de se procurar métodos eficazes de tratamento.

 

Está na altura de abrirmos os olhos

Enquanto continuarmos a desvalorizar as queixas das mulheres que, nitidamente, apontam para a presença de algum tipo de disfunção ou doença, continuamos a contribuir para o problema.

No caso da endometriose, vejamos: uma em cada dez mulheres tem a doença (há até quem aponte para os 20%) e nenhuma amiga minha tem. E eu tenho muitas amigas, acreditem. Não é estranho?

Ainda por cima, pensando bem, muitas delas queixam-se dos sintomas de endometriose. Mas os médicos dizem que está tudo bem. Elas continuam a tomar a pílula. E ninguém pergunta, ninguém vê.

As poucas mulheres que descobrem a doença são aquelas que são acometidas por infertilidade. As outras, que por acaso não são inférteis, continuam a sofrer ou ficam presas à pílula para todo o sempre.

O monstro continua adormecido e ninguém se preocupa propriamente em cortar-lhe a cabeça. Afinal de contas, ele está adormecido. Mas, mesmo adormecido, ele magoa – para mais tarde acordar e destruir sonhos, relações, eventualmente até carreiras.

Por isso, não, não vou tomar a pílula. Não quero, e tenho direito a não querer. A todas as mulheres que tomam a pílula para tratamento de sintomas da endometriose, a vossa decisão é igualmente merecedora de respeito. Cada uma sabe a batalha que tem de travar e, no curto-prazo, para quem já identificou a presença da doença, os efeitos da pílula podem ser milagrosos.

Mas todas sabemos que a pílula é só um penso-rápido, certo?

Por isso em todas nós existe um rugido que começa a fazer-se ouvir, e esse rugido diz

BASTA.

 


  • Tem-se concluído que a pílula contribui para um maior risco de ocorrência de certos cancros, e um risco mais reduzido de outros. Se tens curiosidade em perceber mais sobre o impacto da pílula no desenvolvimento do cancro, consulta este site, do National Cancer Institute. 
  • Se não estás muito por dentro do assunto da endometriose, fica a saber aqui em que consiste esta doença que afecta 1/10 pessoas com sistema reprodutor feminino
  • Se queres encontrar um especialista em endometriose, contacta a Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose para o mail geral@mulherendo.pt

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